Arquivo | fevereiro, 2010

bate estaca do inferno

21 fev

Algumas coisas são simplesmente complexas demais. O desejo. Encontrar o olho do desejo. Aqui nessa cidade onde estou, cada homem faz questão de manter a sua ancora social para continuar constante. Duas malas carregadas de tudo o que não é feito de luz. Em algumas pessoas, os efeitos do inverno despertam em si o pior que a própria alma pode conter. É triste estar perto do outro lado quando o muro ainda está lá.

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kollwitzstraße 52

18 fev

Logo terei que ir para a última sessão do filme aqui em Berlim. Tenho recebido muitos sorrisos, de muitas pessoas diferentes, interessadas na vida que se leva longe daqui. Quando, no ober, na weinerei, no wong, me me perguntam de onde eu sou, respondo sem titubear: I’m from São Paulo. As pessoas aqui me perguntam com bastante freqüência de onde eu venho. Nunca pensei que pudesse ser tão exótico. Há sorriso nos olhos do atendente do buteco suíço quase embaixo do meu apartamento. O mundo, longe, é só mais um dos muitos lugares possíveis. basta que se abra um olho. Ou que se escolha uma rua que nunca se escolheu para fazer apenas o mesmo caminho. Há dias em que a única finalidade é se perder, e nesses dias eu me encontro. Deixo de ser dois, para ser só um. Pode ser tanto esticar um novelo de lã sobre a neve, fazer rituais pagãos nos parques congelados de pankow, ou dividir a mesma bratwurst sem vergonha nenhuma de estar gostando. talvez eu sempre tenha tido medo de te dizer coisas bonitas simplesmente por medo de perder alguma coisa que talvez nem exista. Porque é tão complicado acreditar que no fundo de nós mesmos existe algo além de nós. Toca bob Dylan. o disco que você comprou para o natal. Talvez esse seja meu último texto. Talvez o seu último presente. Talvez nunca mais eu consiga anoitecer sozinho nesse apartamento da kollwizstrasse. Mas se existe só uma coisa que me enojou, em todo esse inverno alemão, foi o fedorzinho de burguesia que entrava com o vento sempre que ousei abrir a janela.

packing back to the sun.

17 fev

Quando nos despedimos hoje na Alexanderplaz não sabíamos mais como nos encontraríamos novamente. Nem se nos encontraríamos novamente e foi só por isso que nossos olhares embaraçaram-se demais na hora de dizer adeus. No trajeto até o cinema eu calculei mentalmente por quanto tempos fomos tres. A cidade vai ficando para trás quando as despedidas não tem mais uma data marcada para se reencontrar. Eu gosto de viver com os menores planos possíveis e só estamos perto quando há iminência da perda. Estar a um passo da perda equivale a reafirmar o compromisso de quando nos conhecemos: os dias acontecem sempre um de cada vez. E um de cada vez, todos os dias juntos, formarão um tipo suportável de convivência. Porque estar perto de você é sempre melhor do que estar sozinho. Às vezes amor pode ser só pegar na sua mão quando você sente medo. Aquecer seu coração quando a noite está fria demais. Chorar sem ter vergonha. Talvez esse seja só um post para eu te fazer entender o quanto eu gosto de você. As partidas são sempre muito mais simbólicas do que as chegadas. Deve ser por isso que estou aprendendo a odiar Berlim. Só agora entendo essa frase que li no blogue de um cara que conheci aqui em Berlim. A cidade que estou aprendendo a odiar é a cidade que preciso deixar para trás. Não sei viajar sem vontade, por isso estou catalogando-me para levar o máximo de mim mesmo de volta para casa. eu sei que precisaria comprar presentes para provar o quanto lembrei deles. Não comprei nenhum ainda. Lembro tanto e o tempo todo das pessoas que amo, que se fosse comprar tudo o que me lembrasse deles, eu teria que carregar metade da cidade no excesso de bagagem. Nem sempre associo presente a amor. Tenho medo dos presentes caros demais, por exemplo. Não entendo porque o valor de um gesto precisa ser medido pelo valor monetário. Maquetes de histórias e ansiedades diante do vazio. Duas afinidades perfeitamente ajustáveis. Voltar para casa implica reconhecer a própria língua. Os próprios gestos. O jeito de ser olhado. Por isso tem sido bom encontrar tantos brasileiros nesses últimos dias de Berlim. Ou não. E tudo o que eu sei é que um dia vou morar aqui no verão. mas depois vou logo embora. não vejo a hora de tomar sol deitado na sala de casa. olhando o abacateiro brilhando debaixo da luz. Time to Pack, time to Pack. I don’t wish it was not.

