Arquivo | outubro, 2010
29 out

Quando chega a sexta-feira é hora de pensar que não se escreveu nada no blogue durante quase toda a semana. Existem fases em que prazos tomam conta dos dias e isso não quer dizer que estou ganhando dinheiro. Viagens insinuam possibilidades e você nunca será capaz de prever as coisas que pretendo fazer em Londres. There’s a city ready to be discovered. Se a cidade foi mesmo feita para ser destruída, basta que se idealize para que se descubra tudo o que cartões postais, letras de canções e narrativas de amigos não conseguiram contar. Londres deve ser só uma semana. Tempo suficiente para se arquitetar uma volta. Tempo o suficiente para se viciar em alguma droga que só existe lá. Tempo suficiente para talvez ousar sentir saudade de casa. contanto que os prazos sejam cumpridos, a viagem será uma semana longe de mim. Por isso hoje luto contra os dias para vencer prazos. Há sempre a possibilidade de descanso após um oceano atravessado. Pouco a pouco as pesquisas apontam para o que deve ser mesmo e os desesperados estão sempre preparados para tudo. claro que as previsões em prévia de eleições são fatalistas para ambos os lados, não importa em que lado você esteja. É cada vez mais possível que o perigo habite ambos os lados da moeda. Duas caras para uma mesma coroa. Nem o mal é totalitário em sua maldade, nem o bem consegue transcender a primeira prova de amor. Fotografias de um passado não muito distante precisam ser reveladas e a auto exposição dos fatos que não aconteceram atormentam a minha cabeça. Quando decidi falar através das minhas palavras, as coisas passaram a ter um outro efeito sobre tudo. uma carreira não pode ser destruída por vaidade. Ou impossibilidade de enfrentar o fato: talvez você não seja tão bom quanto pensou que seria. A censura está em todos os lados, basta que você se sinta perseguido. Assim como existem modos específicos de se pedir carona em uma estrada para que tipos específicos de  motoristas parem para você, existe também um jeito de permitir assuntos para que tipos específicos de pessoas se aproximem de você. Deve ser característico da idade adulta o entendimento de que dizer não é dizer sim. para si.  Meu pulso dói. Too much yoga will kill your brain. As coisas não aconteceram do jeito que deviam ter acontecido. nada foi o que was supposed to be. Não ouse se aproximar tanto assim. Manter distancias talvez seja uma questão de engordar tanto até ficar sozinho.  A sabedoria dos monges é saber viver sem.

QUARTO CEM. CHELSEA HOTEL.

