Arquivo | julho, 2010

apple clock

30 jul

Tanto comparar é restringir quanto generalizar é arrancar de cada um a máscara daquilo que se é. Há dias em que simplesmente as coisas perdem um pouco o sentido e as pessoas tornam-se muito mais perigosas do que ousaríamos imaginar. Há dias em que a conjunção entre a terra e o todo traz tranqüilidade. Há dias em que somos regidos pelo signo do oposto. Problemas cabeludos precisam vir à tona. Todo o corpo sob pressão está exposto ao câncer e desintoxicar-se é cada vez mais complicado nessa ilha perdida na parte norte do mundo. Olho para as vitrines e não canso de repetir: I wanna leave you, nyc. Mas hoje de noite tem spiritualized no radio city music hall e o mundo aqui pode ser cinema demais a ponto de arrancar a máscara e quebrar a câmera.  O imperativo do teatro é o tempo presente e só por isso o cinema se sobrepõe ao teatro aqui. o presente não mora mais aqui.

.Aqui faz calor e as pessoas da noite passada só não conseguem tolerar um latino não querer ser amigo delas. A menina repetia no meu ouvido I make money why don’t you wanna talk to me.

–       what do you hate?

–       Money?

–       The way you talk about it.

Em Bedford, williamsburg, a ilha mais moderna da cidade. a nova Berlim.. três garotos fazem o melhor show do mundo. Eu me perco neles. Um menino de oregon, outro do Alabama, oregon é Alabama, e uma menina de nyc. Um violino um violão e uma sanfona. E o som mais bonito que tres vozes distantes, quando se encontram, são capazes de criar. Who are you?

–       we are nobody.

–       Myspace? Don’t you have myspace?

–       We are proud to be nobody.

Depois tocaram mais uma daquelas músicas e todos que passavam deixavam um dólar dentro do case. Nós não. Eles cantavam para nós e eles três só eram a nossa banda. Estaríamos no palco amanhã se conseguíssemos estar juntos.

Uma garota grita na porta um nome conhecido.  Estranhamente conhecido. Reconheço o seu nome no nome que ela grita e corre até a porta da Deli. Are you Dorian?

–       no. He’s Dorian.

E ela ficou balançando a carteira branca de papel. A carteira que nós dois temos iguais como se fosse uma ligação financeira. Nossas alianças são nossas carteiras? Prefiro acreditar que não.

–       it’s the wallet of my friend! Thank you!

–       How come thank you? I don’t want your thank you!

–       What do you want?

–       A reward, asshole.

–       What’s reward?

–       Some gratitude because I gave it back to you.

–       Thank you.

–       I don’t give a shit.

–       I can give you my gratitude, my respect, my friendship. But if you want MY money, that’s your problem.

Atravessando a ponte de williamsburg às três da manhã, de volta para casa na última noite de verão, os meus olhos eram os únicos que ousavam se perder do outro lado do rio. No skyline da cidade que não dorme nunca, mas adormece cedo demais. The city that doesn’t sleeps é a cidade dos faxineiros limpando escritórios às três da manhã. Frank Sinatra que me prove o contrario, mas onde está a vibe desse lugar? Eu não acredito na ilha, tampouco acredito em Williams. Nem no navio encontrado enterrado na raiz do world trade Center. O verme dentro do buraco da maçã não pode ser tão cruelmente literal. Amanhã um filme qualquer estrelado por Di Caprio e Ellen Page ressuscita o monstro e todos aplaudem no final. Eu tento entender o segredo do pião, mas parece não fazer o menor sentido.

Olhando para fora da casa vê-se a estreita fresta entre os prédios. A fresta revela o Hudson e o Hudson reflete uma luz incrível nas primeiras horas da manhã. a hora de mijar e beber água. Processar as sujeiras da noite. Prefiro que meus faxineiros me desintoxiquem durante o dia. é meu carnaval. É meu verão. é a minha vida. This is not about you. Odeio Wall Street e odeio estar morando aqui por esses dias. Tudo é angustiante demais nessa parte da cidade. mas adoro. Adoro porque sei que vai acabar.

Estava andando pelas galerias do Chelsea e pensando em todas aquelas coisas caras e calculando o quanto elas poderiam vir, um dia, a valer. Perguntava todos os preços, brincando de bolsa de valores com coisas bonitas. Queria ganhar dinheiro estocando obra de arte. Um bom jeito de se viver.

Um garoto de nyc veio me dizer, com os olhos cheios de lágrimas, que ele era o garoto do filme. Disse que entendia tudo pois ele vivia no Brooklin e Manhattan era o mundo impossível. Separado por um rio. Unido por uma ponte. Eu disse que era impossível e subestimei a capacidade das pessoas de criarem, cada uma, a sua própria identificação. Depois de dois dias Todd Sollondz falou o mesmo. olhando de new Jersey para Manhattan dizendo que o mundo estava lá, do outro lado do rio. É preciso ir um pouco alem de Manhattan, pensei em dizer para  cada um deles. Mas não. É cruel demais subestimar a dimensão de mundo de cada um. Há os que acreditam em nyc, e eles precisam ser respeitados. E deixados em paz, onde estão. Nyc ou epcot Center? É tudo uma questão do quanto você está disposto a acreditar.

heil, hipster!

