2 fev

O primeiro choque daquela realidade foi quando vi uma raposa no campo congelado. Eu havia tido uma noite intensa demais com meus personagens, precisava de um descanso apos uma hora e meia de sono. tinha que estar às 06 e 50 no ubahnof. Pelo site bvg.de, eu teria que estar na senefelderplaz às 06:02 da manhã. teria que acordar às 05:30, calculei. O primeiro probleminha veio quando me dei conta de que não tinha despertador. Estava desperto, bebendo weißbeer e escrevendo, que acabei nem saindo à noite. Meu plano original era pegar uma festa com a bagagem, sair meio bêbado direto para a estação e ir dormindo até Amsterdam. E foda-se a paisagem. O que aconteceu foi que eu não fui na festa pq o flyer eletrônico que tinham me passado era de 2009. Mais looser impossível. Resultado foi que, de copo de weißbeer em copo de weißbeer fui conversando mais e mais com meus duendezinhos, que lá pelas tantas quebaladoquê.
Tres e meia da manhã eu já estava nocauteado. Calculei 05:30 como um horário razoável para acordar. só que eu não tinha despertador. Nem celular. Estava sozinho em casa e, como sou o único que não tem celular, fiquei sem despertador. Cogitei várias possibilidades, até te pedir que me ligasse às 05:30 do outro lado do país. Bem lá em cima. Razoável e criativo, lembrei do timer que tem na cozinha e que eu nunca usei para nada. Inútil quando se trabalha unicamente com intuição. E quando o silêncio é o preço mais caro a ser pago simplesmente pq é também o mais precioso. Peguei o timer apertei-apertei-apertei e qdo chegou no 99 minutos, voltou para o zero. Pelo menos eu tinha certeza de que eu só teria 99 e minutos de sono corrido. Sei lá que cálculos que fiz, mas eu tinha que acordar às 05:30 da manhã. não sei qual foi a lógica do meu raciocínio, mas talvez, naquela hora, eu só não havia me dado conta de que perder um trem equivale a perder o direito de viajar. Sua passagem JAMAIS será reembolsada. Se o estado te respeita você precisa respeitar o estado. Se o nosso trem parte às 06:58 da estação, é perfeitamente possível calcular através do site o horário exato a se pegar o primeiro trem na estação mais próxima do seu endereço. Se até o trajeto a pé é calculado com precisão, então se dê ao mínimo de calcular seu despertador e cumprir com as SUAS obrigações.
Lá pelas tantas tava eu naquela moleza e me liguei de que nossa como estou de boa nessa cama. Nem parece que fui dormir há tão pouco tempo e lararirara QUE HORAS SAO??? 05:48. Ta, daí foi aquela correria pq eu tinha calculado os minutos no timer mas não tinha apertado um botão embaixo escrito “start”. Levantei da cama e era uma vez a idéia de fazer a barba. Escovei os dentes meio que correndo e uma hora me dei conta de que devia acelerar. Aí eu acelerei aquilo que eu estava fazendo. Não lembro exatamente o que era. Mas acelerei.
Depois eu estava correndo a kolwitzstraßeaburguesiafede e entrando no senefelderplaz e voando pra praça do Alexandre e acertando todas as anotações. Pela primeira vez eu tinha um moleskine com anotações de viagem. Tipo moleskine falsificado. Me senti meio gente grande fazendo coisa de criança. Anotei bonitinho tudo e, acho que só por anotar e me programar antes, deu tudo perfeito. No caminho eu agradeci ao meu deus da organização que é aquele que me faz sempre acordar na hora certa. Se deus sou eu eu posso tudo. Até mesmo me adaptar organicamente à regras estrangeiras. Às mais restritas regras estrangeiras. Perder 100 euros se eu perdesse aquele trem. Se eu perdesse aquele trem eu estaria fodido, mas eu ainda não sabia disso.
Brasileirinho, cheguei às 05:17 na estação. Brasileirinho ou chega irracionalmente antes, ou chega atrasado. A regra da pontualidade implica um pouco mais de confiança na organização da cidade. não sei até quando vou esperar o próximo vacilo para apontar uma semelhança. Brasileirinho, congelei na estação e chequei com duas pessoas se eu estava na plataforma certa, por mais que as telas planas anunciassem em nítido e bom alemão que eu estava na plataforma certa, bastava checar os numerozinhos escritos na minha passagem. À minha volta, todas as pessoas carregavam pares de esquis embaixo dos braços. TODAS. Famílias inteiras, grupos de amigos adolescentes homens, duas amigas de 30 que talvez fossem namoradas ou que talvez estivessem juntas à procura de homem. Tudo pode ser reduzido à mera banalidade se for visto com preconceito. Crianças e seus mini-esquis. Todos protegidos do frio, não tremiam o queixo brasileirinho. Só eu. Meu queixo, e a barba que não consegui fazer porque acordei atrasado. Mas acordei.
Trem aquela coisa normal. Todos sorrindo. Dois negros quebrando a harmonia do olhar do careca duas poltronas na minha frente. O marcador do meu livro era um panfleto anti-nazi que ganhei numa passeata. Não tinha energia para ler àquela hora da manhã. queria ficar acordado para ver um pouco da natureza glacial. Também não quis ouvir fone de ouvido (que só tinha cat Power, cat Stevens e Neil Young – o que já está me entediando, devo confessar). As vozes das pessoas exalando a esperada cordialidade germânica. Perfumes de bem estar. Famílias rumo aos Alpes. Uma gorda fedendo a alcool entrou com o marido cabeludo com um cachorro fedido e todo o mundo fez cara de nojo sem precisar torcer o nariz. Soltei um peido porque sempre relaxo no preconceito. Foi assim que cresci. A hostilidade tem um doce cheiro de volta ao lar, então eu peido como se estivesse embaixo do meu cobertor. Fechei os olhos e fiquei ouvindo as conversas em alemão. Captando frases. Reconhecendo assuntos. Sendo arrombado de nostalgia quando algumas interjeições vinham carregadas da voz da minha tia de Linha Bastos ou do meu primo de Marques de Souza, o Pastel, que morreu eletrocutado ninguém sabe como. Pirações da colônia que todo o mundo acha normal. É meio assim que me sinto aqui. Familiar a ponto de peidar no trem.

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