24 out

Agora que me abstive de ser partidário ou de defender esse ou aquele nome para salvar o mundo, posso descansar sob o céu desse domingo cinzento. Não importa quantas estréias meu coração cansado de ator consiga suportar, o dia seguinte ao fato consumado sempre serão os pensamentos vagando acerca do mesmo tema: em quais momentos da prática ousei ser ausente de mim? Em que ponto da força me vi obrigado a abandonar a contagem das respirações? Se o equilíbrio depende do ponto de encontro entre a velocidade do vento e a temperatura dos ar que sai de dentro dos pulmões, então os números da contagem de vezes passam a ser completamente relativos. Basta que se consiga fechar os olhos e, ainda assim, manter o equilíbrio. Atravessar a piscina em linha reta, sem saber que se nada em círculos. A abstinência é capaz de operar mudanças radicais, tanto para o bem quanto para o mal. É complicado aprender a lidar com a súbita doçura que brota do olho do que se resignou a parar de tentar ser aquele que não é. Não abuse do psico. Nem dos trópicos. Do que entende que é hora de optar entre a faca e a sanidade eu sou o que ousa manter-se imóvel entre o que é e o que é. Nem todos nascemos no mesmo século, embora alguns pareçam habitar o terreno. Os abutres da espécie arte estão por toda parte o que torna fundamental que se defume cada canto de cada pulmão sempre prestes a entrar em cena. Há um abismo logo na próxima fala, mas os que nasceram no século passado preferem o conforto dos faróis, sem saber que, cedo ou tarde, o faro pode morrer. E talvez você não tenha saco, nem dinheiro, muito menos tempo para consertar. Sorte de quem aprendeu a andar no escuro. Mesmo que se obrigue a jogar no lixo quilos e quilos de uma gordura inútil, espessa e fedorenta que você deixou crescer por tempo demais, ainda assim vale à pena continuar tentando escrever a estória perfeita. Mesmo que você prefira não acreditar que todas as histórias já foram contadas, eu até consigo entender que é mais uma questão de sempre se olhar para frente. Ficamos os quatro olhando para o chão, buscando algum assunto que desse sentido ao encontro, mas ninguém ousou falar nada. Só no fim da terceira música foi que começamos a sacar aquele disco. Quando viramos a bolacha amarela e a rádio evangélica não entrou na freqüência da vitrola, é só a certeza de que uma banana é e sempre será uma banana. De carne, de potássio, de dinamite. Uma banana é uma banana. Na serigrafia do gênio. Talvez a única autenticidade que aquela cidade tenha conseguido traduzir. Andy Warhol, queira ou não queira, é o teu espelho mais preciso. Uma fina ironia que brota entre os que desgostam de cabelos tingidos demais, por tempo demais.  talvez o melhor seja sempre fechá-la no final de um dia de trabalho: cinco minutos antes de ir para a cama, guarde o disco dentro da capa. Afinal de contas, macs foram mesmo desenhados para nunca serem desligados? Demora tempo até o personagem deixar a pele, por isso nunca consigo manter longas conversas logo que deixo o trabalho. Em algum quarto dos fundos de uma casa onde agora você mora uma menina um pouco gorda demais vai entender que a primeira música, do lado dois, quase sempre é a mais perigosa do disco. não seria diferente com Andy warhol e seu faro surpreendente para concatenar gênios. Hoje saiu uma matéria sobre a decadência do Chelsea Hotel. É estranho quando se descobre que o quarto cem não existe mais. Não importa quanto os jovens artistas clamem pedindo o contrário, cedo ou tarde, tudo vai ser deixado de ser. O Chelsea Hotel. Bob Dylan was here. O casario de Carneiros. As casas de madeira e de barro quase escondidas entre as plantações colorindo o horizonte curto até o morro do outro lado do rio. Existem distancias que o olho do lajeadense não encontra assim como existe um horizonte sufocado por prédios na maior cidade da America do Sul. Se o mundo corre o risco de desaparecer, quem sou eu para brigar pelo matinho dos fundos da sua casa? As plantações coloridas de fim de dia logo darão espaço a condomínios de trabalhadores médios. Habitando casas medias. Um câncer médio se alastrando. Destruindo paisagens. Derrubando casas antigas. A humanidade em metástase. Aqui em volta de casa, os sobrados tentam resistir ao tempo. Uma mãe mendiga dormindo com seus dois filhos sob o sol, sobre a grama verde da Vila Madalena. Eu queria ter uma câmera para registrar a felicidade do sol batendo sobre tetas. Uma câmera para os primeiros passos dos dois meninos pretos, brigando por leite. O mundo sendo apenas normal. As pessoas insistindo em se indignar com os que não recolhem a sujeirinha dos cachorros. O comércio tentando se adaptar aos sobrados antigos, dos primeiros trabalhadores das primeiras indústrias que um dia chegaram aqui. No passada a vila madalena, pinheiros, era um imenso condomínio de operários. A cidade, quando cresce, é um organismo próprio de auto-compreensão e não importa o quanto você implore para que ela pare de comer o passado. Pare de se converter em um monstro de novidades desinteressantes. Há sempre os que conversam com o sujeito e entendem que, no centro da sala, pode haver um macaco lutando para nunca ser homem. Em algum ponto da viagem, é sempre possível que se perca. Quarto cem. Chelsea hotel. É preciso respeitar as coisas que só foram uma vez. Os casamentos que precisaram terminar. Meu pai e minha mãe entrando de mãos dadas no quarto cem de um hotel onde nunca entrei. Onde fica a nossa casa quando se enterram os nossos sonhos? Aviões cento e vinte três passageiros desabam dentro do mar. Brasileiros são raptados em Londres. Às vezes, perdida em solidões sobre a privada, me pergunto até que ponto você ousaria ir comigo se eu ousasse deixar de ser um pouquinho quem eu sou. As coisas que você me fala sempre que bebemos demais ficam presas dentro da minha cabeça no dia seguinte. A metástase cresce.  Sempre que confesso um segredo que você não consegue escutar, três mil neurônios queimam a tragada funda do cigarrinho de papel. Conviva com o proibido e aprenda a não ser feliz.

 

MACUMBAS URBANAS E MANHÃS INSONES.

20 out

Quando são ambos os que lutam para adormecer, é sinal de que nada está errado com nenhum dos dois. Em particular. Você sabe que ainda não tem idade para ter insônia quando constata que seus pais ainda estão vivos. Ainda não há uma manutenção acerca da velhice alheia e você também ainda não se deu conta de que fatalmente, cedo ou tarde, acabará precisando mesmo de filhos que tomem conta de você. Que empurrem sua cadeira de rodas lembrando de episódios bonitos de uma infância distante. Se recordar é viver, então não transfira para si a dor do solitário. Fatalmente você precisará de enfermeiros que troquem as suas calças então seria aconselhável guardar sempre um pouco de dinheiro em um fundo intocável. Trinta anos seria uma boa idade para começar a estocar alimento. O inverno da velhice tem encurtado os seus dias. Só você que ainda não percebeu. O destino e a velhice são irmãos no tudo pode ser que seja ou no nada será tão ruim assim, nada do que você não consiga suportar. Basta que sempre se espere o melhor de tudo.

Só velhos e crianças habitam um estado de eterno paraíso artificial. São eles os que mais mudam. O adolescente está na iminência da vida. O velho, a um passo de morrer. Não vamos medir dificuldades, mas também não podemos superestimar o medo juvenil. Pânico é o oposto de certeza, por isso somente os jovens ousam senti-lo. Quando eu passo por um idoso se equilibrando na calçada, faz todo o sentido aquela música que fala que “sair de casa já é se aventurar”. Percebo a velhice chegando nos meus avós quando as distancias que eles percorrem sozinhos vão ficando cada vez mais curtas. Há angustia em, a cada ano, deixar-se de ser um pouco mais o dono de si. Chegou um dia em que nem mesmo ir até a padaria da esquina. Nesse dia ela ficou triste. Se o inferno for mesmo o outro, então melhor aproveitar a juventude para ficar sozinho. Enquanto não precise gastar com fraldas descartáveis nem pulmões artificiais, cultive a solidão. Retarde ao máximo o momento da procriação. Quanto mais jovem o filho, mais força para carregar o pai.

