Arquivo | novembro, 2009

suddenly back

23 nov

Yesterday I tried to get out of here.  First, I took a small bag and filled it with all my stuff. I was really decided to start a new life, so, I took the less things possible. Toothbrush, checkered shirts and socks. No books, no mp3 player, no handy. Before leaving, I watched my room and something really close to repulse took possession of me. If I was a snake, the room would be my skin: good-for-nothing.

Walking alone in the cloudy streets of yesterday was something close to a new world becoming real as the distance became steps. When I found a square, I took the bench. Trees whispering secrets that I didn’t wanna hear. Two brothers and a dog called “Luna”. Happiness runs – would say Donnovan fifty years before now. The cover of  “Selling england by the Pound”, from Genesis, was me lost in my own lonelyness in that lost square, in that lost city, close to that old hospital where I’m laying now. Getting free is just the chorus of a song that I’ll never sing. “Welcome back” said the old smiling lady behind the reception desk. “Holly me” said my timorous eyes.

When I woke up this morning, for the first time, I wasn’t singing that old Beatle’s song. I was back and nobody would ever suspect that, yesterday, I’ve had the nerve to leave.

room.

 

 

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22 nov

What I’d like to explain to you is this something about this kind of feeling of not belonging to nothing. Not even to myself. Today is just a sunday afternoon and there’s no rain. Nor sun either. Nor the Kinks nor whatever.

In the social area they have this old phonograph and someone is there listening to an even older Paul Simon’s recording. It’ s beautiful. Brings me memories of everything that I’ve never lived. That I’ll never live. I feel like drinking and I drink. And right after the first swallow I wonder how many  followed days of drinking I’ve had until now. And I think about giving up and I know it’ll never happen to me. Bukowski smokes in the cover of the book and he’s old. He got there, after it all.

22 nov

Start writing in a foreign language is a little bit hard for me, but since the girl who works in this hospital asked me to write her about my feelings, I had to face it. The girl only speaks english, so I wanna do it for her. For someone who takes care of me. I donno when I’m gonna show her. I donno if I’m gonna show her, but I gotta start it.

Today is sunday. It’s a cloudy sunday in this city. Sometimes I go to the other room, the room where they have a window, and I stare there, watching the silent of the sunday in this city lost in the world. This is one of the biggest cities of the world, but from the only window, nothing seems to happen outside. So I stay here. Inside. With me. Writing to her. Or to you.

The last message that I got from her was a short email. She asked me to start a blog where we could be in contact. So, I took my dictionary and started it. In this room there’s no window. As I’m used to fall, I was obliged by myself to ask for a room without window. This is the only room without window and this is the only place where I can feel safe from myself. From my instincts.

There’s a lot of books in this room. Novels, the big majority. There’s a little collection of dvd’s. Artistic suicidal movies from the North of the world, where the light is always magic. Sometimes I lost myself in these films and I always find a way to die without leaving my life. It’s a good way to keep on living.

There’s two books on the table. The first bukowsky’s. The other book is some shit from Ali Smith. The only thing that I’ve put in the Green hospital wall is a big world map in front of my bed. Sometimes I get lost in your country, wondering where would we be if I were there. Or wondering in wich bed are you sleeping while I’m here, sleeping alone. I ask myself whose body is next to your. Or when, and if, you think about coming back. The world becomes smaller if you put a map next to you.

my feet in the corner of the street. vila madalena, são paulo, brasil

 

 

10 nov

Pensei em não te mandar nenhuma noticia, prometi para mim mesma não te escrever, mas aqui estou te mandando esse email doze horas depois de você ter partido. Não sei pq prometo coisas que não vou conseguir realizar. Prometi não beber e estou na segunda garrafa de cerveja, esperei não fumar e já enrolei o segundo cigarro. Chove nessa praia onde estou disposta a viver uma experiência tropical profunda e intensa. Meus pés são dois petit-pois de mordidas de mosquitos e agora já passa da meia-noite. O único barulho é o frigobar que acorda de tempos em tempos. Na televisão passam apenas quatro canais: rede Record, TV globo, polishop e Sport TV. Estava assistindo a um pouco de televisão, mas não conseguia entender tanta superficialidade em um único aparelho.

De tarde fui na farmácia. Comprei camisinhas e uma tesoura grande para cortar meus cabelos. É sempre preciso estar preparada para tudo. O cara que cuida dessa pousada mora aqui com a sua mulher e eles me olham com uma certa admiração tentando entender o que faz uma jovem escritora se interessar por esse vilarejo onde, segundo Marisa, nada acontece. O marido de Marisa sorri sempre que me vê entrar na pousada e eu não entendo como ela não percebe que aqui, tudo acontece. Estou na segunda cerveja, passa da meia-noite e minha barriga está um pouco inchada. Estava sem grana para comprar vinho. Gastei muito com a tesoura e camisinhas. Comprei muitas camisinhas. Jamais subestimo minha capacidade de conseguir prazer. Faço sempre o possível ao meu alcance.

