Arquivo | setembro, 2010

TALVEZ O MELHOR SERIA SE PELO MENOS UM DE NÓS CONSEGUISSE PARAR DE FALAR.

28 set

Às vezes é tudo sobre o que ficou no ar entre um pequeno silêncio e uma fração de esperma. O preenchimento involuntário de qualquer coisa sempre acarretará algum tipo de deslizamento posterior. Basta que se chova para que a estrada deixe de nos levar até. Ou que um córrego nasça antes que se aprenda a nadar. É preciso sempre estar preparado para adormecer nos momentos de espera e esquecer um pouco que um dia depois do outro é só o tempo indo para onde não consegue mais voltar. Minha mãe sempre estará um pouco mais velha, não importa o quanto eu insista em voltar para casa. Qualquer coisa que tenha um pouco de vontade de alguma coisa esperando muito para ser é só a pequena coisa de verdade que preciso segurar se quiser continuar continuando até o fim. É só uma questão de continuar tendo pelo quê esperar. Sentenças deixam de fazer sentido à medida que a estória se aproxima dos outros. Os convites estão impressos esperando a data da estréia. As datas estão reservadas esperando que se estréia alguma coisa. Um vespeiro de incertezas esperando a hora certa de surgir de trás da coxia. Apagar definitivamente as luzes da sala de ensaio seria nunca mais voltar atrás. Quantas vezes ainda precisarei voltar para o verbo que delimita a ação antes de decorar a ordem exata das nossas falas? Robotize-me, só não espere que eu saiba me concentrar. Esconda-me entre dois silêncios, só não espere que eu saiba desaparecer. O ter antes da mão nem sempre é a espera antecedendo um gesto. Nem nenhum tipo de coceira interna. Nem de vontade de querer sentir. É preciso sempre estar certo de que a dose que hoje te satisfaz, amanhã te deixará de fazer sentido. Se a sabedoria do abstêmio for mesmo esperar eternamente pelo próximo copo, então talvez o segredo do suicida seja nunca mais retardar a espera.

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SE A PRIMAVERA É A MAIS PERIGOSA DAS ESTAÇÕES, ENTÃO TALVEZ SERIA MELHOR VOCÊ SEMPRE PENSAR UM POUCO ANTES DE ME TELEFONAR.

26 set

A discussão em torno disso teve início no Festival há certo tempo atrás. Na primeira vez que o assunto veio à tona, ele já veio carregado de polêmica e de discussões acaloradas entre eles e os outros. Na ocasião, na entrevista coletiva, ela perguntou para ele se algum dia, a brasileira, a verdadeira brasileira será refletida na sua obra?

Ele responde educado que não sabe. Se limita a dizer que adapta o livro de um autor dali mesmo, desconhecido da maioria deles, e que a brasileira daquele lugar é tão brasileira quanto a brasileira de outra parte do país. Naquele caso, novamente loira e de cabelo escorrido. Ela grita. Ele se assusta. A insistência não é pouca.  Até quando veremos lânguidas garotas alvas retratadas na sua obra? – pergunta intoleráve. Eu levanto e pego o primeiro microfone que aparece.

Eu estou na platéia do auditório mas meu corpo respira tanto que não me resta outra coisa a não ser falar. Estou à beira de uma crise de abstinência de compreensão. Preciso ordenar meus pensamentos e tentar dar um fluxo mínimo para eles então eu explico que no meu livro existe um nós tão nós quanto a diferença entre eu e ela. Situo geograficamente a colônia e tento  explicar os níveis de D-O-G-V-I-L-L-E que um ser humano pode chegar em limites extremados de distancia. Tento definir a tônica de uma obra em processo de composição sem sucesso algum. Uma comunidade tão geograficamente isolada de tudo e de todos a ponto de até mesmo o idioma do colonizador se manter a língua primeira de toda uma geração que ainda vive aqui. Quem é mais nós que eu? A dicotomia entre o pertencer e o não pertencer a se trasfere també para a agonia entre o ficar em e o partir para. O instante eterno de prestes à contamina o cotidiano do insone certo de que a noite, cedo ou tarde, fatalmente, chegará.  Me recuso a agüentar mais um dia como se ainda fosse ontem e te pergunta até quando você vai tolerar o que faz que ficou para amanhã. Fremdenhass – compreender é só uma questão de ter nascido em.  Tento explicar para ela e para os presentes o que é Fremdenhas, mas não sei. Você já sabe. Ou porque olhou no Google. Ou porque tem um dicionário. Ou porque é alemão e essa palavra, Fremdenhass, é a única palavra que você compreende de todo esse texto. É mais ou menos assim o pouco que ainda ousa se dar entre eu e minha avó. Quanto tempo falta para um de nós dois morrer? A ancestralidade germina uma vontade que eu  não entendo. Amnésias são perfeitamente confortáveis quando o certo é só nunca mais lembrar. Claro que um de nós, cedo ou tarde, desfilará sua erudição em um blogues qualquer que ninguém nunca lerá a tradução disfarçada de familiaridade. E gritará “xenófobo” para mim agora mesmo. Nesse exato instante você ma acusa sem coragem de apontar e eu tento só explicar que Fremdenhass não aquivale  à xenofobia. É mais do que isso. É mais do que preconceito. É um tipo estranho de medo latindo nos olhos do diferente. Um pavor do que pode ser novo e com o que talvez nunca se saiba lidar. Do desconhecido que dorme ao lado, excitando esperas para fazer sentido. Do obscuro entre a cama e o caixão. É tudo uma questão de continuar engolindo mais um dia depois do outro.