não, apesar do frio, não engordei um grama

13 fev

Os dias aqui chegam ao fim e eu não me sinto bem em voltar para casa. eu não tenho uma casa para voltar. Não tenho nenhum lugar onde sentir que sou eu. As ruas seguem congeladas como nunca estiveram em nenhum fevereiro há muitos anos. Alguns reclamam do frio, ele realmente é agressivo, mas eu gosto. A neve batendo no rosto, o vento cortando os ouvidos, o ar que vem da Rússia e incide diretamente sobre Berlin. Tudo faz sentido quando estamos abertos à qualquer possibilidade.
Os dias chegam ao fim e eu gosto de passar a tarde de sábado sentado nesse café. o café que vim quase todos os dias dessa viagem para escrever. Para observar as pessoas trabalhando. Para quase ser amigo dos atendentes. Há uma mágica secreta nas rotinas que estão fadadas a ter um final. Todas as rotinas estão fadadas a chegar ao fim, mas algumas tem data marcada para acontecer. Berlin, logo, será apenas lembrança, e eu me permito sentir saudade do que poderia ter sido se eu decidisse ficar. Perder os aviões. Esquecer que há um mundo na America do sul. A America do sul nunca foi tão pequena e insignificante como é agora, na tarde desse café.
Berlin é a cidade das separações. Dos rompimentos. Das cicatrizes. Não foi à toa que escolhi esse lugar para deixar de ser nós. A individualidade nunca pode ser aniquilada em nome de um bem comum simplesmente porque o bem comum depende de indivíduos satisfeitos consigo próprios, antes de mais nada. Quando cheguei, incomodou-me a forma como algumas pessoas pareciam querer, quase desesperadamente, adaptar-se às regras e, ainda mais, a forma como algumas pessoas esperavam que eu me adaptasse às suas regras. Superar expectativas nunca fez parte do meu plano de viagem e foi só por isso que o choro alheio não me comoveu. Nem os gritos chamando por mim me fizeram voltar. A neve oculta os sons mais agressivos e meus pés caminhando sozinhos na volta para casa foram muito mais harmônicos, bonitos e interessantes do que os ruídos espalhafatosos de qualquer orquestra alemã. Aos poucos fui esquecendo de ligar o ipod para me concentrar na profusão de linguagens que tomam conta do metrô quando o dia chega ao fim.
Não conheci todos os museus. Não quis. Não freqüentei todas as festas. Limitei-me a familiarizar-me com cenas que escolhi. Com pistas onde me encontrei. Não assisti ao repertório de nenhum teatro. Limitei-me a representar dentro de quatro paredes um repertório de gestos visando a manutenção de uma paz coletiva, quando comum. No palco do volksbühne os atores gritam e pretendem ser livres. Não preciso de uma catarse que não seja a minha. Chorar na primeira semana do ano para sorrir nos meses seguintes foi o suficiente para que eu me descolasse do que fui. Do que esperavam que eu seria. Eu nunca tive medo do meu choro, nem nunca estive preso a nada. Nem ninguém. Nem a projetos alheios. Muito menos a sonhos coletivos.
A proporção do afeto recebido foi exatamente igual ao afeto destinado. E, talvez pela primeira vez, eu só beijei o rosto de quem me deu valor sem precisar ouvir Gal Costa todos os dias. Trouxe os discos para saber escutar o silêncio. Tampouco me arrependo do peso que terei de levar de volta.