Quando são ambos os que lutam para adormecer é sinal de que nossos fusos não estão assim, tão trocados um do outro. Se estar perto não é físico, é certo que nos encontramos entre insônias. É certo que eu sempre vou me assustar. Sempre que você disser que sente febre, uma parte de mim irá queimar. Hoje, na penumbra da manhã, duvidei que ainda estivéssemos vivos. Por mais que a madrugada tenha sido gelada, o ar de dentro do quarto nunca esteve tão quente. Talvez por isso a insônia. A ansiedade pelo nada. O cogitar ser apenas uma lembrança. Há tentativa de me preocupar com o futuro mas o futuro está tão longe de mim que ainda não existe. Não pode existir. O presente do tempo é o presente e só por isso não posso me ater a nenhuma expectativa. Nada do que possa vir a ser pode ser mais interessante do que o que está sendo agora. É ele o foco das atenções. Por mais que a Holanda planeje com cinco anos de antecedência todo o calendário cultural e agrário do país, ainda assim ouso duvidar da sua eficácia. Ouso duvidar da alegria dos Holandeses assim como nem sempre acredito no sorriso luminoso de um garoto subindo o morro. Veja a vida como ela é. Depois escreva sobre o que viu.

Hoje, no café, meu amigo falava que a manhã seria de lua vazia. Sempre quando é lua vazia, o tempo sobre a terra age de forma mais universal. Dizia ele que sob o reinado da lua vazia, era inútil tentar controlar o tempo. Talvez por isso a minha insônia. Talvez desabe por volta das onze e meia. Quando a lua deixar de ser vazia. Agora estou como ela. Ilógico do tempo.  No café duplo para tudo acordar, ele aconselhava a prestar atenção nas instituições tentando impor a sua lógica do tempo sobre o tempo universal. À minha volta, ninguém parecia atrasado para nada. A padaria amanhecia a vila madalena e o vento gelado da madrugada entrava pelas frestas da proteção de plástico. Do outro lado, o pequeno transito crescia em buzinas. Motores despertavam os passarinhos que gritavam cada vez mais enlouquecidos à medida que a lua esvaziava. Que o sol aquecia as asas. Na praça, um circulo de pombos ciscava sobre fragmentos de uma macumba. entre tocos de velas vermelhas, escolhiam o que lhes servia de alimento. No coração de quem o feitiço da paixão se embrenhava, havia somente a certeza das velas que queimaram sobre a madrugada da praça. Das rezas geladas tentando manter no outro uma vontade que só existe em si. Das pombas todas bêbadas do milho embebido em cachaça. Cambaleando entre bostas de cachorros. Na esquina, um labrador voltava para casa contente: uma pomba bêbada, morta entre os dentes.

Perto da escola municipal, em frente à mercearia, quatro filhos de porteiros iam juntos para escola. Muito antes das sete da manhã eles conversavam sobre a recém descoberta pizza de batata palha, na praça de alimentação de um shopping Center. E dobraram a esquina discutindo o valor de quatorze reais.

Na televisão, o jornal da manhã alarmava a falta de pilotos: nunca voamos tanto.

No jornal, higieniza-se o parque da Água Branca e cogita-se rebatizá-lo com o nome de um pastor evangélico. It’s all about our town. Mas você parece não se importar com nada disso.

ROCKBANDS, T SHIRTS E OS MENDIGOS DA CIDADE VELHA.

