Arquivo | agosto, 2010

SISTERS OF MERCY

29 ago

As pessoas que conheço e que leram Rilke, preferem acreditar que são o jovem poeta. Nunca o escritor. Nenhuma das pessoas que conheço ousaria querer ser Rilke. Ser Rilke deve ser chato. Ter sido pode ser bom, mas ser, não. Na vitrola coincidentemente rodava Leonard Cohen antes de eu ter saído de casa para ver uma peça de teatro que termina justamente com essa canção que toca agora. Encontrar velhos conhecidos é só ter certeza de que ainda estamos vivos. Quando o foyer de um teatro subitamente se transforma em um labirinto de espelhos de onde você tenta desesperadamente fugir, é sinal de que voltou para casa. Quando entro na padaria, no fim de um domingo, todas as pessoas olham muito mais do que eu estou disposto a suportar. Não entendo a luz fria das padarias. nem a luz vermelha no céu de são paulo. o sol sempre ficando um pouco mais pode até encher meu peito de euforia e sim, vamos todos aguentar  só mais uma semana. nem que se seja a última da nossa vida. nem que seja só pra ver qual é. A claustrofobia vem do olhar prédios crescendo tão depressa. aniquilando sempre um pouco mais da nossa vista. cegueiras que plano diretor algum ousaria controlar. inútil lutar contra o que é fato. ela voltou a colocar os óculos escuros e a postar verdades em seu blogue. lajeado inteira ficou contra ela. Deu a biografia pequena no jornal, três dias depois de ter morrido. só então se deram conta de que ele não estava mais lá. Lá fora, a noite chegando sempre mais atrasada é só uma vontade desesperada de um dia ser o que nunca conseguiremos. Assim como existe tranqüilidade nos dias longe de, também há tranqüilidade na volta para casa. haveria. se ela ainda estivesse lá. Em breve meus pais não morarão mais na casa onde todos nós crescemos. A cidade também cresceu. Para você ter idéia, a casa onde nós crescemos era uma rua de terra. dois quilômetros para dentro do nada depois, a ponte de ferro. hoje a frente da casa dos meus pais é uma via expressa de asfalto que congestiona às seis da tarde. a ponte de ferro é só uma ponte prestes a cair sobre um banhado de alga verde. as árvores na beira do rio foram todas arrancadas pela enxurrada do último verão. uma cicatriz onde antes existia um mato. Lajeado-SãoPaulo-Amor. Do outro lado da ponte: Francieli Spohr A cidade conseguiu nos expulsar da casa de onde todos nós crescemos e esse é só um jeito do mundo nos acordar para o que é real: america is the brave new world – sorte a nossa que chegamos antesi. Nossos pais envelhecem tão depressa, cada vez mais. as rugas no olho dela é só a certeza de que não veremos tudo. Nossas mães engolindo bolachas secas. A madrugada engordando esperas. Farinha congestionando glotes. Dá sempre para ir um pouco mais. I wear my sunglasses at night. O marido eterno querendo durar para sempre. As bromélias florescendo na iminência da morte desesperadas tentando durar para sempre. as flores da bromélia. o último respiro antes de um talvez nunca mais. talvez hoje seja só o último respiro antes de amanhã. esse onde vazio prestes ao suicídio onde, você tentou me explicar, estava contido o destino. eu não entendi. mas foi como se tivesse sido sim. sobreviver ao clima desértico da nossa cidade é complicado, mas escapar do labirinto de espelhos é ainda mais difícil. À medida que o verão se aproxima, as noites ficam cada vez mais geladas. Para quem nunca leu Paul Bowles, talvez seja complicado aspirar a morte no deserto e achar bonito a iminência do falecer. o livro, como o presságio de um mau agouro, espera ser terminado. movimento para vozes pequeninas. um dia antes que eu morra. antes que nunca mais chova. terminar de ler o céu que nos protege. São os livros que se acumulam os dias ficando mesmo cada vez mais depressa? Nossas irmãs cada vez mais longe são só um sinal de estamos todos velhos? ? Foi tudo mesmo tão assim? Tão antes de eu ter me dado conta?

