Arquivo | dezembro, 2009
30 dez

Aqui nesse café os macintoshes aglomeram-se. A tarde começou com um latte machiatto. A tarde sempre começa com um latte machiatto e quando a tarde começa eu sempre tento ser controlável. ainda não sou nelo johann para ser eu eu mesmo quando acordo, mas um dia eu chego lá. por mais sozinho que eu possa estar no dia em que me tornar nelo johann. Lentamente vou esquecendo do frio, da neve, dos vinte minutos de caminhada que separam nosso apartamento desse café na esquina da Torstraße com uma outra rua que nunca lembro o nome. nomes em alemão são difíceis de memorizar. Na outra esquina que compõe esse cruzamento, há um hostel e deve ser por isso que esse café concentra tantos jovens de tantas partes diferentes do mundo. Todos dividem mesas com desconhecidos e todos carregam seus macbooks. Alguns editam canções, outros viajam no facebook, alguns escrevem, trabalham no photopshop ou projetam construções. Uma infinidade de mundos converge nesse café e aqui, cada mesa, cada headphone, cada laptop é um mundo de possibilidades que bastaria olhar ao lado para deixar de ser individual. A minha existência grita para não ser solitária, mas todos estão surdos pelos seus fones de ouvido gritando canções que servem apenas para protegê-los em sua egoísta e também gritante intimidade. No meu ouvido toca o podcast do Fabian Casas, o malelemento, e quando ele fala, com seu sotaque portenho, a cerveja alemã adquire imediatamente o gosto do rock maldito das calles e das folhas secas de plátano cobrindo o chão de outono e eu volto para uma Buenos Aires que nunca será fria o bastante para me fazer sentir longe de casa. aqui faz frio e eu tenho medo de não agüentar o tempo que me foi proposto passar aqui. eu sempre fujo da Alemanha, mas dessa vez prometo para mim mesmo que agüentarei até o fim. Aqui dentro sempre faz calor e a primeira coisa que preciso fazer quando chego no café é me livrar das luvas, do cachecol, do gorro peruano que seu pai trouxe do Chile e do casaco que ela me emprestou. Guardo o ipod que invariavelmente toca Cat Stevens, Paul Simon e Neil Young. Invariavelmente não posso não pensar em nova Iorque nos anos setenta invernais enquanto atravesso essa pequena Berlim burguesa onde passamos os dias de verão brasileiro. Eu sei que aí vocês sufocam de calor e eu, de vez em quando, me permito não querer estar aqui. hoje o sol estava um pouco dourado e nevava. A arvore que vejo da minha cama parecia uma escultura branca e você teve pena da arvore e você, no calor da nossa cama, permitiu sentir pena do frio que a arvore sentia. Eu tentei te explicar que ela estava dormindo, que não sentia nada, mas você disse que ela dormia para não sofrer. Todos dormimos para não sofrer.

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30 dez

neva. e nunca foi tão bonito.