19 out

Dia desses passei a tarde no centro de São Paulo. Durante alguns anos morei na região da Santa Cecília, o que fazia do centro um destino possível todos os dias. Voltar ao centro é sempre voltar um pouco ao passado. Eu andava muito mais a pé quando morava perto do centro. Eu era muito mais jovem quando morava perto do centro. Gostava de coisas que hoje não gosto mais. comia muita merda, mas em compensação não bebia. Eu não quero voltar àquele tempo. (ainda) Não quero voltar a tempo algum que já passou. Em algumas noites eu fazia sanduíches para distribuir aos famintos da madrugada. Nessas incursões, descobri que os mendigos tem muito mais desconfiança do que fome. Só lhes resta temer. Cheiravam. Alguns agradeciam. Outros desconfiavam e trocavam algumas palavras farejando alguma índole antes de dar a primeira mordida. Buscando motivos para comer o que eu oferecia. Naquela noite fria de Berlim você só ficou uma noite inteira me perguntando se havíamos pego alguma doença. Eu disse que os canais seguem todos na direção do rio, e enquanto nosso corpo estivesse expelindo impurezas, melhor não evitar que as bolhas estourassem e nem esperar pelo pior. Em uma semana sairiam todos os exames que nos comprovariam limpos, mas nós ainda não sabíamos que o alívio estava mesmo reservado para nós dois. Eu olhava para os mendigos e tentava explicar para eles que não havia motivos para alarmes. Nem surpresas. Alguém poderia simplesmente ser bom com você. Há dias em que alguém pode, simplesmente, querer ser bom com você. O mundo está no limite da validade. A idade das trevas. A santa inquisição. Nada foi tão alarmante como é agora. ou como foi na semana passada. no início do segundo turno. http://www.youtube.com/watch?v=sgzeqwhNTDk&ob=av2e as ruas do centro continuam bonitas, embora a maioria dos calçadões tenham sido asfaltados. É confortável olhar para os prédios e ver a arquitetura original da cidade que antes estava escondida sob fachadas berrantes de lojas em liquidação. A cidade está mais sóbria. Há um painel de tirar o fôlego numa imensa parede em frente ao teatro municipal. Onde antes provavelmente estaria a bunda da Gisele Bündchen prometendo o fim de todas as estrias, agora há uma intervenção urbana matadora. Sobre toda a parede de um prédio de vinte andares, tinta preta. Sobre a tinta preta, um tiro no vidro – para quem vê ao longe. Para os que estão perto, um circulo de pessoas deitadas, formando uma mandala. Ou a moldura para um buraco negro. Uma espiral qualquer. Um anel de fumaça sobre o centro nublado da maior cidade da America do Sul. É sobre o perigoso conforto de se viver em paraísos artificiais que quero escrever. Que escrevo agora. por isso voltar aos livros. Abandonar um pouco o cinema e voltar aos livros. Voltar ao teatro implica estar na rua, todos os dias. Sair de casa. Quando o ensaio termina e é uma da tarde e você pode ir comer no quilo da Liberdade você simplesmente caminha tres quarteirões, entra no primeiro buraco de metrô e respira aliviado porque, bem ou mal, o trabalho está feito: você emprestou três horas do seu dia para alguém que você não é: o poeta Nestor. Você pode se empanturrar de comida japonesa à bem menos de vinte reais e você pode concluir que não mora em uma cidade tão cara assim, basta que freqüente vizinhanças um pouco menos esnobes. Basta que tenha coragem de mudar o conforto dos percursos diários. Ou que conheça os lugares secretos da cidade. assim como atrás da banca de camisetas há um restaurante japonês com um tio cantando a Horse With no Name em um idioma que você nunca vai entender. Nos fundos do estacionamento existe um jazz. O bom de se viver há treze anos em uma cidade é que alguma coisa de somente sua ela passará a ter. Coisas que só você sabe. A cada dia que passa gosto mais de estar em São Paulo e tenho menos vontade de ir para qualquer lugar. exceto Berlim. Sempre se quer voltar para Berlim, não importa onde se esteja. Entrei na galeria do rock. Agora existem camisetas do Roberto Carlos, do Neil Young. Da Patty Smith. Na real desde que voltei a ouvir sonic youth, senti saudade das minhas camisetas de banda que se perderam pelo tempo. Lembrei da minha camiseta do the cure, que viveu tanta coisa comigo, e que desapareceu do meu armário. A camiseta do Cure vai sempre ser eu e a Giórgia em alguma bocada sinistra da cidade. cruzando madrugadas bêbadas. Descobrindo shows que ninguém mais veria não fosse nosso desejo incontrolável de sabe sempre um pouco mais. Lembro muito das pessoas vindo puxar assunto porque também gostavam do The Cure e porque eu usava uma camiseta da sua banda preferida. Tiozinhos de Porto Alegre lembravam de um show do the cure em que haviam estado. The Cure havia estado em Porto alegre e alguém, que não era você, dançou Friday I’m In Love numa cidade que hoje é sua. Que talvez você tenha lutado demais para conquistar. Você sempre vai conhecer alguém que esteve no show do the cure em porto alegre. Assim como só nós um dia estivemos no show do Árcade Fire no Pepsi on stage. Só nós. Its all about us. If you are no tone of us, leave us alone. E pare de cobrar parágrafos quando mal consigo te dar sentido.

