Arquivo | dezembro, 2009
24 dez

As pessoas às vezes falam, olham para você, mas não te reconhecem. As pessoas às vezes contam segredos difíceis demais para suportar. É como se eu já tivesse passado férias com meus pais aqui, tamanha a naturalidade com que caminho pela vila. É claro que tudo na vila me diverte, especialmente os galhos secos das arvores riscando o céu. Viver nessa parte da cidade, por vezes, me deixa um pouco receoso. Estamos na Berlin oriental, e eu acho que, na época do muro, deve ter sido difícil demais para as pessoas que viveram nesse apartamento. Elas estavam muito perto do muro e certamente foram elas as que mais foram partidas ao meio. É impossível estar aqui e não sentir esse tipo estranho de tristeza pairando no ar. Não à toa, metade de toda a população foi embora depois que o muro caiu. O impacto da reaproximação pode ser tão doloroso quanto a separação. Atravessar a rua pode ser um trajeto perigoso demais se, em todas as voltas da quitanda, você lembrar que a cicatriz desenhada no chão é o lugar exato onde, um dia, o seu mundo terminou.
Não sei porque, mas ultimamente o mundo tem me dado alguns sinais claros para que eu me deprima. Algumas pessoas me olham como se eu tivesse que me acalmar, como essa felicidade com a qual eu tento conviver não combinasse muito comigo. Assim como os berlinenses antigos sentem falta do muro dividindo a cidade, também meus amigos de tempos atrás não conseguem compreender o que foi que eu fiz com minhas feridas. Eu não conto simplesmente pq consegui esquecer. Talvez seja eu quem não se acostuma à própria felicidade e culpo em meus amigos a incapacidade de mudança que ostento em mim. mas o mais difícil é ver o mundo de um outro jeito e continuar vivendo com as mesmas pessoas. Perder amigos é inevitável, mas todos poderiam fazer um mínimo de esforço para evitar o pior. Difícil é conservar relacionamentos quando já mergulhamos em um outro tipo de existência.
Vou confessar, somente para você, mas aqui, basta ter um mínimo de senso histórico, para que se acredite em energia. Aqui existe muita energia negativa. A cidade exibe as cicatrizes mais fortes retalhando nossas caras todos os dias. Todos os dias, cruzar a rua pode significar o eco de uma maldade ressoando nos ouvidos daqueles que, ainda, não estão surdos. A consciência sobre o mal torna as pessoas melhores na medida em que ele, o mal, se torna palpável. Aqui o mal tem nome e sobrenome: muro de Berlim. O resto é cordialidade entre cidadãos.

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23 dez

sempre que o frio insuporta, penso no bowie. nada aquece mais que o glam.

22 dez

da necessidade de ser redundante

22 dez

É sempre um pouco estranho abrir os olhos e ver o dia branco do outro lado do vidro da janela, por isso sempre peço para você levantar as cortinas quando acorda. Você sempre acorda antes de mim. quando abro os olhos é porque você já toca um disco na sala e quando abro os olhos a neve sobre as arvores secas é a cidade natal onde não precisei nascer para estar de volta. Hoje acordei com aquele disco que o Caetano gravou no exílio. “woke up this morning singing an old Beatles song”. Você trabalhava no escritório e o dia era cinza feito de galhos menos 10 graus. Aqui dentro sempre estamos nos 25 e nossa casa é um buraco quente sua vagina molhada esperando por mim. geheimnis. Deve ser por isso que tenho tanto medo de um dia falar a sua língua. Sei que, no dia em que o segredo não habitar mais a voz de todas as pessoas, terei que morar aqui para sempre. Até morrer.
Sonhei que eu vinha com meu avô para a Alemanha. E ele morreu quando eu estava aqui. ele morreu no Brasil, mas eu estava na terra onde ele nasceu. Então, não foi preciso olhar para o rosto dele dentro do caixão. Nem chorar sobre um tule cheio de flores mortas. Nem abraçar minha mãe. eu estava onde ele.
Hoje minha mãe me mandou um email. Primeiras noticias da família desde que cheguei. Eles nunca sentiram a minha falta é tão melhor assim.
O apartamento é muito maior do que eu preciso para viver. As janelas do tamanho do pé direito. Cinco metros acima das nossas cabeças. Prenzlauerberg sempre que abro a porta para a rua. hoje as ruas estavam congeladas. A neve, um colchão macio, deu lugar ao tapete de gelo e eu não posso contar quantas vezes minhas botas quase me fizeram cair no chão. Tres quadras longe da minha casa, as botas eram todas molhadas e meus dedos todos congelados. Entrei na american appareil e comprei um par de meias. Entrei no café. o melhor café de Berlim e pedi um Gross cofe mit milch. Subi as escadas, abri o computador, tirei as botas, coloquei meias quentes e passei a tarde escrevendo sobre a praia brasileira. Sobre o sol brasileiro. Sobre tudo o que não era do outro lado da janela: trilhos de trem e o resto da neve da noite passada. E o silencio germânico. Não há nada melhor do que, finalmente, estar em casa.