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3×4 DA CIDADE VAZIA ÀS TRÊS DA MANHÃ

30 jul

não acredito e não consigo acreditar nas relações baseadas em noites perfeitas. para mim a noite de ontem foi infinitamente mais significativa do que a noite de quarta, em todos os sentidos. enfim. um saco falar sobre isso em email, impossível tentar explicar racionalmente os porques das coisas como são. tlvz seja pq eu acredite muito mais nas pessoas qdo o entorno se torna um inferno. e ontem o nosso entorno foi infernal. aquelas pessoas, aqueles lugares, esse país que me incomoda tanto. se vc não tivesse dançado david bowie, sozinha, naquele bar decadentemente vazio cheio de americanos que se vendem novidade, aí sim nada teria feito sentido. aí sim tu devia ter ido embora na quarta.

NÃO É PRECISO ESTAR NO TEXAS PARA QUE SEJA SUCKS.

28 jul

Mais uma vez estou em um apartamento que não é meu e eu não posso não me perguntar até quando habitarei espaços que não são meus. Ontem à noite, quando te falei sobre os meus planos de ter grandes terras e reunir grandes pessoas dentro delas, você se surpreendeu. Se o futuro tivesse tirado uma foto de nós dois ontem à noite, será que teríamos entendido alguma coisa do que viria a ser hoje?

Teoricamente todas as células foram trocadas então teoricamente somos duas pessoas diferentes. quinze anos depois.

Os taxis cruzavam a cidade rápido demais na noite passada. agora é de tarde, fim dela, e eu, aqui, sou uma hora mais jovem do que se estivesse no Brasil. Eu, aqui, sou seis horas mais jovem do que se estivesse na Alemanha. Talvez essa seja a prova mais concreta de que o tempo é mesmo relativo. Aqui faz sol, faz muito calor. E é bom. A cidade se abre quando precisamos dela e nos recolhe quando nem mesmo nós ousamos mais nos suportar aqui. Hoje fiquei sabendo sobre o destino do lap top de um amigo morto. A família sabiamente optou por confiá-lo ao melhor amigo. Talvez não o amigo da vida inteira, mas o amigo mais próximo do tempo presente. Os amigos mais próximos do tempo presente são os que sabem de nossas células no tempo do agora, e é bom mantê-los. O que os peritos descobririam sobre nós se, daqui há séculos, nas escavações de alguma explosão, encontrassem intacto o HD externo do meu computador? Li em algum lugar que um navio foi encontrado nas escavações do world trade Center. O world trade Center fica há duas quadras de onde todos nós estamos agora. De noite tenho medo de fantasmas e me pergunto quantos mortos do world trade Center habitaram esse prédio antes de eu chegar aqui.

Os gráficos de acesso do meu blogue não dizem nenhum respeito a mim. recordes de excesso e recordes de falta de acesso tem sido batidos quase que diariamente e é só confortável não precisar me reconhecer em que me lê. No fundo, toda a função daquilo que fazemos, é um exercício de tire você mesmo as próprias conclusões. Ontem de noite ele era meio que um pastor do otimismo e do amor e eu estava achando um pouco engraçado aquele discurso pregando o amor incondicional a tudo. confesso que achei um pouco infantil, assim como achei infantis os balões, as luzes, o telão de led, os acessórios todos cor de laranja, as estrelas explodindo no céu, as duas luas tão perto de nós. o peso das guitarras. Os balões colorindo o curto espaço entre nossas cabeças e o telhado do teatro. Quando Wayne pedia por paz amor e pedia que todos os americanos aplaudissem o fim de uma guerra estúpida contra o Irã, não foram todos que aplaudiram. E só naquele contexto foi que eu pude entender a dimensão de uma banda chamada Flaming Lips. Pq  aqui, como em qualquer lugar do mundo, pra ser feliz de verdade, só mesmo sendo muito criança.

CANSEI DE ESCREVER SOBRE O FRIO.

27 jul

wall street, july 2010.

PQ SOMENTE OS EGOÍSTAS SÃO CAPAZES DE DIVIDIR

24 jul

Quando decidimos acreditar que a cidade só faria sentido do outro lado da ilha, foi que começamos a penetrar nas partes íntimas de um lugar desconhecido. Ontem de madrugada, atravessando a ponte de volta para Manhattan, era certo que a ilha havia ficado para trás. Não faria sentido viver dentro dela. O mundo, como me disseram que essa cidade era capaz de conter, existe bem longe de Wall Street. Existe um mundo em Williambsurg, e esse mundo não está na Bredford Ave. Não que a Bredford seja o não mundo, mas limitar-se a ela acreditando que finalmente se chegou é encantamento para turistas preguiçosos. A Bredford é o portal para a novidade que tanto esperamos encontrar nessa parte específica do globo terrestre. Ontem de noite senti saudade antes de partir. Ontem de noite o tempo parou e eu queria apenas que a noite não terminasse nunca.