Um senhor mais velho, distinto e respeitável, se defende de uma acusação que não percebo ter feito. Não sou contra nem à favor da construção do presídio, sou só partidário de que sempre se ouça todas as partes e de que sempre se confie nas Audiências Abertas e previamente divulgadas. Mais do que divulgadas: convidadas. É preciso trazer à tona discussões que podem ser comodamente não discutidas. Perigosamente um não me importo pode detonar rancores futuros de todos os lados.  Se um arroio pode separar tantas realidades, quantos países diferentes existem dentro de cada um de nós, que estamos aqui?

Um de nós defende o nosso povo. Eu prefiro duvidar de mim antes de acreditar em nós. O caso da estudante hostilizada na universidade por ter ingressado via regime de cotas para minorias. A frase, devidamente pichada, ordenando que se volte para a senzala quem veio de lá. Geheminis não é uma palavra tão bonita assim quando decide implicar nela mesma certas verdades complicadas de se. Agora eu tenho esses dois fatos levantados contra você,  e essas duas imagens martelam os olhos de quem nunca esquece do que leu no jornal. Coloco o dedo na ferida para entender até onde eu suporto doer. Pergunto até que ponto cotas negras são cotas cegas e cotas brancas são cotas neutras. Conviver pacificamente é nunca atentar para a possibilidade de que alguma coisa talvez não esteja muito bem entre nós. E nós mesmos.

No final do debate ela sempre fica sem resposta alguma. Eu também. Ficamos todos. Eu só confesso que tenho tido cada vez mais medo de usar interrogações no final de cada frase. Cada interrogação é um risco que corro de não poder mais falar o que deveria continuar sendo. Blogue se calam por cansaço, nunca por excesso de visitas. O que vai ser feito dos índios que agora estão lá? E das crianças do ciep do Morro Santo Antônio, quem vai cuidar delas? É preciso sempre tomar o café da manhã certo de que o dia só vai ser igual ao outro se nada mais for feito para que não. Tudo é apenas uma infinita sucessão de movimentos repetidos até que as coisas percam o sentido. Só não esquece seu, sendo cedo ou sendo tarde, sempre vai ser tarde demais quando você se der conta de que o tempo passou e você não fez nada. Não vivemos mais como antigamente. Nunca viveremos o que era para ter sido não importa o quão exato tenha sido desenhado seu desejo.

O que significa fazer cinqüenta e oito anos em dois mil e dez só minha mãe e sua tia podem saber. Você não. Minha mãe agora diz que não suporta ouvir falar em retrô e que não vê graça nenhuma nos meus vinis. A única coisa que ela gosta é dos meus cabelos começando a virar cinza.  Ela, a mão da minha mãe, afunda no meu cabelo.  Fareja um tempo que nunca vivi quando eu ainda era meu pai. Meu cabelo engolindo sua mão é só um tipo inalcançável de saudade eterna. Um estar para sempre e não estar nunca mais.  Um até onde podemos transcender o que foi só dito para que não? A crueldade da talidomida é intolerável diante do fruto do incesto que nasceu deformado por transgressão de desejo. Não de predestinado. Talvez por isso, eu por muito mais, eu possa simplesmente não me preocupar com o catálogo delimitador que o seu Fremdenhass poderá conter. Basta que tenha nascido de um dicionário, para que deixe de ser algo vivo.