21 dez

Eu queria poder falar sobre a loira do segundo grau, mas eu estou tão longe dela… aqui onde estou agora o mundo neva, a calçada brilha e eu não sabia que a neve tem esse poder maluco de fazer todas as pessoas se transformarem, subitamente, em crianças. estar em Berlim é como voltar para casa e eu, que pensava sentir saudade do verão, encontro um calor muito forte quando os termômetros do país marcam quinze graus negativos na capital do mundo.
Viajar é não precisar de nada para estar longe de si, perto de um íntimo eu. Fui comer em um lugar muito louco nessa primeira noite de vida longe de onde um dia fui. Entre os muitos lugares loucos que tem aqui, hoje fui em um onde tu paga dois euros por um copo e pode encher esse copo de vinho quantas vezes quiser. Sobre o balcão encontram-se rótulos variados e pode beber de todos. O quanto quiser mesmo. Tu também pode comer tudo o que a casa oferece. Entrada, prato principal, salada, sobremesa… e a conta?
Tem um jarro de vidro sobre o balcão. Lá tu deixa o quanto acha que valeu a noite.
Quando a cidade te respeita tu respeita a cidade.

a loira do segundo grau – 4

19 dez

Ficamos sentados na pracinha do São Cri. Eu e a loira. A praça do São Cri era o único lugar da cidade aonde as arvores ainda eram um pouco maiores do que as pessoas e onde os fumadores de cigarro não corriam o risco de serem confundidos com os fumadores de crack. Na parte alta da cidade, uma das poucas aonde ainda ventava, estávamos livres da realidade. Ela deitou no jacaré e eu apoiei um dos pés perto dos pés dela. Com esse pé, fiquei balançando o seu corpo pra lá e pra cá, até ela fechar os olhos. Tragou o cigarro e, só quando a brasa ficou bem vermelha e bem viva, foi que ela exalou tentando, desesperadamente ,fazer pelo menos um anel de fumaça. Meio irritada, olhou para a minha perna balançando o brinquedo onde ela estava deitada. “Até que para um baixinho tu tem as pernas bem fortes” e naquela hora eu devia ter perguntado o quê exatamente ela queria dizer com isso. Naquela época eu ainda não sabia que “o que você quer dizer com isso?” era a melhor maneira de evitar mal-entendidos. Fumei e tossi como se fosse a primeira vez. Só então parei de empurrá-la. Ela fechou os olhos, jogou a ponta do cigarro perto das moitas de ibisco, e reclamou que queria fumar mais. Notei que em um dos all-star ela tinha assinado o nome do lado da assinatura das suas duas melhores amigas. Aqueles tres nomes formavam o triangulo da beleza do segundo grau da fates, na época em que a fates tinha segundo grau e ainda não se chamava univates. Sabrina e Cassandra, eram os dois nomes que, junto do dela, formavam o casting ideal do filme dos meus sonhos.
– tu já pensou em ser atriz?
A loira abriu os olhos, olhou para a copa das árvores por onde o sol fazia dançar pequeninas moedas de ouro em seu rosto, e “só se eu fosse bonita”. Eu devia ter falado que ela era bonita, mas não falei nada. Naquela época eu já sabia seduzir, mas ainda não dominava a pratica.