SOBRE PRUDENCE/HENRYMILLER E OS TEMPOS DE ENSAIO/

13 out

Existem músicas que são portas abertas para outra realidade. Quando Prudence começa a tocar, tudo passa a, subitamente, fazer todo o sentido e as idéias que vinham confusas começam a se relacionar umas com as outras e a formar um movimento lógico de pensamento. Há muito tempo morto na vida de um ator e é bom saber que o meu melhor colega de trabalho sempre será um livro. Há conforto na voz dos colegas atravessando rotundas até o camarim onde, sozinho, arranco todos os fios dos meus cabelos tentando ser quem não sou.  Enquanto leio Henry Miller falando sobre Rimabaud. Os medos vão ficando cada vez mais para trás à medida que a estréia se aproxima. Dia 22. Há infinitos momentos de espera quando insisto na pontualidade, mesmo sabendo que, no teatro, assim como na vida, ela pode já ter deixado de existir. É bom quando o teatro é também o espaço da transgressão. Desencanar de Stanislawsky talvez seja só aceitar que sempre se atrase. Todos os dias um pouco mais. Até que se estréie. Um dia você mandou uma mensagem para mim, me aconselhando a nunca tratar com prioritário alguém que te considera uma segunda opção. Você disse que havia lido essa frase na porta de um consultório em Berlim. No verão do outro lado trópico, eu lia o livro da Mirando July deitado na grama in a hot summer sun faraway from here. Eu estava lendo no one belongs here more than you, e, em um determinado momento, a frase “nunca trate como prioritário alguém que te considera uma segunda opção” apareceu dentro das palavras dela e eu me perguntei: quem plageia quem na ciranda das citações sem crédito?  Comecei a chorar naquele dia, lendo aquele livro, deitado naquela praça. por estar nos Estados Unidos pela primeira vez. Por escutar o grupo de vagabundos tocando Neil Young sem querer nada de ninguém. E por deixar que o tempo escorregasse devagar em uma cidade absolutamente estranha a mim. Depois de um tempo você chegou e me contou que Edward Hoppe freqüentava aquela praça. Achei estranho e perguntei se era Hoppe ou Hopper. Mas você não soube me responder. Sabia apenas que era o famoso pintor de que tanto gostávamos. Achei estranho. Já havia passado tanto tempo que estava lá, freqüentando museus, sem ter visto nenhum Hopper. A cidade também não tinha nada de Hopper na sua paisagem noturna. Quer dizer, havia sim uma pequena região perto da Metropolitan Avenue. Passando por baixo do minhocão que sobrevoa o céu em direção à ilha. Alguma coisa perto de Hopper acontecia ali. Claro que não era Hopper. Eu não sei onde existe Hopper. Não encontrei no Guggenheim, nem no MoMA. Para outros museus não tive paciência. Eles sempre estarão lá, esperando que eu volte. A cidade viva, no tempo presente, só acontece agora, por isso é mais importante ver pessoas do que ver telas. Too much information will reset your memory. Tenho medo de um dia saber demais. De saber exatamente onde acontece cada coisa que hoje é mistério. O fato é não conseguir parar de escutar o mesmo lado, do mesmo disco. Não parar de escutar o mesmo lado três. A metade exata da coletânea de três discos. http://www.youtube.com/watch?v=gaxP9cbpPaI Às vezes as semelhanças se dão pelos caminhos mais tortuosos. Um presente que você ganhou há muito tempo atrás pode, subitamente e a qualquer momento, voltar a fazer todo o sentido. como quando passei toda uma mostra de cinema escrevendo um diário para você. Um diário que te dei de presente para que você acreditasse que estar perto não é físico. Uma carta eterna de espera continua de tudo o que não existiu entre nós. Ainda há algum resto de romantismo nos meus atos, só não espere que eu continue me comportando de acordo com a multidão. Voltar ao teatro é voltar para o tempo da espera. Retroceder ainda mais na analogia. Apresentar dez vezes e nunca mais. Não importa o quanto se prorroguem as temporadas, sempre terá sido curto demais. Nessa fase, em que não me dedico a nenhum projeto literário, me permito flanar entre lombadas e arrancar qualquer coisa que me suscite interesse e que reverbere o estado dos meus dias. Fatalmente tenho caído nos fatais. Nestor, o personagem que me consome horas demais do meu dia, é um poeta trágico. Um romântico suicida. um artista da carne que enfia uma azeitona