Arquivo | abril, 2010

CHAT ROULETTE/GAVIÃO/BOAVIAGEM

29 abr

É bem estranha a possibilidade de você atravessar uma madrugada inteira conectado ao chat roulette. O site é um cassino de possibilidades. A roleta russa de um casamento. Ninguém disse que você não pode se apaixonar pela janelinha acima da sua. É estranho e embaraçador quando ambos passaram mais tempo se observando do que seria natural à velocidade do site. Chat roulette é a possibilidade de um passeio pela cidade no meio da madrugada. Em algum lugar do mundo o sol estará entrando pela janela ao fundo e em algum lugar do mundo o sol, do outro lado do mundo, talvez agora reflita em você. Estamos sempre procurando algo que ainda não temos. Ou apenas fugindo daquilo que já temos. Os momentos que antecedem uma viagem sozinho são bem mais tensos. Tudo entre nós pode ficar perigosamente reduzido à preparação para o afastamento. Um lulaby eterno de dois meses. Um chat roulette vinte e quatro horas por dia na vida de cada um de nós.

Dia desses tava eu e minha velha batendo um papo. Um dos nossos papos de quinta-feira, quando meu pai tem “futebol” até às cinco da manhã. Entre um copo de cerveja e um intervalo de novela, ela comentou que as vizinhas do reike acreditavam piamente que o dia agora tem apenas 16 horas. No meio de uma conversa entre as cercas do jardim, minha velha reclamou para a vizinha do reike: “nossa, mas o dia nem parece que tem 24 horas!
– mas não tem mesmo Darlene! O dia agora só tem 16 horas. Você ainda não sabia? Tooodo o mundo sabe disso. Até os cientistas!”.
A vizinha tinha tanta certeza que minha mãe não podia nem cogitar contrariala. A vizinha do reike foi quem salvou minha mãe da morte quando ela precisou parar de fumar.

Ontem de noite passou Saliva no Consolação e eu fui ver. No “bate papo com o diretor Esmir Filho”, dois meninos de dezessete anos saíram no meio. Estavam acompanhados de uma mulher mais velha. Um deles vestia a camiseta do Corintians. O outro boné. Justifiquei a saída como tres freqüentadores do SESC que haviam caído naquela sala por acaso e não tinham nada a ver com o tal “bate papo com o diretor esmir filho”. O SESC aqui em são Paulo costuma juntar muita gente diferente e isso é legal. Todos olharam quando os três saíram porque a sala era pequena e ruidosa.

O SESC Consolação tem o cheiro de São Paulo, foi lá que “Eu, Federico Garcia Lorca, que….” e assim prosseguia um texto quase impronunciável que dava titulo à primeira e única peça que fiz com tesao do início ao fim. O que veio depois foi um pause. Um standby eterno até ofeoddm.

Os dois meninos corintianos, acompanhados da mulher mais velha, pararam na minha frente e, falando baixinho, entregaram um calhamaço de papel. “O papel”, me explicava o com a camiseta do Corinthians ,“o papel é do meu amigo” e apontava para o outro menino que ria tímido quase olhando para o chão. O amigo extrovertido, gavião, prosseguia articulado com “a gente viu os famosos e os duendes da morte e se a gente soubesse que você estaria aqui também teríamos comprado o livro para ter um autografo. Isso aqui é um roteiro pro Esmir. Meu amigo ta nervoso mas ele queria muito entregar esse roteiro. A gente só vai embora agora porque a gente mora na Zona Norte. Zona Norte é bem longe”.

O filme já passou na Coréia, foi vendido até para o Japão, entra em cartaz na Itália nos próximos meses, o filme já viajou o caralho, mas nunca eu senti que ele foi tão longe como ontem de noite, na figura dos dois meninos da zona Norte com camiseta do Corinthians querendo entregar um roteiro de cinema para um jovem diretor de primeiro filme.