27 dez

27 dez

Bar numero 1
Toca Fever Ray. Já faz tres musicas que estou aqui e ninguém veio me atender. A música anterior a essa trancou algumas vezes e ninguém pulou a faixa. A cabine do DJ, um palco improvisado, está vazia, assim como o balcão que consigo enxergar de canto de olho. Duas mesas estão ocupadas, e todos vestem preto. Não, eles não são darks, apenas buscam um jeito de se tornar invisíveis, parte de um todo que não existe.
Eu ainda não sabia, nem você, que no efeito dominó em que se transformou a lógica da nossa existência, cada peça que ousamos derrubar desmonta toda uma cadeia de acontecimentos planejados. Outra coisa que preciso muito confessar é que eu estou um pouco cansado de racionalizar todas as coisas que acontecem comigo. Geheimnis, acho que só você é capaz de saber sobre o que estou falando. Sempre que me estendo demais, acabo penetrando tão fundo em mim mesmo e eu sinto que preciso voltar cada vez menos à superfície. Meus pulmões estão se acostumando à escassez de oxigênio e os olhos não precisam mais tanto de sol para continuarem ardendo. Me sinto vivo aqui, do lado de baixo. Ontem à noite, enquanto esperávamos pelo trem, você insinuou que talvez os maias tivessem se transformado em peixes abissais e eu achei tão bonito isso. O profundo pode ser o grau máximo da evolução, mas é Movimento o deus que rege o nosso mundo.
Eu queria te dizer que o sol que faz aqui é lindo, parece aquela capa do disco do bob Dylan que eu nunca lembro do nome. ele e a mulher caminhando em uma rua dourada de uma cidade que poderia ser essa em que estou agora. mãe, é tão estranho isso de, em todos os sentidos, você se colocar dentro de um filme. Não foi à toa que eu aprendi a gostar de cinema. Não sei se ele é a minha asa ou se ele só me ensinou a voar, é complicado precisar o começo das necessidades e o final de um sonho. Eles estão por perto, então eu preciso te confessar baixinho que viver com eles é sempre ter uma certeza estranha sobre quase tudo. tudo eles já viram, de tudo eles se lembram e, no meio de tanta historia individual brigando para ser ouvida, eu tento só construir uma cidade que seja apenas minha. Não mãe, eu não quero voltar aos lugares onde um dia estive. Eu não preciso encontrar partes de mim em lugares onde morri. Não padeço dessa mórbida adição.
Ninguem veio me atender, mas a garçonete limpou uma mesa de onde ninguem havia se levantado, perto do sofá onde estou, e eu fiz sinal com a mão chamando por ela.
– it’s selfservice, if you’r waiting for me, u’r waiting in vain.

Levantei e fui até o balcão.
– sorry, it’s a long time that it’s selfservice?
– Since I work here…
– Sorry, I didn’t know that. I always come here, but I haven’t noticed that. My friends are the ones whos ask for the beer…
– Wow. So you’ve thaught your beer was like… something that came from nowhere.
– Ya. Well, I was wondering… I’d like a strong beer, not translucid, but strong
– Sorry, I donno nothing about beers. Don;t you remember the name?
– No, it was a german name and german names are hard to memorize.
– Well… there are more difficult languages… but since you live here…
– I don’t live here.
– Where do you live?
– Brazil.
– Oh, wow. I’m not german too.
– Where are you from?
– I’m half ucranian, half polish.
– Nice.
– Do you preffer here or there?
– Of course there.
– But if you could choose borning again, would you choose Brazil even so?
– Of course!

Aí ela saiu e foi lavar os copos. Ela disse que se pudesse escolher uma segunda língua, escolheria português. Ela disse que estuda português.

– it’s like the language of the poesy. You know what I mean?
– Yeah. It’s like german for me, the language of the poesy.
– It;s more thant that.
– Yeah.
Ela devolveu o troco da minha cerveja e eu agradeci. Voltei para o sofá, abri o computador, e pensei comigo mesmo o que ela faria se imaginasse que eu sou um escritor que escreve em português.
Os dois clientes chineses já haviam saído e então o outra casal vestido de preto também se despediu dela. o cd chegou ao final e o lugar ficou absolutamente em silencio. Pelo silencio, imaginei que ela estivesse sozinha no bar e eu olhei em volta e estava só eu e eu pensei que ela talvez quisesse ir embora ou que ela talvez quisesse sair comigo ou dar para mim no sofá do bar onde ela trabalha. Ela saiu de trás do balcão, atravessou a pequena pista de dança onde as moedinhas de reflexos do globo girando riscavam o chão sujo e subiu no palquinho do DJ. Continuei digitando. Depois dei um susto nela.
– what time do you close?
– Until the last client.
– Since I’m the last client…
– It’s up to you.
– What time do you use do close at sundays?
– I never work in the evening.
– So… do you want me to go?
– Do we have 10 o’clock?
– No. Its seven!
– Oh.
– Let’s make a deal… when I finish the beer, I’ll leave.
– Let’s set an hour to leave. 8?
– Ok.
– Ok.
Desceu o pequeno palco e desapareceu atrás do balcão, me deixando sozinho com uma musica que eu não conhecia mas que parecia muito Cranberries.
Esse é só o primeiro bar, da minha primeira noite Berlinense. E, se antes eu queria, desesperadamente, uma cerveja, agora já estou bêbado.