no miolo. Ninguem nunca vai saber porquê. Nem eu, que sou ele. Também nunca vou aprender a usar os porquês. Para isso você sempre me corrige. Entre as faixas, a vitrola capta uma radio evangélica. O que teria sido de nós se Marina tivesse ido para o segundo turno? Sempre fui contra Marina por ela ser evangélica. Nada contra, só não queria que uma pessoa abertamente religiosa estivesse a frente do meu país. Acredito que a religiosidade se dê no âmbito privado e particular. A religiosidade quando não está diretamente atrelada a dinheiro e poder, não precisa ser exaltada. Só se exalta religiosamente qualquer coisa quando há poder envolvido. Por isso, no fim, votei na Marina. Porque ela não se apegou a bandeira religiosa alguma. Pessoas inteligentes geralmente são pastoras de si. senhores da própria vida e zelosos da própria alma. Pessoas inteligentes sabem que o único deus só existe em si. não importa em que planeta você esteja, há um deus dentro de você e esse deus é sempre o mesmo e foda-se o nome dele e o nome da religião que o representa. Por ser homem, senhor de mim, eu não me arrebanho. Mas às vezes é só melhor fingir que não se sabe. que não se nota. Cada vez é mais importante ser artista independente. Sem medo de ser demitido. Ok, eu me compadeço da Maria Rita kehl, mas eu não posso acreditar que o fato de ela não estar no jornal faça com que ela tenha menos leitores. Se ela tivesse um blogue eu leria. Mas no jornal não. há um desespero diante da esquerdização da mídia, mas eu acho que esse é um sintoma perfeitamente aceitável. A grande mídia está ligada ao velho. A pessoa que consome a grande mídia como verdade é a pessoa do século passado. A grande mídia não é mais tão grande assim. A pessoa que dá audiência para televisão é a pessoa em vias de extinção. Envelhecendo. Ficando para trás. O que compra o jornal é meu pai, não eu. O que segue o gosto pessoal pelas estrelas do Guia da Folha é alguém que eu não conheço. Que eu prefiro desconhecer. Se você cogitar seriamente a internet como saída para o futuro, então não há o que temer. É sempre abrir novos espaços de resistência. É sempre denunciar a censura mas não se render a ela. É preciso para cada site que foi arrancado do ar, que se crie mais dez mil falando a mesma coisa. Até que não se possa mais conter. Dez mil fetos em cada ovo aniquilado. A internet é o futuro. Banda larga é o futuro. Eu dependo da banda larga para viver. Não do telefone fixo que nunca foi tão barato. Foda-se se é barato. Quem precisa é quem vê televisão e come jornal. Política é novela, cada vez você tem mais razão, mas ainda não ouso me deixar sentir saudade. O futuro é popular. A concentração de riquezas ficou cafona e eu me recuso a fazer parte dessa elite burra que acredita na televisão brasileira e nos pastores de qualquer rebanho. não sei quem profetizou que a revolução não será televisionada, mas esse alguém tinha razão. O mundo é um caldeirão de citações. Sempre alguém ousou pensar antes de você. É preciso só aceitar que a internet pode não dar nenhum dinheiro, mas isso pouco importa se você beber sozinho um vinho barato sem nada escrito debaixo da rolha. E ainda assim dormir feliz. Por isso sempre fico na dúvida quando surge qualquer idéia de escrever para jornal ou portal ou qualquer pessoa que pague pelas minhas palavras. Tenho medo e enquanto tiver medo vou continuar dizendo não. comendo menos fora. deixando de ir para a praia. Assumo o risco de escrever para mim e por conta própria. É sábio o que vive com pouco. É restritivo ter raiz. Os desalmados talvez sejam só aqueles que, como eu, acreditam no animal sobre o homem sempre. O homem é irracional e deve permanecer irracional. Basta que se pegue maffesoli, Henry Miller falando sobre Rimbaud ou sonic youth tocando eric’s trip ao vivo em são Paulo. e nós dois tomando toda a chuva do mundo sobre nossas cabeças. Eu também não acredito em um deus que não dança. E nós quatro juntos, diametralmente separados, assistindo ao mesmo concerto. Sonic youth. Chácara do jóquei. Que ano foi aquilo? Nossos pés acumulando barros sob guitarras distorcidas. Que ano foi aquilo? Longe, ela até cogitou  também vender sua guitarra para ver o show da nossa vida, mas ela preferiu ficar onde estava. Ela não era nós. Ela nunca foi.