sobre a loira do segundo grau – 3

18 dez

Quando cheguei na porta do quarto deles, os barulhos estranhos já não existiam mais. bati e foi minha mãe quem, fingindo dormir, disse para eu entrar. Acho que eles não estavam fazendo nada de mais, porque, quando entrei, tudo estava aparentemente normal. Muito mais normal do que eu esperava que estivesse. Eu sempre espero muito mais emoção do que o mundo tem para oferecer. Meu pai roncava com a boca aberta, a cadela esticada no meio da cama, na parte onde eu dormia quando era criança, e minha mãe sentada e reclamando que não conseguia dormir com aquele calor. Apertava as mãos em volta da cabeça e olhava para o chão. Fiquei um tempo parado perto da porta sem saber o que dizer. Aí ela continuou falando e perguntou se aquela guria loira era minha namoradinha. Quando ela falou namoradinha eu fiquei com raiva dela. meu pai continuava roncando e o sol quente da uma hora da tarde continuava entrando pelas frestas da janela fechada. O ventilador pendurado no teto só servia para fazer um barulho irritantemente continuo. Minha mãe virou o rosto e sorriu me chamando pra perto dela. Quando cheguei perto dela, ela deu um beijo na minha barriga e o pescoço raspou no meu pinto e deu medo de que ele ficasse duro naquela hora. Foi um beijo sem nenhum motivo. Talvez só por ciúmes da loira do segundo ano. Quando ela tirou a boca, a minha barriga ficou molhada do suor do rosto dela eu disse que não tava namorando ninguém e ela perguntou se eu queria dinheiro. Disse que sim. Ela pegou a carteira do meu pai e tirou uma nota de dez reais.
Quando cheguei na cozinha a loira estava lavando a louça. eu disse que não precisava e repeti o que minha mãe já tinha dito
– nós temos empregada.
– Eu sei tua mãe já disse.
– Ela me deu dez reais.
– E daí?
– Vamos no cachorrão comprar cigarro. A gente fuma na rua.
– Não. Os vizinhos vão me ver.
– A gente se esconde.
– Onde?
– Sei lá. na praça do são cri.
– Ta.
Ela terminou de enxaguar o prato, o garfo, a faca e o copo que ela usou enquanto explicava que era um jeito de pagar pela comida.
Quando saímos de casa o sol estava muito mais quente do que eu imaginei que estaria e me vi obrigado a comentar sobre o tempo. Ela não disse nada. Atravessamos a avenida e o asfalto estava prestes a derreter. Ela disse que queria sentar em uma sombra pq estava com medo de desmaiar. É claro que eu dei risada porque não existe sombra em lajeado. Só no cachorrão, embaixo da cobertura de zinco.
– mas lá é quente demais.

O cara do cachorrão não quis vender cigarro para a gente. Eu disse que era para o meu pai.

– teu pai não fuma guri.

A loira ficou indignada e disse que meu pai fumava e que, alem de fumar, ele deixava que eu também fumasse e o cara do cachorrão fez uma cara de “estou entendendo o que você quer dizer e posso denunciar essa família para o conselho tutelar” e eu disse que era mentira dela e ela ficou bem puta comigo. Começou a me chamar de mentiroso baixinho na frente de todo o mundo. Todo o mundo era um casal mudo e uma criança que não parava de chorar e três pedreiros que fumavam e bebiam um litrão de Fruki Cola. Quando meu olhar cruzou com o olhar deles, o mais novo dos pedreiros pegou o maço e ofereceu um cigarro e a loira pediu dois, um para mim e outro para ela, e ele disse que tudo bem. Para agradecer, ela mandou eu comprar dois isqueiros. Escolheu um rosa e um verde e deu o rosa para o pedreiro e o verde ela guardou no bolso. Saímos andando na direção da praça falando mal do cara do cachorrão e jurando nunca mais voltar lá.