Pelo menos ainda tenho a meu favor a força dos cabelos, um sobrenome escondido e a tendência da pele sempre o mais perto do sol. De resto sou todo escondido.

GAP GERACIONAL OU A FALTA QUE MEU AVÔ ME FAZ.

24 set

Polinize-me, só não esqueça que também ainda preciso de sexo. Chove de noite quando um de nós esquece de olhar para o lado. Chove quando precisa de vento na cidade. Anoitece numa sexta feira quase quantos anos atrás que aquele avião explodiu? Foi mesmo só uma questão de sorte nenhum de nós termos estado dentro dele? É mesmo só uma questão de sorte todos nós ainda estarmos? Ainda aqui para contar a história? Há quase quantos anos atrás o meu avô ainda existia? Eu  queria uma lembrança da última vez em que eu e meu avô nos olhamos. Se foi melhor tê-lo perdido entre dois aeroportos eu não sei, nunca vou saber, não importa o quanto minha mãe tente me convencer de que sim: foi melhor não olhá-lo indo embora. Acordar em um país muito, muito mais quente que o nosso. e muito, muito longe da casa onde ele morreu. telefonemas jamais aplacariam a vontade de estarmos perto. a freira dentro do castelo perguntou se eu queria uma ajuda e eu só chorei com o computador no colo. lendo o email da minha irmã. ninguém sabia onde eu estava. nem eu. longe. muito longe.

anoitecia quando soube que ele estava morto. entrei no quarto do castelo e pude vê-lo caminhando entre as oliveiras do sol se pondo: o meu avô. O castelo acordava para a noite. a primeira noite em que eu não tinha avô. A pequena colina acordava e os pobres fariam fogueira porque era noite de sexta feira. O estrangeiro, vivo e triste, queimando do lado de fora de mim. As distancias percorridas para se chegar ao ponto exato de onde se partiu não equivalem ao esperado. Descarte até não sobrar mais nada. Só então escolha a rota mais econômica entre os dois pontos mais distantes de onde você está agora. e espere morrer entre dois oceanos. numa tarde do pior verão que o mundo já sentiu. Queria saber quando foi e queria saber o que eu sentia no exato instante em que nos olhamos pela última vez. Eu e meu avô. fazia calor entre nós dois. De vez em quando eu e minha avó vamos ao cemitério e ficamos lá, olhando para ele. Cada um calculando o tempo que falta para estarmos todos juntos. Sem saber que sempre estará faltando alguém. Sempre alguém estará sentindo saudade do lado de baixo da terra.

Passo do Corvo, Arroio do Meio. Julho de 2007. quando todos ainda estávamos vivos. quando nem todos ainda havíamos nascido.

SOBRE “SO FAR” E O TRAÇO FOLK DE JONNI MITCHELL NA CAPA DE UM DISCO DE CROSBY STILLS NASH AND YOUNG (IT;S ALL ABOUT 1974)

23 set

Reler sob a luz da manhã o texto escrito na noite passada implica estar mesmo disposto a voltar a ver uma parte que talvez o sono devesse ter esquecido. Não sabemos quase nada sobre a utilidade de se lembrar das coisas. Se tudo o que sai da minha boca é um catálogo de citações, posso transformar em vítima o cara que, descuidado, leu demais e acabou por acreditar nos devaneios alheios. Há perigo em se acreditar naquilo que não vem de si. Há tanto perigo nas convicções religiosas quanto na incerteza sobre a possibilidade de se conviver longe das drogas. É fato que enlouqueceríamos sem elas, mas enquanto cada um tratar de cuidar bem do seu quintal, nem tudo estará perdido. O sol da tarde incide sobre a janela do apartamento e eu gosto de ter que sair para ensaiar uma peça de teatro. É como ir para a escola depois de adulto. Divertido. Os mestres não metem medo. E a vida cotidiana vai se transformando em saber um pouco mais sobre a vida do outro um pouco mais a cada dia.  No teatro eu me permito errar. Por não ser um deles, cada minuto é novidade. É bom não depender exclusivamente de nada. Talvez eu tenha dado exclusividade a coisas desimportantes demais nos meus dias. Ultimamente talvez tenha sido assim. Preciso meditar à respeito.