IT’S ALL ABOUT TAKING THE EXIT WAY: PROVIDENCE.

12 out

Agora toca sonic youth. É sempre importante desapegar do último trabalho entregue, por isso os vinis de Don McLean, Leonard Cohen e Caetano Veloso, que embalaram o último trabalho, saíram da vitrolinha portátil aqui do escritório. Agora, do meu lado, a caixa de Draydeam Nation é Sonic Youth à espera de que logo comece a fazer efeito. A racionalidade só habita o consumo de qualquer substancia ilícita quando há iminência do fim. Não sei quanto tempo vou ficar sem as coisas que preciso para sobreviver, mas prometo evitar taquicardias e ansiedades. Prometo ser gentil na abstinência que se anuncia. A lógica é a moeda da pobreza literária e eu só queria não precisar me importar e continuar sempre fazendo só as coisas que me interessariam assistir. Mas nem sempre dá pra se acertar em tudo. sigo prazos. Analiso propostas e sou obrigado a dizer muito mais nãos do que eu gostaria de dizer. Preciso recusar convites para cafés. Aceito todas as festas. Ando sem a menor necessidade de conversar. Tenho mais vontade de dançar. Interagir com corpos e não com línguas. Há cansaço da fala e o único ser humano que me interessou no filme “Comer, Rezar e Amar”, foi a mulher que optou por ficar muda durante dez dias. De todos os personagens que passaram no tempo que perdi olhando para a cara da Julia Roberts, a única pessoa que eu queria conhecer mais foi a mulher que passou dez dias de boca fechada. Ando com bastante vontade de dar um descanso para minha  garganta. Sobrecarregar mais os meus ouvidos e menos os meus neurônios. preciso ler menos. Concatenar sinapses em gestos quando o som que toca, não importa onde, subitamente passa a fazer todo o sentido no lugar em que você está. e dançar. Quando toca o som que eu quero escutar, sinto que o presente vale à pena e nessas horas não há nada melhor do que estar sozinho em uma pista de dança – last night a dj saved my life. Há um conforto em ser aceito e não precisar ser. há conforto no olhar tranquilo do solitário da balada que observa o mundo acontecendo sem que ele necessariamente tenha que representar algum papel dentro dele. O solitário da balada conhece algumas pessoas que olham para ele, mas é sempre mais saudável fingir que não. O solitário da balada não pode nunca dar trela para ninguém. Só para os muito bonitos e se for para tirar algum tipo de proveito deles. A menina pode simplesmente te beijar em todas as festas, basta que um dos dois tenha bebido o bastante para isso, e você nunca tenha sequer pensado em namorar com ela. Por mais que vocês tenham se beijado em todas as festas, pode ser que amanhã um dos dois encontre alguém e passe a acreditar que todos os porres do passado foram alucinações de uma vida que nunca existiu. por mais que ela tenha prometido ir nua ao lançamento do meu livro, você sequer apareceu. Que todos os balcões do passado foram mentiras de bêbados, isso cabe ao amnésico, não ao que gosta de radiohead. Nunca fuja do que você sabe o que é e não espere que te convidem para sair. você não vai ser convidado. Há tempos você deixou de acreditar que valeria a pena submeter uma noite de diversão a troco de alguém para te levar para casa. não espero caronas e nem espere me levar para casa. não há nenhuma razão palpável para eu ter um carro exceto no dia em que eu tiver uma chácara ou uma casa de praia. ou pare de beber. por enquanto é melhor andar a pé pela cidade.  o conforto do pôr do sol. A sutileza de um riacho. O doce eterno ir e vir das ondas do mar. Nada disso mais existe. Se a realidade for mesmo temporária, é provável que, cedo ou tarde, eu fatalmente acabe sucumbindo ao sonho médio e comprando um dos muitos carros inadimplentes que, cedo ou tarde, assolarão o mercado automobilístico. É só uma questão de esperar a ansiedade passar. É só muito estranho morar em uma cidade em que o caixa eletrônico fecha às 22 horas e o metrô encerra atividades à meia noite e quinze. Só uma cidade muito conservadora e que não pensa que sim você pode se animar a sair à uma da manhã e não você não precisa ter um carro. Basta que você pegue um taxi. Aí você abre a carteira para pegar o cartão do seu taxista e você só tem cartão de débito. Você não tem intimidade com o motorista para pedir uma carona de graça e os caixas eletrônicos fecharam todos às vinte e duas horas e você só é um poupancista do banco do Brasil e poupancistas do banco do brasil não estão ligados ao banco 24 horas. Aí você pensa que, à uma da manhã, para chegar aonde você quer chegar, levaria sete minutos de carro. Tres estações de metrô da porta da sua casa. mas o metrô fechou a meia noite e quinze e já é uma da manhã. E, não importa quanto dinheiro você tenha na sua conta e nem o quanto de vontade de sair de casa você possa ter, talvez tudo seja complicado demais em uma cidade perigosamente conservadora. É preciso sempre se pensar também no cara que quer se divertir. Que quer tomar a cidade depois de um dia de trabalho e relaxar em alguma pista entre duas cervejas e o sono antes do sol nascer. Só uma volta. Gastar um dinheiro. Fazer girar a roda da economia boêmia. Mas não. não tem como porque ou você anda a pé, no frio, correndo o risco de ser assaltado por um zumbi do crack, ou você fica em casa. ouvindo sonic youth e tentando acreditar que você é feliz. Obrigado estado, por tudo o que me é proibido. Obrigado por continuar achando legal que o aborto norteie a campanha eleitoral em dois mil e dez. O tempo presente. As capas de jornal. A disputa por quatro pontos custe o que custar. Nada disso me deixa com vontade de continuar vivendo. A realidade dentro da babushka que encerra o programa de televisão é uma imagem péssima para os dois lados. Ninguém sente conforto ao ver aquilo. Como quando duas pessoas brigam na minha frente. Eu só sei que nenhuma das duas tem razão. Apontar no outro é apontar para si. eleger a beleza do objeto admirado é reverberar na própria arte a arte do que é outro. eu preciso dar dez dias de descanso para a minha garganta. Por isso fico quieto no intervalo entre as cenas. Por isso o yoga tem me salvado entre loucuras. O mundo perde o controle e basta que meu pai me telefone para que tudo volte a fazer sentido. ou perder o sentido de vez. Basta que eu opte pela televisão aberta para que o imediatismo tome conta do meu pensamento. É preciso algum espaço para a televisão que não lida com o tempo presente. Nem tudo precisa ser política. Política é novela. Cada vez mais eu concordo com o seu analista que te fez concluir que política é novela. É preciso nunca esquecer de regredir no tempo para ver onde a nossa história cotidiana é só um reflexo da vida ancestral. Em que episódio do programa eleitoral, a idade media volta a ser parte do presente. Mas tudo faz sentido quando a agulha desliza suave sobre Providence e você ousa cogitar que talvez a agulha tenha se quebrado. mas não. a agulha não se quebrou. foram só as drogas que finalmente começaram a fazer efeito.

 