SOB O SOL DO INVERNO NO OUTRO LADO DA JANELA, OS PÁSSAROS CANTAM DE DOR.

28 ago

As coisas de amor são estúpidas porque são as coisas que aprendemos quando éramos crianças estúpidas. Um envelope cor de rosa, um coração vermelho, duas iniciais descansando juntas na última página do caderno de matemática só para ver como ficariam nossos nomes se vivêssemos juntos. Se decidíssemos amanhã morrer sob o mesmo teto. Aprendemos sobre essas coisas de amor, geralmente, com as primeiras pessoas que passaram muito tempo com a gente e geralmente as pessoas que passaram mais tempo com nós pequenos foram as pessoas menos pagas. aos pequenos, os pequenos – diria uma professora, conformada com o próprio salário. Corações vermelhos, papéis cor de rosa e cartas de amor são a classe baixa incrustada em nós. Hoje é sábado e é só um dia em que te amar talvez seja eu lendo rápido o jornal para você aproveita-lo mais durante o café. A medida do gostar é a medida do conforto que ousamos conceder ao sujeito de. É preciso que cada um se apegue com vontade às próprias vontades, minha mãe continuou fumando e olhando para a água podre da piscina. Sábado de tarde. De inverno. Na vida a dois só vale pra quem sai ganhando, meu pai bebeu um gole do whiskie. O inverno nunca esteve tão quente. A classe média escorre pelo ralo, mas todos comemoram o poder de aquisição da classe baixa – reclama o que também não sabe em quem votar. Derivados de competição abrangem também o campo dos fetiches e alargam a variedade de toques que compreendem o espaço entre o carinho e o soco. Entre uma língua e um dente. Se nada mais for capaz, resta ao gemido a capacidade de abranger todo de uma relação sexual. A sinopse de uma história de amor. O sábado está cheio de sol e o ar nunca habitou tanto veneno. A cidade agoniza e as pessoas tentam acreditar na vila madalena. Hoje não dá. Carros quebram, todos os dias, novos recordes de sujeira e, a cada dia, os pássaros gritam com mais agonia e nós ousamos pensar que eles estão felizes. que a natureza existe. que o ar que respiramos é menos sólido do que gostaríamos que ele fosse. Cada vez mais cedo, as doenças acumulam células. As flores de chumbo do abacateiro empoeirado. O vento que não entra pela janela. Estão queimando o ar de São Paulo, mas terça-feira deve mesmo chover. E à noite, com certeza, fará frio. É sempre fácil prever o deserto.

OUÇA O PRÓPRIO CHÃO. A RESPOSTA ESTÁ NO SOLO.

27 ago

A leveza diante de um empreendimento concluído é sempre proporcional ao tamanho da empresa. Concluir um roteiro é meio como que fechar as portas de um apartamento pela última vez, sabendo que nunca mais se irá voltar para lá. Talvez você nunca tenha passado por isso de sair de casa pela primeira vez. Não a casa dos seus pais. Talvez dependa de mim te obrigar a enfrentar o que é inevitável e o que deve ser comum a todas as pessoas: concentre-se em perder todas as convicções.

As noites adquirem sentido quando não há ninguém esperando por nós do outro lado da praça. Os eucaliptos continuam produzindo um pouco de ar, mas os índices de umidade prometem nunca mais voltar a subir. Será que estão mesmo queimando o Brasil? Meu pai ousa dormir, mesmo a essa hora noite. Estou queimando a minha garganta todos os dias sempre um pouco mais. Se o que faz mal é o papelzinho talvez devêssemos mesmo optar pelo cachimbo.

