Arquivo | junho, 2010

A BELEZA NO SEU LUGAR COMUM

30 jun

Paulino Tarraf é o cara que viu a copa de 78. Paulino Tarraf foram os meus olhos antes de eu nascer, vendo a copa que eu não vi.

Confirmado: tudo de ruim precisa ter seu equivalente de bom. Um quilo de ouvidos inflamados pode equivaler a um quilo de beleza visual. Histerias coletivas podem até ser vistas de um jeito bonito.

O equivalente à sua vuvuzela é o belíssimo decálogo intitulado “Ruas sem Rumo – Torcida da Copa 1978”. Disponível integralmente no youtube, cada episódio de dez minutos mergulha mais fundo no passado e, como nos vídeos de Jingle Jangle, refletem o interno de quem vê. Paulino Tarraf é minha Jingle Jangle de agora, copa de 10. Lentamente adentro seu mundo, tateando pouco a pouco a dimensão desse artista.

Trinta e dois anos passaram assim tão depressa mesmo ou é só uma impressão infundada de quem ainda não viveu o suficiente?

Hoje o jornal “O Globo” trouxe um texto bonito sobre OFEODDM. Sinto que há muito mais de Heidegger em mim do que eu poderia imaginar. Gehemnis.  Tatuagem. Estar perto não é físico. O melhor de si é a capacidade de se colocar em dúvida. Ser o advogado do seu próprio diabo. Ou, se preferir, só uma banda cover cantando bem alto Your Own Personal Jesus em uma noite fria de Sábado, naquela pequena cidade alemã do sul do Brasil.

O mundo dos loiros não compreende a rejeição.

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30 jun

PRESSÁGIO SOBRE A POSSIBILIDADE DE VIR A NÃO ESTAR. O MEDO DA MORTE NEM SEMPRE É ILUSÃO.

29 jun

Tenho visitado, todos os dias, o blogue de um amigo morto. Fico vagando pelos seus textos,  tentando encontrar partes desconhecidas de um cara que eu pensava conhecer tão bem. Quando o pai do meu amigo telefonou perguntando minha opinião sobre o que fazer com o blogue do filho, sugeri que o deixasse no ar até que o tempo da internet o destruísse. E ele deixou. E o blogue segue me apavorando, me enchendo de saudade, me fazendo passar horas tentando resgatar o contexto exato em que nós vivíamos no momento em que ele escreveu um determinado texto. Eu sempre achava que todos os textos dele eram escritos para mim. colocava-me no lugar de cada um de seus personagens, mesmo quando ele escrevia na primeira pessoa. quando o lia, eu era o que ele queria ser.

Às seis da manhã a vizinha do térreo acordou todo o prédio com Jimmy Hendrix. De tarde bateram na minha porta pedindo que eu assinasse um abaixo assinado contra ela. Motivo: desordem. Eu falei que gostava de música e que também tocava som alto, então não podia assinar nada contra alguém igual a mim. “Mas os seus sons são suaves”, respondeu o cara. Agradeci e fechei a porta.

Pelo menos hoje fez sol e, desde cedo, me empenhei a fundo em ser feliz e otimista.  E a não dedurar e nem falar mal de ninguém. Não tenho culpa se todos os leitores insistem em vestir as carapuças que tricoto aqui, para passar o tempo. só acho melhor usar menos linhas verde e amarelas. a demanda de insanidade e ignorância anda grande demais e eu prefiro PAZ.

FALANDO O ESSENCIAL PARA QUEM JÁ ESCUTA O BASTANTE. SENSIBILIZE-SE E CONSTATE QUE TUDO ESTÁ ERRADO. OU SIGA GRITANDO. TOLERANDO O INTOLERÁVEL.