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Bar numero 2
Este está mais cheio. É o bar que fica atrás de um cinema entre mitte e prenzlauerberg. Saí daquele outro e caminhei um pouco pelas ruas até encontrar novamente o café do pequeno cinema. O mesmo bar café onde entramos os tres juntos há poucos dias atrás. Entrei no bar da frente e todas as mesas estavam ocupadas por pessoas que, provavelmente, esperavam pelo próximo filme. Atravessei todos eles esperando que algum lugar, livre ou não, me convidasse a ficar. Nenhum me convidou e, quando acordei, já havia atravessado o pequeno salão e me dirigia agora à região dos banheiros. Escolhi alguns flyers para colagens que alguém irá fazer, talvez eu, e escolhi uma das duas portas. Não tem sido costume encontrar a indicação sexual na porta dos banheiros e eu não sei se aqui a moda do banheiro unisex já chegou até mesmo ao café do cinema. Nunca subestime a capacidade de transgressão dos berlinenses.
Deixei o bar café do cinema pelas portas dos fundos e caí em um pequeno pátio interno de onde, mais ao longe, vinham luzes coloridas e desbotadas. Um casal de meninas passou por mim correndo na direção das luzes e eu achei melhor segui-las.
Ainda mais para dentro do parque interno, várias portas fechadas, sombrias, indicavam portas de pequenas salas de cinema e teatros, de onde, de vez em quando, os ecos de uma cena um pouco mais animada escorregavam entre as frestas. O frio, no pátio interno dos edifícios, é bem mais ameno pois aqui não venta.
Esse texto que escrevo para você acabou de ser interrompido por um rapaz que bateu em meu ombro. Não sei se já te disse, mas estou escrevendo do balcão desse bar que entrei ao seguir o casal de meninas. O casal de meninas já desapareceu entre as muitas meninas desse bar onde toca musica techno. Escolhi o balcão pois todas as mesas estavam ocupadas. O cara que bateu no meu ombro estava rindo e “can I ask you a question?”
– sure.
– Are you an antropologist?
– Sorry?
– Are you an antropologist?
– Sorry… I don’t think I’ve understand…
– Are you an antropologis? Because I am. And I used to make the same as you… tiping in crowdy lesbian bars…
– No. I’m not.
– I thaught you were.
– No. I’m a writer.

Quando o cara saiu, carregando a beck’s gold que a mais jovem das tres balconistas lhe entregou, ele estava rindo e eu me achei meio ridículo por dizer que sou escritor. Os melhores escritores nutrem uma certa tendência a negarem-se como tal e eu fiquei meio que envergonhado diante da minha empolgada franqueza.