ABOUT X RAYS IN RAINY DAYS

11 out

Daqui a pouco começa o debate e eu devia estar lá, na frente da televisão, roendo as unhas e torcendo por alguém. É complicado conviver com a lógica diferente da nossa, mas Nietzsche me libertou. Se a experiência humana for mesmo só um pássaro voando e queimando sempre um pouco mais, à medida que mais suas asas batem, então tudo é só uma questão de se acostumar  ao ar rarefeito das alturas e assistir ao mundo brigando para que, no fim das contas, tudo continue igual: queimando. Se a questão humana for só um avião que nunca poderá pousar, então é inevitável que, no fim, você sinta dor. Há lucidez nos desastres aéreos, basta que se escute as caixas pretas. Eu nunca tive essa coragem, mas você me disse que era horrível. Desesperador. Cada vez tenho mais certeza de que alguém vive uma vida que não é a minha. Alguém que não sou eu freqüenta lugares em que não estou. Se deita em camas onde não dormiria. Talvez explodir ou não explodir um império não mude coisa alguma na realidade táctil dos meus dias. Tivemos palpáveis contrapartidas sociais. Nunca todos os tipos de bolsas geraram tanta discussão. Nunca a bolsa de valores havia sido assunto na mesa da minha casa. Há um perigoso esnobismo na bolsa que custaria o que não vale, mas elas comprar. Nunca se comprou tanto. A fome de alguns foi mais saciada do que a fome dos outros, mas ainda é impossível agradar a todos. Pensou-se neles e esqueceram de nós. Você deu para ele e regulou para mim. É preciso ter nascido na mesma latitude e longitude para se entender Adelaides em manhãs de frio e chuva. É preciso se entender o recusar sempre o chimarrão do professor para sempre se afirmar diferente. Tenho saído mais ultimamente e me permitido mais observar a cidade onde cresci. Não tem como negar o fetiche da solidão e por isso tenho evitado companhias. A propósito, sonhei com você. Estávamos na mesma cidade e eu não sei era São Paulo ou Nova Iorque. Tomara que tenha sido aqui. Cedo ou tarde a solidão voltará a ser fetichizada e você simplesmente gostará de passar tempo demais só com você. É inevitável que deixemos de morar juntos assim como é inevitável que eu cozinhe todas as noites para você. A longitude e a latitude dos afetos não depende exclusivamente do lugar e do ano que você nasceu. Não se deveria nunca contar com a fatalidade de nunca partir. De jamais deixar a casa. Sempre manter um distanciamento saudável de onde você precisa olhar para o lugar de onde vem é tarefa do são. Andar. Andar. Andar. E se acostumar com ar rarefeito da montanha. Com a porta batendo insistente sempre que o ar gelado entra ventando pelas frestas da casa. Aqui, a natureza não nos mata. Se Bloom, carinha que todos voltaram a falar por conta dos ensaios da peça, estiver certo de que a primeira influência é a influencia dos astros, então é conveniente acreditar que a idade implica significações particulares. Como que por instinto, alguns nascidos no mesmo ano se farejam e se procuram. Entendem o que foi ter acordado um dia de manhã e ter visto a Xuxa na tela da TV pela primeira vez. Na minha casa só pegava o doze. O doze era o canal da Globo. Um dia apareceu a Xuxa. Do nada. Ela falou que seria o primeiro programa e pediu licença para entrar na casa dos baixinhos todos os dias. E socializou “O meu, o seu, o nosso Xou da Xuxa” – quase um Stalin gaúcho e colorido. Se criou toda uma mística encantada em torno dela. O filme Lua de Cristal é quase um épico. Um western com Sergio Malandro de príncipe encantado. Tempo. Tempo. Tempo. Tempo. Nada como entender a medida exata dele mesmo, na idade em que se tem. Mas aí, antes que você se irrite com minha arrogância, você sempre se irrita com ela, eu preciso também te dizer o quanto é muito mais fundamental, para mim, reconhecer-me nos olhos de alguém que viveu antes de eu estar aqui. Há conforto no olhar do mais velho se o mundo que ele viu tiver sido um mundo que eu queria ter visto. Fatalmente você acabará conhecendo alguém que esteve no Hammersmith Odeon em três de julho de mil novecentos e setenta e três e ele poderá tentar te contar alguma coisa que você nunca vai saber o que é. Há uma mágica diametralmente oposta, mas apaixonantemente proporcional, nos olhos de quem não esteve quando eu já estava aqui. Um fascínio em ver o outro vendo pela primeira vez o que eu sei há tanto tempo. A lógica do ensinar é a lógica do dominar. Há responsabilidade demais nas mãos de quem não é você. O vínculo se faz tanto pela idade, quanto pela falta dela e as paixões mais avassaladoras se dão tanto pela diferença, quanto pela semelhança entre os envolvidos. Há devir na irracionalidade que abarca a dependência do mais novo quanto há um devir no sadismo de sempre saber o que o outro jamais saberá. Quem já caiu? Quem vai cair? Pela vergonha de envelhecer antes da hora. Quem vai pagar? Ou pelo medo de nunca perder a vontade de sempre estarmos juntos. Quem de nós dois vai manter teso o arco da promessa: não vai acontecer? Escreva cem vezes e acredite no que não é. E aí vem os outros e nos acusam de herméticos e pedem que nos adeqüemos à métricas de assuntos espaçados em parágrafos e eu digo que não vou editar o meu texto para caber no seu folheto. Há um comprometimento de mim comigo mesmo, e com os espaços que me permito assumir a cada dia e só por isso tenho ficado mais aqui. No meu corpo. Nos meus desejos de não ser quem sou. Na minha solidão que me protege de mim. Se Henry Miller cobra hermetismo e sangue no poeta contemporâneo eu me pergunto até que ponto de let it be eu preciso chegar para conseguir uma espetadinha de leve na carne do leitor. alguém lê até aqui? Quase sempre é nas duas silabas desavisadas que se juntam por acaso: ali eu me apaixono e me transforme no que amo. Pode ser entre duas silabas tão bem conjugadas que chovem. Ou de quase chuva. Há iminência do fato sempre foi muito mais interessante do que o fato em si. devir. devir. devir.