3 nov

Eu não sei qual é o limite do vício, mas sei do que me falta para estar completa. Aos poucos a ordem natural dos dias deve voltar ao seu curso natural. Minha mãe sempre diz que visita tem dois momentos bons: o momento da chegada, e o momento da partida. Minha mãe é uma mulher muito sábia. Eu não sei o que me leva a contar todas as mentiras da minha vida para uma pessoa que eu não conheço. O personagem mais fácil de executar é sempre para uma platéia de desconhecidos então eu finjo que não te conheço para me expor um pouco mais.
Ontem uma amiga me ligou para contar que começou a freqüentar um terreiro de candomblé e eu perguntei se ela tinha raspado a cabeça. Ela disse que ainda não, mas que secretamente ousava esperar por esse momento. Contei que eu estava passando pela mesma vontade louca de raspar os cabelos desde que havia visto um clipe da Sinead o’connor, mas ela não deu nenhuma importância. Continuou falando sobre o abraço apertado e quente da mãe de santo. De vez em quando eu emitia algum grunhido só para ela não se sentir muito sozinha. Olhava para o comprimento das minhas unhas, para o esmalte lentamente se afastando das cutículas e pensei que talvez eu devesse me cuidar um pouco mais. Eu sei que quando eu cuido da minha aparência toda a vida em volta de mim tende a melhorar. Quando estou bonita, as pessoas me escutam mais. Quanto mais atenção eu presto em mim mesma, mais as pessoas fazem o mesmo em relação a mim. É tudo uma questão de relatividade, tenho estudado sobre isso.
Desliguei o telefone e voltei para o escritório. Fingi que a linha havia caído. Não gosto de telefone sem fio porque a mobilidade do aparelho acaba fazendo com que eu passe mais tempo do que o necessário falando ao telefone e falar ao telefone nunca é necessário. Sentei na frente do computador e o telefone tocou na sala. Devia ser ela afim de continuar o monologo e eu estava decidida a não ser a platéia conhecida daquele personagem que não me interessava. O telefone insistiu tanto a ponto de me fazer voltar para a sala e enfrentar a continuação do texto sem fim. Era a minha mãe.
Minha mãe nunca me telefona no meio do dia e eu também não estava com muito saco para falar com ela. Não gosto de perder meus preciosos momentos de solidão falando com quem não me interessa. Ela ficou me perguntando sobre os meus dias, se estava tudo bem, se eu tinha saído no fim de semana. Respondia qualquer coisa enquanto arrancava pequenas lascas do esmalte do dedão. A voz da minha mãe era quase um mantra no qual eu não precisava prestar atenção para me acalmar. Bocejei e ela perguntou porque eu sempre bocejava quando falava ao telefone. Pedi desculpa e ela ficou um tempo em silêncio. Ficamos as duas escutando nossas respirações como um casal que espera a primeira palavra para voltar a se falar. Ela perguntou se eu já tinha dado o meu cu e eu comecei a rir. Acho que ela ficou com vergonha, porque não falou mais nada depois disso. Eu perguntei porque ela queria saber e um fiapo de voz respondeu do outro lado da linha, há mais de três mil quilômetros de distancia, que “não é nada não”. E desligou.
Passei um tempo ao lado do telefone desejando secretamente que ele tocasse de novo e que fosse ela me pedindo para confessar um segredo qualquer. Eu diria que já dei o cu, que já bebi porra e que gosto de usar calcinha vulgar e fingir que sou estuprada. Também poderia ser ainda mais franca e dizer que nunca faço nada disso com o meu marido, mas ela não ligou mais. Terminei de arrancar o esmalte de todas as unhas da mão esquerda e joguei para fora da janela as lascas vermelhas que haviam caído sobre a camiseta.

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Uma resposta to “”

  1. f. 2009/11/03 às 8:27 pm #

    é tão engraçado quando descobrimos por acaso que estamos vivendo, sem querer, no mesmo lugar….
    http://www.nadawannabe.blogspot.com

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