Às vezes simplesmente atravessar uma madrugada inteira vendo vídeos no youtube é um jeito de ter certeza de que ainda estamos casados. Hoje eu devia ter um pouco de ressaca, mas não tenho. Hoje você devia ter acordado de mau humor, mas não acordou. Hoje eu devia ter um pouco de vontade de aproveitar o fim de semana, mas tudo vai ser igual ao que foi na semana passada de dois anos atrás. Quem era você dois anos atrás? Talvez eu devesse comprar a folha só para ter o guia. Ter o guia só para não precisar fazer nada. A cidade tem tanta coisa para fazer e tanta gente querendo aproveitar as coisas que tem para fazer que eu prefiro não fazer nada. há toda uma coleção de discos que trouxe da última viagem e que ainda não tive tempo de conhecer de verdade. Dos discos que trouxe, o que passou mais tempo no prato da vitrola foi bright eyes. Listen to the Soil  é um disco todo escrito em prosa. Uma ópera folk. Como um livro. Como capítulos ilustrados. Quatro lados de dois discos que, sempre que ouço, me levam para bem longe. E o melhor de tudo é que o cara tem praticamente a nossa idade.

Passamos a noite olhando para nós três, sentados juntos e tentando encontrar uma língua comum a todos nós. Você pedia que eu parasse de ser tão cansado e me xingou quando fechei os olhos para escutar a voz de vocês dois falando de boca fechada. De vez em quando eu só queria sentir o seu braço caindo em cima do meu, mas não senti. Aqui os pássaros sempre cantam à noite

E NO FINAL DA VIAGEM ME DEI CONTA DE NÃO TER COMIDO NENHUMA

26 ago

ismo.ismo.com

Nunca fomos tão artificiais e nunca fumar ou não fumar fez tão pouca diferença quanto nesses dias, nessa cidade. o seu retro é só um jeito de  continuar repetindo exatamente o mesmo que já foi dito por quem veio antes de nós. fatalmente, nossos pais. Nesses dias de São Paulo deserto do mundo, meu pai me liga e bota a culpa nas queimadas. “Estão queimando o Brasil”. apavorado cisplatino. Tento culpar o transito paulistano mas ele afirma que uma nuvem de fuligem, há pouco tempo atrás, varreu o estado e ninguém falou nada. Antes de argumentar, mudou de assunto rápido. chamada para celular não custa pouco. antes de desligar, lembrou que era aniversário de casamento.

–       a quanto tempo tu agüenta ela?

–       33 anos.

–       Aposto que vocês só casaram em agosto porque era quando tinha data disponível na igreja.

–       E no salão. Tu tava apontando pra nascer. Qualquer data era data.

rua augusta e um cara sentado na vitrine de uma loja de roupas coloridas usava uma máscara para filtrar o ar. era ontem de noite. Talvez você não tenha visto, correndo com medo de. As noite de quarta não são as mais perigosas contanto que se caminhe nativo. finja que não sou daqui e me mostre uma parte que só você conhece. olhe para o céu e surpreenda a feiura da antena apontando a lua sobre prédios escuros. a metrópole não tem vergonha de sê-la. escura e suja. A quantidade de barbudos é cada vez mais impressionante e tanto faz se williamsburg, rua augusta ou kreuzberg. Estamos no ápice do devendran way of life. Um gaúcho chamado Ismo (que não sou eu) publicou a foto da camiseta que abre o texto.

Lembro que quando desembarcamos no Porto, há três anos atrás, eu e Esmir mal nos conhecíamos. Fazíamos parte de um pequeno grupo de artistas brasileiros convidados a participar do Festival de Cinema de Santa Maria da Feira. Uma menina bonita, sentada no banco da frente, tinha óculos escuros e parecia cansada da noite sobre o oceano. Olhei para o sol nascendo no começo daquele inverno em Portugal. Olhei para os cabelos pretos. Lisos. Escorrendo contra a vidraça onde a luz laranja refletia. Ela olhou para trás, para nós, tirou os óculos escuros e perguntou se a gente conhecia aquela “música comiendo pêra…. em santa Maria de la feira”. Falamos do nosso plano de fazer uma foto comendo pêra nas ruas da cidade e ela topou. havia uma sincronia a ser eternizada. Na foto estaríamos devidamente lambuzados de pêra. Ela era a Tainá. E a gente era a gente. Quatro anos atrás de uma foto que nunca foi tirada. De uma música que não precisou ser vivida.

pergunto se comiendo pêra não é=se trata de apenas um bairrismo.ismo?