28 jun

A alegria está naqueles que conseguem fazer uma coisa de cada vez. Viver uma emoção de cada vez. Passar a tarde na frente da televisão e esquecer que existe um porção de coisas grandes pra conquistar e que não dá mais para ficar aí parado. Enquanto as massas assistem aos jogos, existem pessoas que não se contentam. Você é um deles. Eu também sou. Eu aproveito o intervalo que o chefe deu, pra fumar no pátio da fábrica. O único lugar onde ainda é permitido matar a vontade sem alarme. Fico quase sozinho. De vez em quando umas mulheres aparecem, mas correm de volta para dentro do pavilhão assim que os homens gritam. Elas adoram ver os homens gritando. As duas horas de jogo é só um intervalo infinito de solidão e eu me sinto bem. Tento lembrar das músicas que estou aprendendo a tirar no violão para ver se estou perto de memorizá-las. “Harvest Moon” é fácil e, sabendo manejar o “fá” com a facilidade de um “sol”, tudo fica bem menos complicado de um modo geral. Arranco a carne morta na ponta dos dedos. Sinal de que faz efeito. No fim de semana não fiz nada alem de tocar violão e tomar chimarrão. São bons os finais de semana aqui na grande cidade. dedico-os exclusivamente ao ócio. Me embebedo na sexta e durmo no Sábado. A cada fim de semana me sinto um pouco mais cansado, mas é só o tempo passando. Os dias precisam de rotina para que o tempo faça sentido e tudo fica muito mais calmo quando consigo me adaptar a qualquer força externa para deixar de ser eu. Só existe conforto no peito do animal domado. A tranqüilidade da jaula implica a quantidade de chaves que cada bolso consegue suportar. Olho para meus pés e surpreendo-me quando constato que não precisam de rodas. Estou aqui e aqui devo ficar. Em volta da casa, sob o sol da segunda feira, o mundo se embebeda com a desculpa de ser patriota. As horas se perdem e uma quantidade gigante de serviço é posta no lixo, com a desculpa de ser patriota. A possibilidade de ser campeão é só e sempre será a preguiça gritando mais alto. Um pouco mais alto a cada quatro anos que passam. As Copas do Mundo só existem para que eu lembre da velocidade do tempo e da falta que algumas pessoas podem fazer nos dias. Nas horas. Nos blogues. Nas cartas. Há quatro anos atrás, nesse mesmo mês de julho, o silêncio era mais alcançável. Grita-se mais. bebe-se mais. vive-se mais e mais tempo. A cada quatro anos meus sentimentos estão mais secos e os velhos continuam morrendo. As vitórias desacreditam-se mais a cada quatro anos que passam. Beba. Grite. Depois chore ou finja não notar. Tudo vai ser igual ao que era antes do gol.

REMEMBER THE GOOD TIMES MAS ESQUEÇA QUE UM DIA FOMOS CASADOS

27 jun

O primeiro passo consiste em pensar na rapidez do mundo, na efemeridade dos encontros, e tentar esquecer que as coisas um dia chegaram a valer a pena. Recuse-se a lembrar dos bons tempos e perca todos os motivos para continuar tudo igual. A ordem do manter só compreende a interrupção enquanto ela não tiver chegado. Nem todas as noites da sua vida precisam significar alguma coisa. Nem todas as fases da sua vida serão dignas de serem lembradas então remember the good times. Nesse fim de semana um amigo morreu. E tudo continua sendo tão igual, com ou sem. As ruas vazias dessas tardes de domingo no bairro da nossa casa continuaram iguais, com ou sem nós dois aqui. A época da coletividade sempre antecedeu a pior das solidões. Preparo-me para o pior. Remember the good times. As praças. Os cães. Os casais. Os solitários do pôr do sol. Nesse fim de semana um amigo morreu e eu calculo quantos anos me separam da morte dele. Temos todo o tempo do mundo. Ainda. Mesmo se as rugas fossem proporcionais ao medo da morte, ainda assim envelhecer seria inevitável. O medo é proporcional ao que vai acontecer, mas o tempo envelhece mais depressa aqueles que conseguem prever o inevitável. Quando eu te vi fazendo o que eu também faria, eu só tentei voltar para casa sozinho, no meio daquela madrugada. Chovia, eu não tinha carro e as ruas não tinham marquises. As ruas continuam sem marquises e eu ainda ando a pé. Quando você me deixou você ainda não sabia que estava me deixando e por isso não sentiu na hora certa e espalhou para todos os amigos que a dor estava em mim. Se todo o atual for mesmo um futuro ex e se todo o presente for mesmo um futuro passado, sempre teremos para onde voltar. Basta que remeber the good times. Mas entenda que nunca mais estaremos juntos.