Existe uma espécie calma de sabedoria nos escritores cientes de que são para poucos. Foi isso o que senti de Claudia Laitano, no Simpósio da Univates. Existe uma certa elegância e comprometimento naqueles que simplesmente talvez não estejam assim tão dispostos a agradar sem precedentes. Não tenho o menor interesse em ser o escritor mais querido do Brasil. É bom ser para poucos. Ou o cronista menos gostado de um jornal que quase ninguém lê. Welcome home. Texas sucks.

Agora toca a musica pela qual eu coloquei esse disco do Crosby stills Nash and Young. Sempre quis esse “so far”. Um desenho da Joni Mitchell em 1974 na capa. Passei muitas tardes de sábado namorando sozinho essa capa na feirinha da Benedito. Sem fazer idéia do que tinha dentro dela, alem daquele desenho que me remetia a tanta coisa que eu sempre quis viver e que talvez sempre tenha vivido sem saber estar vivendo. Um reconhecimento. Uma linguagem em comum. A canetinha quase infantil interlaçando perfis. Os traços primários produzindo sentido. Uma estranha familiaridade e um precisar ter aquele disco mas. O preço é sempre caro demais quando preciso muito ter alguma coisa. Não caro a ponto de você não poder pagar, mas caro a ponto de eu não querer gastar. aquele era meu disco. Meu namorado na feirinha da Benedito.  E eu jamais pagaria por ele.

No dia em que eu consegui ter o disco, eu tava com meu pai. Sempre que ele vem, a gente sai para caminhar pela vila. Ele, que mora em Lajeado, se sente no interior quando vem passar uns dias comigo em São Paulo. No sábado em que meu namorado deixou de ser uma vontade para se transformar em um disco debaixo do meu braço, parei exatamente na primeira banca de quem desce a cardeal pelo lado do fran’s café. na sessão de importados sempre o “so far” esperando por mim. Mas naquele sábado meu namorado não estava onde sempre havia estado até então. Pensei que algum outro o havia comprado antes de mim. Ousei sentir raiva. Não do meu namorado nem de mim. se meu namorado havia sido comprado, isso implicava que eu também teria um rival. Na vitrola de quem repousava o disco que devia ser meu?

A caixa de promoções era a caixa do lado e dentro daquela caixa todos os disco tinham um grande desconto. Estava longe de ser uma liquidação. Cinqüenta reais com todos os descontos chorados ainda é um pouco caro e não se julga o disco pela capa mas aquele disco era o meu namorado. um namorado que nunca tive. Que nunca terei. “So far” ainda estava lá e meu pai, sempre farejando meus desejos escondidos, também estava lá. Ele abriu a carteira e comprou para mim o melhor disco da minha vida. É bom ser filho dele.

O mais louco é que naquele mesmo sábado em que eu caminhava com meu pai na feira de coisa velha, você também andava em uma feira de coisa velha. Era Chicago onde você estava? Eu sei que era estados unidos e naquele mesmo sábado você comprou o mesmo “So far” que meu pai comprava para mim. quando você chegou de viagem fez questão de que eu levasse o disco comigo. Presentes gêmeos são muito mais significativos do que exclusividades entre duas pessoas.

Sempre haverá a possibilidade de que você ganhe dois presentes inesquecíveis no mesmo dia. E que ambos, apesar de idênticos, são únicos em semelhança. Um não existiria sem o outro. Há utilidade nos objetos que servem para nada alem de espelhar afinidades. Detectar o gosto comum infiltrado naquilo que se pensa ser único é tarefa para quem consegue enxergar alguma parte da vida do lado de fora dela mesma. Ainda, não sou um desses. E espero nunca vir a ser.

TAREFA NUMERO UM PARA QUEM NÃO TEM O QUE FAZER:

22 set

ouvir Helplessly Hoping.

nomear o que sentiu 10 minutos depois de tê-la ouvido pela primeira vez.

ISMAEL CHEGA E ESTABELECE A AÇÃO NO APARTAMENTO

21 set

Na vitrola agora roda o disco do I’m Not There, presente da Thereza pelo aniversário de um de nós. É bom estar de volta à cidade e poder a voltar a marcar jantares que nunca acontecerão. Thereza talvez não esteja na cidade. Desde que ela perdeu o medo de voar, tem visitado todos os países onde foram filmados os seus filmes preferidos. A Thereza deveria editar um guia para o turista cinéfilo. É estranho estar em lugares onde coisas importantes um dia aconteceram. Alguma energia muito forte passou por ali e foi devidamente documentada, consumida, e propulsora de nova energia. Assim foi descobrir a capa do Freeweeling em uma rua por onde passávamos quase todos os dias. Assim sempre será atravessar a ponte de ferro. Ou assistir Vanilla Sky.