QUANDO O PRESENTE É SÓ UMA MASSA CINZENTA DE I DON’T CARE

25 ago

Como trabalhei a tarde de Sábado e a tarde de domingo, eu e meu patrão interno decidimos que ontem não faríamos nada.

Quando acordei meu patrão interno me obrigou a trabalhar, mas desistiu antes de mim, pegou a estrada e foi para onde não sei. Pensei em trabalhar mas meus pulsos não encontravam motivo algum para escrever. O patrão interno desceu os três lances de escada e daqui, do meu pequeno quarto de empregado, ainda posso ouvi-lo batendo o pesado portão do nosso pequeno prédio, perdido na pequena Vila Madalena. Ele deu tchau para o pequeno porteiro e uma pequena, porém estranha, sensação de liberdade tomou conta de mim diante da possibilidade de ele nunca mais voltar.

Os quilômetros que se acumularam entre nós dois era o entendimento que ainda não havia tido de que finalmente havia chegado. Com quem você dividirá as cervejas depois do expediente é um problema seu, mas eu ainda sou o trabalho da sua vida.  Há todo um escritório de afetos a ser tocado por você caso opte mesmo pela demissão. O ar está quase irrespirável e eu não sei diferenciar muito bem o que sinto daquilo que ouço. Tudo tem se misturado em uma pesada massa disforme e cinza de I don’t care.

PSICOGRAFANDO MINHA MÃE (SESSÃO UM DE SEIS)

24 ago

O meu maior desespero foi ver o meu marido agindo como todos os outros. Quando eu disse que queria pendurar um quadro que pintei na sala de casa e vi que ele olhou para mim do mesmo jeito que meu pai olha para a minha mãe quando ele está meio bravo com ela. Naquele exato momento eu vi que ele seria exatamente como todos os outros homens da nossa família. Da nossa pequena rua cheia de árvores e cachorros doces atrás das grades. A nossa vida não vai muito alem de três bairros, dos muitos que sempre existiram nessa cidade. Eu devia ter vinte e três. Vinte e oito anos. Nosso primeiro filho entrava pela porta da frente todo cheio de barro. Ele você e você só tinha dois anos. As mudas de grama demoravam para cobrir todo o jardim. Nos finais de semana nós ficávamos só com você. Eu e seu pai. Durante a semana a sua avó cuidava de você e você gostava de morar com lá. Lembro de todas as vezes em que te deixei lá. Tomara que você sempre se lembre que um dia nós também te deixamos sozinho. Ou até nós. Você me pergunta qual é o tempo da memória e eu digo que ela pode durar a eternidade. Conto para você sobre as coisas que a minha mãe me contava e talvez passar uma história adiante faça muito mais parte de nós dois que minha modéstia permite assumir. Há dias em que penso muito em você, meu filho. É estranho e, ao mesmo tempo confortável, não saber onde você está. Sempre foi assim. Te telefono quase nunca porque sei que não precisamos prolongar o que nunca aconteceu. Desculpa se eu não sou modesta, mas eu sinceramente me orgulho de ter tido esse desapego com você. Quando comparo você e sua irmã tenho medo de ela ser apenas um espelho de mim. no domingo passado estávamos na casa dela. não agüentamos de saudade e fomos visitar o nosso pequeno que já está com dois anos e corre cheio de barro pela casa. O quanto nós rimos. Vocês são tão diferentes. E eu não sei quem de vocês dois é mais feliz. Antes que eu termine esse email, queria te perguntar se é mesmo verdade uma coisa que lembrei recentemente e a qual não me saiu mais da cabeça. Você me contou que um dia você e sua irmã brigavam, crianças ainda, e eu me vi obrigada a rogar-lhes uma praga para que parassem de brigar: quando crescerem, morarão longe um do outro! eu disse mesmo isso? Se disse, será que minhas palavras tem o dom da premonição? Não sei se gostaria de estar aqui. nessa cidade. mas estou. É estranho não saber se eu devia ter passado toda a minha vida perto da minha mãe ou se devia ter ido para longe. Mas eu lembro, como se fosse ontem, dos olhos do seu pai olhando para mim como se eu fosse qualquer mulher. Eu segurava o quadro que eu mesma havia pintado. Ele segurava a furadeira, sem camiseta, perguntando a altura exata do furo. Ele suava e estava moreno, como sempre esteve. Quando ele me olhou daquele jeito, seus olhos azuis adquiriam um castanho falos. Que ele nunca teve. Seu pai sempre teve olhos azuis e você sempre teve olhos verdes. Ele ainda está aqui. Ele ainda está castanho. Ele sempre vai estar. Nunca fez tanto frio aqui no Sul e eu nunca senti tanto frio na minha vida.