Talvez eu finalmente tenha encontrado a minha banda e sempre soube que seria estranho e fatal o dia em que a encontrasse. Andávamos bêbados e desesperados pela Bredford, procurando mais alguma coisa que completasse o sentido de tudo e abrisse as portas para um outro lado do outro lado da ilha. Não que quiséssemos, mas apenas não tínhamos vergonha alguma de pedir. Duas esquinas depois, uma garota negra parada na esquina não cansava de repetir e de comemorar a sorte por a temos encontrado. Seus saltos batiam faceiros contra as calçadas do outro lado do rio, pedia que nos seguisse repetindo para si mesma “you are so Lucky guys” e eu só queria que ela tivesse alguma razão para dizer aquilo com tanta alegria. Há alegria nos negros do outro lado do rio. A pedra no rim parece não existir mais e somos mesmo dois caras de sorte perdidos dentro da grande maçã.

Com os bolsos devidamente transbordando de felicidade, precisávamos de um lugar só nosso para desfrutá-la. Eu sei que It’s a free country, mas nem tudo é permitido por aqui. escolhemos uma rua menos iluminada e sentamos na escadinha de um sobrado americano. os postes cansados insinuavam privacidades e tudo é possível quando a cidade está decidida a te aceitar. os hospitais estão, finalmente, longe de nós e nós só comemorávamos,enquanto fechava o primeiro dos cigarros. “Preciso de um pilão” e o palito de fósforo, milagre, estava jogado ao lado do seu All Star. “You are so lucky guys”, não cansávamos de repetir para nós mesmos e, se nos amássemos como os gays conseguem se amar, teríamos nos beijado na escada cinema daquele sobrado em williamsburg. Do outro lado das paredes  da casa, uma família inteira talvez tentasse dormir. Do outro lado das paredes da casa um hipster comemorava a possibilidade de habitar o paraíso. Do outro lado da parede seríamos nós dois, num futuro nem tão distante, finalmente habitando uma cidade que nos orgulhasse pertencer. Williamsburg no dia exato de hoje, Berlim no inverno passado ou São Paulo a doze anos atrás. Contanto que se escute a necessidade física de partir, contanto que se parta e que se deixe um pouco de si sem olhar para trás, está tudo certo. As pedras rolaram pelos nossos rins e a dor sentida será proporcionalmente inversa ao alívio expelido no resto da viagem.

Mas eu queria ter te falado sobre a banda. Sobre a minha banda.  A que eu finalmente encontrei.  Mas isso fica para outro dia. talvez um dia você nos escute tocar. E aí tudo finalmente terá feito algum sentido real. Um sentido que não se limite apenas ao meu próprio contentamento.  Um contentamento que talvez te contamine.

THE ONLY LIVING BOY IN NEW YORK

22 jul

Os dias tem sido dedicados à  descoberta de algo, qualquer coisa, que possa vir a ser inesquecível. por isso caminhamos tanto à procura de uma parte esquecida da cidade. uma parte que talvez contenha uma parte de nós. Uma parte que nos faça sentir saudade  e que nos faça querer voltar. turistas caminham. visitantes observam. moradores sentem. Sinto saudade de Berlim e me pergunto como estará a cidade nesse verão, do outro lado do oceano. Caminho à procura de mim, e não é mentira quando te conto que não consigo me encontrar. Ontem à tarde dormi sob o sol da Washington square enquanto te esperava. Li dois contos da Miranda July e chorei por baixo dos óculos escuros. Ninguem viu. Ninguem vê. A cidade grande implica privacidades. Não chorei pela beleza do conto, nem por estar longe de casa. não chorei porque ao lado um homem velho tocava Neil Young em um violão desafinado. Aquele homem era eu. Chorei pq fazia muito tempo que não chorava. Chorei por uma necessidade física. Assim como agora escrevo por nada além de necessidade física. Materializar sentimentos para evitar doenças, tensões ou mesmo a frustração de passar um longo período de improdutividade. Depois dormi sobre a grama quente da Washington square. Quando acordei, você estava ao meu lado, esperando eu acordar. quando eu acordei, vc me contou que aquela praça era a praça que Hopper freqüentava todos os dias e eu não quis te perguntar quem é Hopper. Depois caminhamos desesperados tentando encontrar um pedaço de nós perdido nessa ilha chamada Manhattan. E não. Não nos encontramos. Mas nem por isso não estamos gostando da viagem.

home is just a place where you constantly have to come back to. geheimnis. solidão é meu segundo nome.

MOMA

21 jul

stageogenic.