Arquivo | março, 2010
29 mar

Para que servem as mobilizações coletivas do tipo Hora do Planeta? Para mostrar que, se a gente quiser, a gente consegue? Na real eu acho que a única coisa que as pessoas se puxam para fazer de verdade é posar de bonzinho na foto do jornal. Os noticiários vendem a promessa de propagandear a bondade humana e as pessoas se puxam afu para darem conta do recado. Aqui em Lajeado quase ninguém comentou sobre a Hora do Planeta. Na festa onde eu estava tinha uma jacuzzi com os jatos de hidromassagem todos ligados sem ninguém tomando banho. As luzes coloridas iluminavam as ondas que não paravam de se formar dentro da imensa banheira, mas ninguém observava o discreto espetáculo. Um globo girava na sala, a musica estava alta, a televisão gigante projetava um show de rock, mas naquela hora todos ainda estavam empenhados em acotovelarem-se em volta da churrasqueira. Era sábado à noite em uma pequena cidade no extremo sul do Brasil. Aqui é um pouco mais complicado vender livros de auto ajuda porque os mais velhos não sabem ler. Minha avó nunca aprendeu a ler. É analfabeta. O mundo é bem irônico. Sou a segunda geração alfabetizada da minha família e escrevo livros. O Brasil é mesmo a terra das oportunidades.

26 mar

Gosto muito de escrever em lugares públicos e gosto mais ainda de encontrar lugares diferentes para escrever. Faz pouco tempo que voltei para o Brasil e aqui é um pouco complicado encontrar o silêncio ruidoso necessário para a construção de um bom texto. É mais difícil mergulhar em mim mesmo, aqui, no conhecido. Há motivo para eu estar tão irritado.
Quando consigo estar longe, em lugares onde a minha língua não é, mergulho no oceano de vozes sem significado algum. Escrever em um café holandês, alemão, ou mesmo uruguaio, me traz o conforto exato da solidão coletiva. Por mais que na mesa ao lado três mulheres falem sem parar, o significado de suas frases não chega óbvio aos meus ouvidos e meu texto não é influenciado por assuntos decodificados. Quanto mais estranha a língua, mais familiarizado comigo mesmo consigo estar. Por isso gosto de ler em vagões de trem cruzando continentes, em aviões atravessando países distantes que vão do desconhecido para o nunca ido. Escrever no Brasil é um constante exercício de surdez. Não há o mar de vozes pronunciando frases que nunca serão conhecidas. Assuntos que só significam pelo volume da voz, pela quantidade de agudos e graves que compõe cada partitura. Estar no Brasil é sempre escrever ao som de música ruim e às vezes nem Sigur Ros gritando no meu headphone é capaz de esconder o som estridente de uma cantora brasileira que insiste em apegar-se ao samba apenas para parecer moderna. Nem Cat Power nem Cat Stevens são o gosto comum aqui, como é o gosto de onde gosto de estar. Estar no Brasil é entender tudo o que é dito. É dizer sempre mais do que o necessário para poder me esconder. Give me a ticket to anywhere far from here que eu te dou um livro de presente. Um livro melhor do que esse que escrevo a duras penas, vencendo ruídos, nessa parte estranhamente familiar do mundo. Hoje faz 23 graus em Berlim. Um lugar de onde nunca deveria ter saído.

24 mar

Estar sóbrio é muito mais do que um estado de espírito, é uma conquista diária, ela me disse quando decidimos pedir mais uma garrafa ao garçom que, àquela hora da madrugada, falava ao celular enquanto fumava do outro lado do balcão. Do outro lado da parede de vidro o mar continuava arrebentando suas ondas contra a areia e ninguém estava lá para ver o que acontecia. Ela deixou cair o rosto sobre uma das mãos, e com a outra fumou longa e profundamente. A brasa brilhou de um jeito mais bonito do que o normal (tudo nela era mais bonito do que o normal) e nós lamentamos que, em São Paulo, quase tudo é proibido. Foi naquela noite que decidimos alugar uma casa naquela praia e passar um tempo indeterminado longe do mundo. Ela prometeu que terminaria o livro nunca começado e eu prometi que aprenderia a tocar baixo.
Quando saímos do bar nossas pernas precisaram de muito mais atenção do que quando chegamos. Lamentamos a leveza de não estar sóbrio e cogitamos uma vida sem alcool simplesmente para rir do impossível. A sabedoria é dos que aceitam. A sorte é dos que sabem se alimentar com a dose certa de carboidratos e dos que não se esquecessem de tomar bastante água antes de dormir. No caminho até o hotel ousamos a arrancar a placa de “aluga-se” pregada na janela de uma casa enferrujada. Acumulamos vestígios, provas que, no dia seguinte, serviriam para não nos deixar voltar atrás. Retornar ao ponto da sobriedade implica perder a viagem, retroceder as distancias avançadas durante a noite.
A angustia é sempre dos que tem para onde voltar.

15 mar

Ouvir loas eufóricas sobre a minha questão vital banaliza o cerne da minha questão, e é por isso que prefiro ficar só. Existem coisas que você falou, e que talvez você nunca conseguirá dimensionar o impacto sobre mim. Algumas vezes a voz que saiu da sua boca era a minha fala e eu achei feio me ver tão inteiro dentro de outra pessoa. ver o meu inteiro transformado em frases de efeito para surpreender velhos desconhecidos. o que me assusta agora, na cidade onde estou, é essa quantidade gigantesca de clones da mesma espécie. Por isso preciso ficar só.

O silicone, aqui, é uma moda muito mais difundida entre as mulheres com mais de cinqüenta anos. Como um escudo que as protege do primeiro impacto da velhice, cobrem seus peitos para que alguém continue acreditando em algo que elas mesmas já desistiram de acreditar.

2 mar

Ando meio sem nada para escrever por aqui. meio sem motivos para continuar tendo um blogue. mas sei lá, penso que quinze leitores diários talvez seja melhor do que nada então, de tempos em tempos, me arrasto até esse espaço para tentar encher alguma lingüiça com o que sobrou da minha vontade de escrever. Nunca escrevi tanto e só agora entendo como a exaustão pode desencadear um novo surto produtivo. Escrever é exatamente como correr. Chega uma hora em que nos sentimos na janela do ônibus. E aí que tudo começa a ficar divertido. Quando deixamos de ser o ônibus, para ser o olhar. Ou quando encontro uma posição de conforto dentro de mim mesmo. é tudo sobre relaxar. Let it go lullaby.