Voltar para São Paulo é checar o que veio do sul dentro dos meus bolsos. Algumas roupas não foram lavadas. Os cheiros do rio grande esperam pelo seu aniquilamento na caixa ao lado da máquina de lavar roupas. A Tainá nos dois jornais entre a rodoviária e o Salgado Filho. O sol de ainda de manhã no Vinte de Setembro. O mundo todo descansando na beira do Guaíba declarando uma liberdade que nunca existiu. Que nunca existirá.

Voltar para São Paulo é sempre trazer pedras nos bolsos. Ganas de quebrar vidraças. Chegar em São Paulo é re compreender a dimensão do livre. Há um não pertencer no ônibus quase arrancando minha cabeça. Espreita o morto quando não olho para os dois lados antes de atravessar a Cardeal.  As distancias entre eu e as pessoas também se dilatam à medida que me afasto de casa.

Stephen Malkmus cantando Ballad of a Thin Man é bonita mas nunca terá a certeza definitiva de Bob Dylan. Quase nada pode ser mais definitivo do que Dylan no que diz respeito ao poder do verbo no momento presente. Mafesoli empurraria nossas costas e nos condenaria ao presente eterno. Um ideal que, quando a Terra inteira estiver vivendo, talvez nenhum de nós esteja mais aqui para participar da orgia. A sombra de Dionísio. Embora eu prefira muito mais “À sombra de Dionísio”. Quero acreditar que estamos sob. Colocar-me como sujeito do titulo do livro.

“A Sombra de Dionísio” ficou um bom tempo no banheiro da área de serviço. Contaminado da merda diária ao som de cigarros proibidos. Contaminado dos sapatos idiotas da faxineira uma vez por semana. Invasões são sempre inesperadas e talvez da sombra um vírus me contamine quando eu estiver quase adormecendo, na minha cama limpa, lendo o livro que habitou entre a privada e o lixo do banheiro.  Folheado entre crises de dor e ataques de pânico. E quase, sem pensar, no sono que se sucede à leitura, molhar a ponta dos dedos na ponta da língua e me deixar contaminar por algum estafilococos resistente demais. Talvez ali nasça um câncer. Talvez dividir baseados seja mesmo perigoso demais. Talvez ser generoso doa muito mais na alma de alguns, do que alguns corajosos da carne possam sequer imaginar.

Há sacrifício nas gentilezas. Dói os olhos cortar cebolas mas talvez você só prefira não saber enquanto eu escolha cozinhar. Enquanto for melhor acreditar que tudo é uma questão de escolha. Cansa correr seis quilômetros quando os pulmões estão cheios de fumaça, mas é preciso. É foda ser recordista em numero de carros, mas a cidade cresce. Talvez alguma coisa esteja um pouco errada. Talvez tudo esteja errado demais e a gente só prefira não saber. Alguns preferem não pensar na implicação dos atos, mas para eles existe Embargo de Obra. Por isso cabe a mim lavar os pratos. E a você catalogar os fatos. Se um de nós precisa cuidar da vida real e o outro de nós precisa manter teso o arco da promessa, entre quem e o quê precisamos transitar para continuarmos juntos?

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A CONSTRUÇÃO DE UM PRESÍDIO EM LAJEADO

16 set

Muito tem se falado e discutido sobre a construção de um moderno presídio no bairro Santo Antônio, aqui em Lajeado. Para os que não conhecem o lugar, trata-se de uma das vilas mais marginalizadas da cidade. Lá não existe nenhuma praça. Do morro Santo Antônio mais se ouve falar (mal) do que se vê de fato. O fato é que ninguém vai até lá. Ninguém sabe, exatamente, o que existe por “lá”.

Nos jornais locais, nas rádios, na conversa do dia a dia, muito do que se escuta é sobre os benefícios que o presídio poderia trazer ao miserável local. Haveria uma contrapartida para o bairro, defendem muitos. Esse discurso de “vai trazer melhorias para o Bairro Santo Antônio” era e é muito difundido entre a opinião pública da cidade. Muito – perigosamente – próximo já se  ousou chegar da construção do tal presídio. Lentamente o caso foi ganhando as páginas dos jornais, muito disso motivado pelo surgimento recente de uma imprensa alternativa ao grupo mais antigo da cidade e, até hoje, único jornal diário da região. Motivados pela saudável concorrência, ambos os jornais começaram a trazer a público as questões envolvendo o presídio. A rádio Independente também colocou o foco sobre a questão e assim se criou um “embate” público. Sim ou não?  Queremos ou não queremos?