Ontem de noite, naquele mesmo SESC consolação, no mesmo terceiro andar, na mesma sala onde há treze anos atrás eu fiz o teste para entrar na única peça que me deu tesao de fazer do começo até o fim, dois meninos eram eu, descobrindo a cidade, as vergonhas e as vontades. Os corintianos são sempre os mais legais. deviam ter me falado antes.

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28 abr

Acordar nem sempre significa tomar um copo de café. Há dias em que tudo demora um pouco mais para acontecer. Acordo e passo um tempo navegando por sites que eu sei que não são bons. Antes de escovar os dentes. Antes de pensar em comer. Antes de bater punheta no chuveiro. Eu abro o meu computador. Ontem de noite comprei o livro que me foi sugerido. Ontem de noite, a primeira musica que eu consegui tocar foi Blowing in the Wind e eu meio que me senti o Suplicy. Por ser de noite, prestei menos atenção à textura da pele da minha mão. Havia passado o começo da noite lendo em um café. As garçonetes discutiam e eu dividia uma parte de mim ao livro, sobre a técnica de escrever roteiros para cinema, e outra parte de mim à troca de farpas entre as garçonetes daquele café perto da Paulista. Na mesa, quando cheguei, tres jovens atrizes encerravam uma reunião de trabalho. conversamos um pouco. É sempre bom estar perto da jovialidade das jovens atrizes. O horizonte inteiro cabe na empolgação dos seus olhares. Coisa que bem sabemos ser o mais raro tipo de olhar. Quando te sugeri que amadurecesse, eu não podia imaginar que nosso sofrimento tomaria essa dimensão.
Hoje abri minhas pastas de cd’s para procurar o stonewall celebration, do Renato. Queria ouvir a sua versão para Joni Mitchell, Blue. E para o Leonard Cohen, Hey That’s no way to say goodbye. É louco, mas eu conheci essas musicas primeiro na voz do Renato Russo. Talvez a medida do nosso tempo seja o ano em que ouvimos, pensando ser pela primeira vez, canções antigas na voz de jovens artistas. Às vezes eu acho que, no fundo, vivemos apenas uma grande corrida à procura do mais nostálgico. É tudo sobre o que passou e devia ter sido diferente.

a primeira música que consegui tocar inteira no violão foi hoje e foi blowing in the wind. em uma versão só minha. estou feliz.

27 abr

LIKE A GLOVE IN YOUR HAND – sobre fetiches em dias de inverno.

27 abr

Eu disse para ela que no dia em que ela aprendesse tres acordes básicos, destruiria com o mito carinhas de violão debaixo do braço. Tocar violão é jogar vídeo-game. Ainda bem que perdi pouco tempo com vídeo games, do contrario teria me arrependido não ter gasto o tempo perdido com violão. Mas ela sabe a regra básica: garotos legais tocam violão e garotos malas jogam vídeo game. Os que não tocam violão e não jogam vídeo game, fazem parte de uma espécie de limbo dentro do mundo masculino, apenas esperando pelo próximo passo: o momento final da escolha que te colocará no time dos que jogam vídeo game ou no time dos que tocam violão.
Hoje, no meio dessa tarde, tirando Blowing in the Wind do violão azul que eu e Alexis compramos em Buenos Aires, percebi que a pele da minha mão não brilha mais tanto assim. Pela primeira vez cogitei usar luvas de borracha para lavar louça. Agora entendo as luvas de borracha na pia dos mais velhos. As mãos serão sempre as primeiras a nos entregar. Há muito mais fetiche nos meses de inverno do que nos dias de verão.

SOBRE GRITOS NOS TRILHOS DO METRO ANTES DE UM BAQUE SURDO. SAO PAULO. SEGUNDA. NADA ACONTECEU.

