não, apesar do frio, não engordei um grama

13 fev

Os dias aqui chegam ao fim e eu não me sinto bem em voltar para casa. eu não tenho uma casa para voltar. Não tenho nenhum lugar onde sentir que sou eu. As ruas seguem congeladas como nunca estiveram em nenhum fevereiro há muitos anos. Alguns reclamam do frio, ele realmente é agressivo, mas eu gosto. A neve batendo no rosto, o vento cortando os ouvidos, o ar que vem da Rússia e incide diretamente sobre Berlin. Tudo faz sentido quando estamos abertos à qualquer possibilidade.
Os dias chegam ao fim e eu gosto de passar a tarde de sábado sentado nesse café. o café que vim quase todos os dias dessa viagem para escrever. Para observar as pessoas trabalhando. Para quase ser amigo dos atendentes. Há uma mágica secreta nas rotinas que estão fadadas a ter um final. Todas as rotinas estão fadadas a chegar ao fim, mas algumas tem data marcada para acontecer. Berlin, logo, será apenas lembrança, e eu me permito sentir saudade do que poderia ter sido se eu decidisse ficar. Perder os aviões. Esquecer que há um mundo na America do sul. A America do sul nunca foi tão pequena e insignificante como é agora, na tarde desse café.
Berlin é a cidade das separações. Dos rompimentos. Das cicatrizes. Não foi à toa que escolhi esse lugar para deixar de ser nós. A individualidade nunca pode ser aniquilada em nome de um bem comum simplesmente porque o bem comum depende de indivíduos satisfeitos consigo próprios, antes de mais nada. Quando cheguei, incomodou-me a forma como algumas pessoas pareciam querer, quase desesperadamente, adaptar-se às regras e, ainda mais, a forma como algumas pessoas esperavam que eu me adaptasse às suas regras. Superar expectativas nunca fez parte do meu plano de viagem e foi só por isso que o choro alheio não me comoveu. Nem os gritos chamando por mim me fizeram voltar. A neve oculta os sons mais agressivos e meus pés caminhando sozinhos na volta para casa foram muito mais harmônicos, bonitos e interessantes do que os ruídos espalhafatosos de qualquer orquestra alemã. Aos poucos fui esquecendo de ligar o ipod para me concentrar na profusão de linguagens que tomam conta do metrô quando o dia chega ao fim.
Não conheci todos os museus. Não quis. Não freqüentei todas as festas. Limitei-me a familiarizar-me com cenas que escolhi. Com pistas onde me encontrei. Não assisti ao repertório de nenhum teatro. Limitei-me a representar dentro de quatro paredes um repertório de gestos visando a manutenção de uma paz coletiva, quando comum. No palco do volksbühne os atores gritam e pretendem ser livres. Não preciso de uma catarse que não seja a minha. Chorar na primeira semana do ano para sorrir nos meses seguintes foi o suficiente para que eu me descolasse do que fui. Do que esperavam que eu seria. Eu nunca tive medo do meu choro, nem nunca estive preso a nada. Nem ninguém. Nem a projetos alheios. Muito menos a sonhos coletivos.
A proporção do afeto recebido foi exatamente igual ao afeto destinado. E, talvez pela primeira vez, eu só beijei o rosto de quem me deu valor sem precisar ouvir Gal Costa todos os dias. Trouxe os discos para saber escutar o silêncio. Tampouco me arrependo do peso que terei de levar de volta.

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Uma resposta to “não, apesar do frio, não engordei um grama”

  1. laura 2010/02/16 às 6:59 pm #

    pronto. agora nem a america latina serve? o q dirá esse cu de cidade… esse post? meu niver. cada vez mais véia apodreço por aqui.
    auf Wiedersehen,liebe!- lê com sotaque de Olarias…

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