A questão do sim e do não já é, por si só, uma questão excludente e totalitária. A questão entre o sim ou não em uma área pobre e excluída como o Morro Santo Antônio, leva muito mais tempo para ser decidida e exige muito mais discussão do que um governo apressado e uma imprensa (por vezes) tendenciosa gostariam que fosse. Após me perguntar muito sobre a segurança de se ir até o bairro Santo Antônio e escutar a população em uma noite de audiência pública, uma vez que todos aqui do outro lado do rio temem as vielas daquele perigoso bairro, optei por ser cidadão e correr o risco de me surpreender – sempre se surpreende quando se tira a prova do preconceito e se vai conferir a realidade por trás da máscara do medo. Fui preparado para entrar numa perigosa zona de zumbis do crack, estupradores e ladrões. O “lixão humano”, como são conhecidas as áreas pobres de qualquer município.

Bastou eu ter decidido ir até o bairro, para que as dificuldades começassem a aparecer. Sim, me perguntei muito o porque de ser tão difícil se conseguir chegar em um lugar onde se debatia, publicamente, um futuro imediato da minha cidade. Porque nenhum jornal publicou sequer um mapa explicando à população como se chegaria ao local da audiência? Para quem era conveniente que uma discussão de âmbito municipal ficasse restrita aos moradores de um bairro pobre? Quem ganha deixando nas mãos de poucos o futuro de todo um município? Me perguntei muito também se o fato de eu não ser morador daquele bairro pobre me eximia da responsabilidade de pensar sobre a cidade. Poucos lajeadenses lembraram que no meio do morro Santo Antônio se decidia o futuro de um presídio que deve sim gerar um impacto social não somente naquela região, mas em toda a Lajeado. Mas a pergunta que não quis calar na noite da audiência pública foi uma só: qual o impacto real do presídio para o bairro e para a cidade?

A primeira surpresa, subindo o morro Santo Antônio, foi constatar a presença de casas limpas. Crianças na calçada. Calçada? Vestidas. Uma sensação de cidade do interior pairava no ar. sem asfalto. Quase sem luz. Vielas tortas e matagais assustando algumas partes. Mas lá, no morro Santo Antônio, existem pessoas que lutam por dignidade e vivem aquele bairro com vontade e necessidade de vê-lo seguro, iluminado, pavimentado. Luta-se por uma quadra de esportes, por uma área de lazer. O pessoal do morro Santo Antônio espera cuidado e cobra olhar.

Foi muito interessante acompanhar a explanação do Governo citando diversos exemplos de comunidades que haviam optado por receber o presídio em troca de uma contra partida social. Falava-se em Escolas, Praças, Iluminação Pública, Segurança. Mostraram-se exemplos reais de sociedades que haviam trocado o perigo, a poluição visual e o impacto social que um presídio traz ao local, por obras de melhoria na comunidade. Senti que a relação era um pouco parecida com a de um homem tentando comprar uma mulher. Te dou segurança se você deixar eu plantar um presídio dentro de você. Se todos os criminosos da cidade saem de lá – como se ouve à boca pequena em salas de espera e mesas de jantar, porque não construir um presídio no meio deles? Se presídio fosse bom, porque não construir em bairro de rico? A população daquele bairro pobre sabe perfeitamente o seu papel na sociedade lajeadense e estava sim disposta a entregar a segurança dos seus filhos em troca de uma cancha de esportes. A dona de casa correria o risco de que o primeiro bandido que pulasse o muro caísse dentro do seu quintal, mas tudo bem, se a sua rua fosse pavimentada em troca disso. Sim, os pais estavam dispostos a deixar seus filhos estudando a poucos metros de criminosos perigosos e toda a cadeia de tráfico que se forma em volta de um presídio estaria também na porta da escola. E foda-se o MEC e suas tentativas de proteção da criança e do adolescente? Foda-se a legislação ambiental e os índios que moram ao lado? Foda-se o estádio do Lajeadense que pretende ser construído quase na frente? Em dia de jogo… já pensaram no que o bolsão do tráfico vai “faturar” `as custas de quem for assistir ao campeonato? Já pensaram nos seu filhos fazendo escolinha de futebol na frente de um presídio? Até onde vai o “tudo bem” quando é a sua segurança que corre risco? Seiscentos presos dentro de um bairro residencial, precisamos disso? Um presídio traz em volta de si um bolsão de problemas, mas todos daquele bairro estavam dispostos a suportá-los em troca de um pouco de atenção. E o que foi visto na audiência pública, no topo do morro Santo Antônio, foi uma comunidade carente de atenção. Pedindo para ser vista. Disposta a engolir tudo por um pouco de segurança.