26 abr

Nas segundas eu produzo. Sou o proletário de mim mesmo. Em todas as segundas, sempre existirá uma forma de acreditar nas coisas que fomos feitos para acreditar. A segunda é o fio de linho feito corrente no pé do elefante. Às segundas o meu cérebro deveria, simplesmente, conseguir voltar ao seu tamanho antigo. Sempre tive medo de sofrer de uma doença em que o cérebro não parasse de crescer até que, não cabendo mais dentro do crânio, pressionado contra os ossos duros da cabeça, se esfacelasse em uma hemorragia interna infinita que só terminaria quando não existisse mais nenhum neurônio sobrevivente do sangramento eterno. Então eu deixaria de ser eu. “Eu não vou existir mais”, ela me disse olhando para as veias azuis do próprio braço. Os que não temem a morte vivem menos. Os que vislumbram o fim, todas as segundas, sabem que o meio é só um curto espaço entre dois nadas. Viemos do nada e para o nada caminhamos – repita cem vezes, todas as segundas, até vir a ser. Só então se sentirá viva.

“Essa moda camisa xadrez e bigodão do papai não passa de uma grande propaganda de clínicas de maternidade” eu disse naquela mesa, naquela tarde, naquela segunda-feira, no final daquele verão. Uma nuvem rangeu de raiva no céu e eu pensei em explicar nas segundas-feiras eu tinha uma forte tendência a dizer verdades. Colocou a mochila nas costas e foi embora. Eu sei que vai ser foda suportar uma velhice sozinha, mas ela vai agüentar. Foi ela que decorou e depois tocou no violão todas as letras que falavam de mudança. Foi ela quem decorou as cinco primeiras páginas de “on the road”.

Eu sei que o pior medo que existe é o medo das coisas que desejamos, mas às vezes é um pouco mais perigoso chamar pelo que talvez não dê pra aguentar.

“Be carefull of what you wish, a culpa é toda minha” – a mensagem no visor do meu celular. Eu só queria que ela conseguisse não pensar mais em mim.

SOU UM ESCRITOR INTIMISTA POPULAR” – REVELA ESMAIL AO REPÓRTER

22 abr

A primeira vez que vi Pulp Fiction foi no cinema do shopping de Lajeado. Acho que 95, 96… não lembro o ano que Pulp Fiction foi lançado no Brasil, mas lembro desse filme passando no cineminha de Lajeado. Fui sozinho, dirigindo o carro do meu pai sem ter carta de motorista. Sem nem sonhar que existia um cara chamado Quentin Tarantino. Só fui ver o filme porque gostei do cartaz. Naquela época dava. Não sei se hoje ainda daria. Não sei se hoje ainda é normal. Na sessão daquela noite, a sala estava longe de ser cheia, mas tinha público. Vi um funcionário do meu pai, sentado perto de mim, com uma mulher. Ele não me cumprimentou. Lembro que, no meio do filme, os dois saíram reclamando da sala escura.
Ontem eu revi Pulp Fiction. Não no cineminha de Lajeado. Ontem, revendo Pulp Fiction, entendi um pouco mais a cidade onde cresci.

A CORDA QUE AGORA FALTA NO MEU VIOLÃO

21 abr

Não sei quantos dias da minha vida eu ainda vou ter que perder, tentando te explicar que o tempo, para nós que vivemos mais devagar, não corre na mesma velocidade que o seu. Quando o tempo cobra, minhas costas doem, interrompendo o fluxo de sangue para o cérebro. É um saco. Dói e me deixa irritado. Infelizmente vivemos tempos assim, em que o transito dos planetas nos deixa um pouco fora da freqüência mais confortável. Eu só não queria que, para cada regra estabelecida, o potencial de prazer causado pela transgressão fosse tão grande. Eu só não queria estar tão acostumado a fazer as coisas erradas e achar normal. Eu só não queria depender do ilícito para continuar sendo eu.

Não sei porque eu sempre te conto sobre as canções que estão tocando aqui. Talvez você seja a única pessoa que realmente se importa com os meus discos. Na vitrola toca o disco de sempre. Ele arrebentou a última corda do meu violão e eu não posso dizer que não fiquei triste como uma criança e um brinquedo quebrado na noite de Natal. Engoli uma lágrima e fingi que tava tudo bem. Amanhã comprarei cordas na Teodoro e caminharei pelas ruas onde vivia quando só. Estava faltando um motivo para voltar.