2 fev

O primeiro choque daquela realidade foi quando vi uma raposa no campo congelado. Eu havia tido uma noite intensa demais com meus personagens, precisava de um descanso apos uma hora e meia de sono. tinha que estar às 06 e 50 no ubahnof. Pelo site bvg.de, eu teria que estar na senefelderplaz às 06:02 da manhã. teria que acordar às 05:30, calculei. O primeiro probleminha veio quando me dei conta de que não tinha despertador. Estava desperto, bebendo weißbeer e escrevendo, que acabei nem saindo à noite. Meu plano original era pegar uma festa com a bagagem, sair meio bêbado direto para a estação e ir dormindo até Amsterdam. E foda-se a paisagem. O que aconteceu foi que eu não fui na festa pq o flyer eletrônico que tinham me passado era de 2009. Mais looser impossível. Resultado foi que, de copo de weißbeer em copo de weißbeer fui conversando mais e mais com meus duendezinhos, que lá pelas tantas quebaladoquê.
Tres e meia da manhã eu já estava nocauteado. Calculei 05:30 como um horário razoável para acordar. só que eu não tinha despertador. Nem celular. Estava sozinho em casa e, como sou o único que não tem celular, fiquei sem despertador. Cogitei várias possibilidades, até te pedir que me ligasse às 05:30 do outro lado do país. Bem lá em cima. Razoável e criativo, lembrei do timer que tem na cozinha e que eu nunca usei para nada. Inútil quando se trabalha unicamente com intuição. E quando o silêncio é o preço mais caro a ser pago simplesmente pq é também o mais precioso. Peguei o timer apertei-apertei-apertei e qdo chegou no 99 minutos, voltou para o zero. Pelo menos eu tinha certeza de que eu só teria 99 e minutos de sono corrido. Sei lá que cálculos que fiz, mas eu tinha que acordar às 05:30 da manhã. não sei qual foi a lógica do meu raciocínio, mas talvez, naquela hora, eu só não havia me dado conta de que perder um trem equivale a perder o direito de viajar. Sua passagem JAMAIS será reembolsada. Se o estado te respeita você precisa respeitar o estado. Se o nosso trem parte às 06:58 da estação, é perfeitamente possível calcular através do site o horário exato a se pegar o primeiro trem na estação mais próxima do seu endereço. Se até o trajeto a pé é calculado com precisão, então se dê ao mínimo de calcular seu despertador e cumprir com as SUAS obrigações.
Lá pelas tantas tava eu naquela moleza e me liguei de que nossa como estou de boa nessa cama. Nem parece que fui dormir há tão pouco tempo e lararirara QUE HORAS SAO??? 05:48. Ta, daí foi aquela correria pq eu tinha calculado os minutos no timer mas não tinha apertado um botão embaixo escrito “start”. Levantei da cama e era uma vez a idéia de fazer a barba. Escovei os dentes meio que correndo e uma hora me dei conta de que devia acelerar. Aí eu acelerei aquilo que eu estava fazendo. Não lembro exatamente o que era. Mas acelerei.
Depois eu estava correndo a kolwitzstraßeaburguesiafede e entrando no senefelderplaz e voando pra praça do Alexandre e acertando todas as anotações. Pela primeira vez eu tinha um moleskine com anotações de viagem. Tipo moleskine falsificado. Me senti meio gente grande fazendo coisa de criança. Anotei bonitinho tudo e, acho que só por anotar e me programar antes, deu tudo perfeito. No caminho eu agradeci ao meu deus da organização que é aquele que me faz sempre acordar na hora certa. Se deus sou eu eu posso tudo. Até mesmo me adaptar organicamente à regras estrangeiras. Às mais restritas regras estrangeiras. Perder 100 euros se eu perdesse aquele trem. Se eu perdesse aquele trem eu estaria fodido, mas eu ainda não sabia disso.
Brasileirinho, cheguei às 05:17 na estação. Brasileirinho ou chega irracionalmente antes, ou chega atrasado. A regra da pontualidade implica um pouco mais de confiança na organização da cidade. não sei até quando vou esperar o próximo vacilo para apontar uma semelhança. Brasileirinho, congelei na estação e chequei com duas pessoas se eu estava na plataforma certa, por mais que as telas planas anunciassem em nítido e bom alemão que eu estava na plataforma certa, bastava checar os numerozinhos escritos na minha passagem. À minha volta, todas as pessoas carregavam pares de esquis embaixo dos braços. TODAS. Famílias inteiras, grupos de amigos adolescentes homens, duas amigas de 30 que talvez fossem namoradas ou que talvez estivessem juntas à procura de homem. Tudo pode ser reduzido à mera banalidade se for visto com preconceito. Crianças e seus mini-esquis. Todos protegidos do frio, não tremiam o queixo brasileirinho. Só eu. Meu queixo, e a barba que não consegui fazer porque acordei atrasado. Mas acordei.
Trem aquela coisa normal. Todos sorrindo. Dois negros quebrando a harmonia do olhar do careca duas poltronas na minha frente. O marcador do meu livro era um panfleto anti-nazi que ganhei numa passeata. Não tinha energia para ler àquela hora da manhã. queria ficar acordado para ver um pouco da natureza glacial. Também não quis ouvir fone de ouvido (que só tinha cat Power, cat Stevens e Neil Young – o que já está me entediando, devo confessar). As vozes das pessoas exalando a esperada cordialidade germânica. Perfumes de bem estar. Famílias rumo aos Alpes. Uma gorda fedendo a alcool entrou com o marido cabeludo com um cachorro fedido e todo o mundo fez cara de nojo sem precisar torcer o nariz. Soltei um peido porque sempre relaxo no preconceito. Foi assim que cresci. A hostilidade tem um doce cheiro de volta ao lar, então eu peido como se estivesse embaixo do meu cobertor. Fechei os olhos e fiquei ouvindo as conversas em alemão. Captando frases. Reconhecendo assuntos. Sendo arrombado de nostalgia quando algumas interjeições vinham carregadas da voz da minha tia de Linha Bastos ou do meu primo de Marques de Souza, o Pastel, que morreu eletrocutado ninguém sabe como. Pirações da colônia que todo o mundo acha normal. É meio assim que me sinto aqui. Familiar a ponto de peidar no trem.