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bar numero 03
aqui são 21:35 e aí são 18:35. Aí o sol está bem alto nessa hora do dia. não pense que escolhi aleatoriamente a temporada para estar aqui. foi decidido desperdiçar os meses de mais sol. Foi intencional fugir de casa na temporada em que a casa atravessa o seu ápice. Os meses de sol no sul do Brasil sao os meses mas bonitos do ano e não foi à toa que decidi vir tão para longe de você. Nem foi à toa termos parado de nos procurar. Agora deve estar acontecendo uma salada de frutas regada a troca de livros na sua casa e eu não preciso estar aí para imaginar o quanto você se esforça para dar alguma sentido à própria existência. Se ainda nos falássemos, amanhã eu receberia um longo email seu. E nesse email você contaria sobre todas as expectativas que não fazem nenhuma questão de serem cumpridas. Você falaria sobre belezas e tristezas e tudo quando é contado por você atinge um grau de sinceridade que talvez eu prefira não conhecer. É complicado escutar o voz dos outros e, dada a complicação, posso preferir não tirar os meus dedos dos ouvidos.
Estou sentado em uma pista de dança de um bar chamado “yesterday”. A pista estaria vazia, não fossem as duas garotas que bebem um drink esquisito escoradas contra a parede com flores pintadas. Toca Ring my Bell. Sempre que paro de escrever, elas param de falar para olhar para mim e sorrirem. Berlim tem de tudo, menos escritores de pistas de bar e eu sempre encontro um jeito de nunca ser igual aos nativos do lugar. Esse é o terceiro bar da primeira noite e a terceira cerveja dessa noite de domingo. É bom escrever em lugares barulhentos quando a língua é estrangeira. Parece que estou em um musical germânico. Preciso confessar que nunca me senti tão latino. Nunca senti tanta necessidade de falar uma língua que um dia eu desprezei. A sabedoria sempre será dos mais velhos. Existir só faz sentido quando confirma ou destrói crenças ancestrais. É preciso sempre saber de onde se vem. Deve ser por isso que as pessoas gostam tanto de falar sobre o próprio passado. Estranho ninguém ainda ter vindo falar comigo.
Estou bêbado e cansado. Talvez seja melhor voltar para casa. ou fechar o computador.

26 dez

Sobre a delicia de atravessar madrugadas experimentando maravilhas desse continente

Às vezes as coisas apenas são um pouco mais simples do que elas parecem ser. É só viver cada momento exatamente como ele deve ser vivido. Tentando encontrar a real dimensão de cada instante e respeitá-lo como tal.
Ela, recortando todas as revistas de Berlim afim de criar um mundo somente seu, largou a tesoura, levantou de sua cadeira e veio até mim, alegando que “a gente veio até aqui só pra se jogar. cala a boca. curta o momento.” Eu levantei da minha mesa, cocei meu cabelo que acabei de cortar e que ficou horrível, fui até o som e troquei para “Air”, o ultimo deles, e levantei bastante o som. Bastante a ponto de fazer a criança acordar e vir bater na nossa porta. quando ele, menino educado, voltou para a sua cama, nos olhamos e pensamos: será que estamos preparados para ter mais um bebê? It’s all aboyut Love, eu esqueci de te dizer antes da brincadeira começar.
Um dia nós três ficamos parados no meio daquela praça cujo eu nunca sei e você sabe de cor. Ficamos parados, hipnotizados pela figura de dois contêiners empilhados onde pessoas trabalhavam como se em um escritório. Passamos um tempo procurando por explicações. O nome de uma empresa ou a assintaura de um artista. Limitamo-nos a fotografar, filmar, comentar pelos dois quarteirões seguintes. Antes que uma loja misteriosa de sapatos chamada Calypso e que é a loja da Andréa figurinista daqui há trinta anos. Ou nem. Ou a Lica, cansada, acampando no apartamento da Roseli. Basta olhar para fora da janela. Ser o homem alimentando os pássaros. Ser o seu sozinho no meio de tanta solidão. Desculpe se a natureza me atrai e me transforma. Mas eu não posso fingir que não existe sol. E nem por isso não encontrar um jeito de ser feliz. Estar perto é muito mais físico do que talvez sejamos capazes de suportar.
É tudo sobre olhar para o lado. Sair um pouco das próprias referencias para podermos, outra vez, mergulhar nelas. Quem será o primeiro a quebrar todos os discos?

25 dez

25 dez

ontem, um pouco depois da meia-noite, fui até a janela e fiquei observando a kollwitzstraße na noite de natal. não estava nevando. O apartamento estava quente, a música que tocava no radio da cozinha dessa Alemanha querendo cicatrizar-se era bonita, mas na rua eu vi um cara mais velho caminhando sozinho. Tentando se equilibrar na calçada escorregadia, congelada. Ele quase caiu antes de desaparecer do meu campo de visão. Notei que ele olhava em volta. Talvez procurando alguém. Talvez encantado com a possibilidade de, finalmente, estar só.