PARA A MINHA FAXINEIRA, CANTANDO TANTO.

24 jun

A noite de quinta-feira antecede o gozo da sexta. Na noite de quinta-feira eu sou o último instante prestes a. Em vinte e quatro horas teremos o maior tesão da semana: tesão do fim de uma sexta-feira. dois passos na porta do infinito. Ser proletariado é um vício perigoso demais para quem preferiu duvidar de tudo isso. eu não quero passar um weekend com você.

Elis Regina canta “Tatuagem” em algum youtube escondido atrás do word. O mundo ficando mais leve conforme a sexta-feira vem. normal que na leveza se trabalhe com mais vontade. Se o nosso tesão for sempre proporcional à iminência do fim, é certo que estaremos fadados à solidão. tente acreditar que não, só  para ter algum motivo para continuar. Elis Regina sempre chega uma hora que grita além da conta. e irrita.

A casa está limpa. O vento na rua estava quente quando desci com a faxineira. Nossas intimidade se resumem a esses tres lances de escadas e um “não conte para ninguém” antes de dizer adeus. Se deus quiser na semana que vem estarei lavando suas cuecas, seus copos, seu vaso. se deus quiser, semana que vem estarei aqui. se deus quiser vou repetir o que eu sou. o que eu sou na sua frente eu não sou dentro de casa. Semana que vem estarei aqui. levando seu lixo para longe de ti. semana que vem estarei aqui.

Eu só queria ter a privacidade das moscas, a invisibilidade das putas e a confiança das empregadas.

ENSAIO SOBRE A FRIEIRA

23 jun

Se acendo todas as luzes da casa, é só para fingir que ainda é dia. Respeitar o relógio biológico, nessa época do ano, nesse lado do mundo, é só deixar as luzes acesas por mais tempo. A lei da compensação precisar ser aplicada também à luz. Demora até aceitar que escureceu, e que é preciso lidar com isso. Não foi à toa que decidi passar a época mais fria do ano no ponto mais distante da minha casa. Se tivesse vindo esperando sorrisos, teria vindo inconsciente da estação. É tempo de caras fechadas, vacas magras e homens tristes. Nunca temerás o bastante até sentir nos ossos tremendo a realidade do frio.

O segredo para ser ouvido é sempre falar o mínimo possível. Talvez seja na falta que se adquira a dimensão mais precisa do tido. Ter, também é não ter, e esse blogue não é o diário de um abstêmio. Quando paraísos artificiais torna-se a manutenção de um estado de vida é preciso tentar dizer não. Só tentar. Inverno é coletar segredos. Recolher-se onde você mais temeria habitar.

Na plataforma fria do um metrô às sete e meia da manhã eu só tento aceitar que a felicidade que me habita não deve ser mais fraca do que o cisco que me corta o olho. Eu só não queria ter que tirar as luvas.

Tenho pensado muito sobre os espaços. Mais do que isso, tenho vivido a redefinição de todos os espaços. Como não encaixar-se, voltar para casa demora muito tempo até se tornar um hábito. Geheimnis. Mais do que sempre voltar para casa, voltaremos sempre sozinhos. Coloque-se aí mais um degrau rumo ao abissal.

Enfrentar a cidade sem amigos é aceitar a vulnerabilidade ao risco de habitar. Estar aqui não foi nada fácil. Não esperemos que aqui tudo continue igual. Morrer. Para morrer de novo. Para morrer de novo. A passividade quase mórbida das crianças do nosso antigo quarteirão é um sinal claro demais de que alguma coisa está faltando.