SE TUDO ACONTECE EM ELIZABETHTOWN, MELHOR DAR O FORA O QUANTO ANTES

23 ago

Dos três, a America era a pior. O médico da noite identificou um coágulo que a equipe da tarde não havia percebido. Do outro lado da janela do nosso quarto, Elizabethtown devia ser apenas o nome de um filme ou uma cidade onde passaríamos uma noite a caminho de Houston. Se tudo acontece mesmo aqui, o melhor é ir embora o quanto antes. A equipe daquele pequeno hospital no topo de Tunnel Hills pediu que tentássemos localizar um de seus familiares. Havia suspeita de que os documentos que ela apresentara na entrada fossem falsos e, caso a suspeita se comprovasse e caso não aceitássemos colaborar no caso, seriamos indiciados como cúmplices de uma adúltera.
A americana dorme e nós dois falamos em português sem a hipótese de estarmos sendo rudes. Em português, tentávamos entender se devíamos continuar perto dela ou se devíamos vestir nossas roupas e tentar cair fora daquele hospital o quanto antes. Sugeri que vasculhássemos na bolsa à procura de alguma prova que a inocentasse, mas ele sabia que minha intenção era incriminá-la para ir embora sem culpa.
Ele conseguiu levantar da cama sem nenhuma dor e caminhou descalço até a janela onde assisto noite sobre a cidade. Passaríamos a noite arquitetando a fuga. A janela estreita obrigava nossos braços a se tocarem sempre que um de nós defendia com mais intensidade o seu ponto de vista, e era bom aquele mínimo contato humano. A eletricidade dos nossos pêlos contaminando vontades.
Do outro lado da porta fechada o transito de doentes, acidentados e criminosos nos dava a entender a intensidade das madrugadas de sábado no corredor daquele hospital em ElizabethTown. A enfermeira abriu a porta sem bater e deu de cara com nossas bundas nuas. Viramos de frente e o avental verde claro bordado Tunnel Hills escondeu nosso corpo. Pouco importava o pinto de quem estivesse duro, ninguém olhou para baixo. A sabedoria do primeiro mundo é sempre transitar em zonas permitidas. Ao governo protestante, basta que se eduque na mesma proporção em que se puna. Ou que se arrependa na mesma proporção em que se pague. Por ser de Lajeado, sei me comportar e obedeci com precisão quando ela gritou: “straight to bed you both”.
Trocou os frascos vazios por dois litros de soro e acoplou às nossas veias onde uma agulha eterna se acostumava ao meu corpo. As veias coçaram, mas logo passou. A agulha latejou, mas logo passou. A loira americana falou dormindo duas palavras: segredo e casa. Não contente em sonhar na nossa língua, ousava filosofar sobre Heidegger em português.
A madrugada avançou. Duas outras enfermeiras entraram para checar a temperatura dos nossos corpos e ambas cantarolavam baixinho “Alejandro”. Antes de adormecer, lembro de ter tido certeza de que talvez Lady Gaga seja mesmo o espírito do nosso tempo.É preciso sempre sucumbir ao sono antes que se tome por verdade o que não merece ser reconhecido como.