Arquivo | abril, 2015

UM 3X4 DEITADO

30 abr

Quando escrevo para alguém que não está aqui, tudo faz mais sentido. Escrever para você, é contar a história de trás pra frente. Quanto a nós, só espero que você não me leia.

Ler: ler é também matar o corpo. Uma leitura não representa nada. Ler é perder a coisa à vista. Ela me disse que, sempre que abria o jornal, pensava em nós. Eu não sei como você me lê.

Posso estar deitado em sua mesa. Acomodado na palma da sua mão. A relação com o leitor é automática. Erótica. Ela me disse que o corpo, quando ri, libera toxina. Previne tudo o que não serve pra nada.

Penso nas coisas que guardo em mim, e que não servem para nada. Tudo agora acumula, e transborda, erva. Lavar as roupas. Cuidar da cozinha. Não ter um jardim. Há sabedoria nas cidades cercadas de água.

Do outro lado da janela aqui faz frio. Onde você está, não. Reporto o clima para que você entenda sobre os meus humores. A manhã foi chuva. E um corpo quente quando se acopla, perfeitamente, àquilo que você é. Bicicletas.

Porto Alegre é uma cidade feita de esquinas. Penso em comprar o mapa mundi para saber exatamente onde estou. A sala pede uma segunda luminária. Ficar é consumir. E acumular. A geladeira acumula restos. Comer antes de partir.

A tela será quase um quadrado. Isso é certo. Um 3×4 deitado. Os risos. Os risos. Os risos. Farei um filme feito de risos. Antes de mais nada, há de haver o imperativo cômico. Sobre todas as coisas. Sobre nós, o certo é que seremos. Fato colono.

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29 abr

“É tudo sobre voltar”, ela me disse enquanto olhávamos a cidade balançando muito abaixo dos nossos pés. O livro está fechado sobre as pernas. Em busca do tempo perdido esconde meu sexo. Na fileira ao lado, algumas poltronas à frente, uma mãe e uma filha brincam com um bebê. Retornam à criança que um dia foram. Retornamos nossas poltronas à posição vertical. Estamos prontas para cair.

Todo o pouco implica a perda. Do outro lado da janela, a cidade é um lugar onde já estive. A aeronave manobra a pista. Retornamos à mochila quase todos os objetos perdidos durante o vôo. Quase. Há sempre algum peso extra a ser deixado pra trás. Algum folheto da imigração. As regras de um bom viajante. Meu caderno de anotações. Don’t touch my moleskine. Tudo pode ser deixado para trás.

É sempre complicado explicar o que me faz querer voltar aqui. Não sei se seria o vento sempre gelado. Pouco importa a estação, estar aqui é sempre frio. Quase não trouxe malas. Não vim disposto a carregar. Estar aqui, é voltar a saber sobre a importância das asas. Dos calos. Das cordas. Se trouxe o violão foi para não te ver quieta demais. Ou para acordar antigos sonhos.

Nossa viagem, assim como a sua casa, também será líquida. As pistas guardam sempre os mesmos corpos. Os mesmos antigos copos. Ouso não querer beber. Deixo uma moeda para retornar a garrafa. Tudo são promessas. Cogito nunca mais querer fumar. Depois retorno. Tudo na vida é voltar a ser. “É que quando me olho no espelho, eu sempre levo um susto. Ainda não estou preparada para ser a idade que tenho”.

Atravessamos a cidade carregando sempre muito mais peso do que o necessário. Lembro da última coisa que você me disse antes de partir. “Você está perdendo o seu deserto”. Sobre mim, o certo é que quase não tive coragem de voltar ao seu rosto. A porta do elevador fechou. Seu espelho é sempre estranho para mim. Ainda prefiro as escadas de emergência. Ou o elevador de serviço.isma:cen2