Eu sei que todas as pessoas ali, daquele bairro, só queriam saber de uma coisa: afinal de contas, o que vão nos dar em troca? Esperava-se sim, que fosse feita uma oferta clara e precisa de contrapartida social ao bairro. Esperava-se sim que a administração Municipal apresentasse seu plano ao Estado, e cobrasse, cobrasse claramente o que o bairro precisaria em troca do risco de se ter um presídio dentro dele. É essa a função de uma prefeitura: lutar pelos interesses do povo e aproveitar de toda e qualquer chance para tentar atrair investimentos para o município. Seria a grande chance das pessoas que deveriam cuidar dessa cidade mostrarem a sua preocupação e mostrarem uma articulação clara e precisa em defesa dos menos favorecidos. O presídio traria sim a possibilidade de se pensar um plano de salvamento do Morro Santo Antônio, mas na audiência pública nada se falou de concreto sobre isso. A população reivindicou, a Prefeitura pediu que não se exaltassem e respeitassem a prefeita, e ninguém da administração municipal ousou cobrar do estado uma lista de melhorias concretas para o bairro. Os meus ouvidos ficaram exatamente iguais aos ouvidos de toda a população local: o que vamos ganhar em troca? Não havia plano. Não havia estudo de impacto ambiental. Não se pensou para onde transferir a comunidade indígena. Não se considerou as especificações do MEC sobre proteção ao jovem estudante. Não havia meta de melhoramento. Não havia contraproposta social ao impacto que um presídio traria àquela comunidade que, arduamente, dia apos dia, ao longo de muitos anos, luta para dignificar o seu espaço. O presídio seria a chance de, finalmente, o bairro ganhar algo em troca, mas praticamente nada de concreto foi lhes oferecido. Calculei comigo mesmo o quanto de imposto esse presídio deve gerar para a cidade. A prefeitura poderia ter feito um cálculo estimado desse valor em impostos e ter apresentado obras que caberiam nesse valor. Obras que, a troco do imposto gerado pelo presídio, poderiam reverter em melhorias para o bairro. Infelizemente as contrapartidas propostas não passam de vagas promessas políticas. Promessas essas que já elegeram muitos políticos que hoje estão no poder e que nunca foram cumpridas. Promessas. Vagas promessas de uma administração que, mais uma vez, parece ter dormido no ponto. Parece ter esquecido de dar as mãos ao povo e de lutar com unhas e dentes pela dignificação de um espaço público carente. A hora de se pedir algo em troca havia chegado. Todo o Estado estava reunido esperando que a cidade pedisse. O povo pediu. A prefeita pediu que o povo se acalmasse. E só.

Subi o morro, apesar de todas as adversidades, para saber o que bairro ganharia e o que o bairro perderia com a instalação de uma penitenciária dentro dele. Saímos todos de mãos abanando. Sem propostas. Sem possibilidades concretas. Sem saber porque não nos ofereceram nada alem de um ressentido “se vocês não querem penitenciária, o problema é de vocês”. Será que o bairro Santo Antônio perdeu a sua única chance de melhoria ao negar um presídio dentro dele? Será que porque o Bairro Santo Antônio ousou dizer não, ele perdeu a sua última chance de progresso? Saí de lá pensando que talvez sim. Talvez seja um presídio, ou nada mais. E talvez por isso, o povo do outro lado do rio, nós, lajeadenses da área nobre e limpa, possamos continuar olhando para eles como se não fôssemos cidadãos de um mesmo lugar.

E se alguém vier dizer que um ginásio de esportes e uma viatura policial é muito, nós, moradores de bairros ricos, sabemos que não. Nós sabemos o que é muito. E é muito o que se pode pedir em troca de um presídio de segurança máxima tão perto de todos nós. Peçam! Peçam sempre um pouco mais do que se pode ganhar.