À noite fiquei deitada na cama, fumando e vendo televisão. bateram na porta do meu quarto e eu demorei um pouco até conseguir me coordenar. Meu fumo está acabando e eu preciso economizar. De vez em quando penso no meu marido e me pergunto se eu deveria sentir alguma falta dele. nunca sei o que responder. Às nove ele me ligou para contar sobre o quanto estava feliz em saber que eu estava disposta a começar um romance aqui nessa praia. estava satisfeito por eu ter encontrado um lugar aonde a minha criatividade pudesse aflorar. Fez questão de me trazer, passar o fim de semana comigo e me deixar sozinha na segunda feira. Sou a única hospede dessa pousada e agora passa meia hora da meia noite de segunda para terça-feira. Tenho internet no quarto mas evito passar muito tempo conectada para valorizar a calma local e focar no texto do livro.

Hoje escrevi.

Quando ele foi embora eu pedi para trocar de quarto. queria um lugar que não tivesse o nosso cheiro para eu começar a ser eu. Ele saiu e eu fui me despedir no estacionamento da pousada, estava morrendo de vontade de cagar e não consegui me despedir direito. Subi a escadinha e caguei muito, muito mesmo. tudo o que havia ficado retido durante o fim de semana, deixou o meu corpo assim que fiquei sozinha. Durante o cocô pensei em fumar e lembrei que meu fumo estava dentro da minha mochila e que minha mochila estava dentro do carro dele e me limpei correndo e desci a escadinha e entrei na recepção e pedi para a dona Marisa me deixar ligar a cobrar para o meu marido pq ele havia levado algo importante. Liguei. Ele atendeu ao segundo toque. “minha mochila ficou no carro”.

–       ok, estou voltando.

–       Você está muito longe?

–       Não se preocupe. Estou voltando, um beijo.

Quando ele disse “estou voltando” com tanta certeza, tive um pouco de medo de que ele fosse querer ficar e passar a semana comigo. Parece que o mundo inteiro conspira para que eu não fique sozinha, mas eu sei que não é assim.

Ele voltou buzinando na rua e eu desci correndo a escadinha mais uma vez e ele entregou a mochila cantando uma musica. Não disse nada. Apenas cantava aquela musica italiana. Buzinou e foi embora cantando animado. Fiquei parada no meio da ruazinha de terra dessa praia selvagem observando o seu carro desaparecer na esquina. Senti um alivio quando o ronco do motor virou silencio e subi a escadinha de volta para o meu quarto. Abri a mochila, peguei o resto de um cigarro, coloquei dinheiro e isqueiro no bolso e saí para a beira do mar. Precisava estar sozinha com ele, o mar, antes de começar a escrever. Posso não ser escritora, mas respeito os meus rituais.

3 nov

Eu não sei qual é o limite do vício, mas sei do que me falta para estar completa. Aos poucos a ordem natural dos dias deve voltar ao seu curso natural. Minha mãe sempre diz que visita tem dois momentos bons: o momento da chegada, e o momento da partida. Minha mãe é uma mulher muito sábia. Eu não sei o que me leva a contar todas as mentiras da minha vida para uma pessoa que eu não conheço. O personagem mais fácil de executar é sempre para uma platéia de desconhecidos então eu finjo que não te conheço para me expor um pouco mais.
Ontem uma amiga me ligou para contar que começou a freqüentar um terreiro de candomblé e eu perguntei se ela tinha raspado a cabeça. Ela disse que ainda não, mas que secretamente ousava esperar por esse momento. Contei que eu estava passando pela mesma vontade louca de raspar os cabelos desde que havia visto um clipe da Sinead o’connor, mas ela não deu nenhuma importância. Continuou falando sobre o abraço apertado e quente da mãe de santo. De vez em quando eu emitia algum grunhido só para ela não se sentir muito sozinha. Olhava para o comprimento das minhas unhas, para o esmalte lentamente se afastando das cutículas e pensei que talvez eu devesse me cuidar um pouco mais. Eu sei que quando eu cuido da minha aparência toda a vida em volta de mim tende a melhorar. Quando estou bonita, as pessoas me escutam mais. Quanto mais atenção eu presto em mim mesma, mais as pessoas fazem o mesmo em relação a mim. É tudo uma questão de relatividade, tenho estudado sobre isso.
Desliguei o telefone e voltei para o escritório. Fingi que a linha havia caído. Não gosto de telefone sem fio porque a mobilidade do aparelho acaba fazendo com que eu passe mais tempo do que o necessário falando ao telefone e falar ao telefone nunca é necessário. Sentei na frente do computador e o telefone tocou na sala. Devia ser ela afim de continuar o monologo e eu estava decidida a não ser a platéia conhecida daquele personagem que não me interessava. O telefone insistiu tanto a ponto de me fazer voltar para a sala e enfrentar a continuação do texto sem fim. Era a minha mãe.
Minha mãe nunca me telefona no meio do dia e eu também não estava com muito saco para falar com ela. Não gosto de perder meus preciosos momentos de solidão falando com quem não me interessa. Ela ficou me perguntando sobre os meus dias, se estava tudo bem, se eu tinha saído no fim de semana. Respondia qualquer coisa enquanto arrancava pequenas lascas do esmalte do dedão. A voz da minha mãe era quase um mantra no qual eu não precisava prestar atenção para me acalmar. Bocejei e ela perguntou porque eu sempre bocejava quando falava ao telefone. Pedi desculpa e ela ficou um tempo em silêncio. Ficamos as duas escutando nossas respirações como um casal que espera a primeira palavra para voltar a se falar. Ela perguntou se eu já tinha dado o meu cu e eu comecei a rir. Acho que ela ficou com vergonha, porque não falou mais nada depois disso. Eu perguntei porque ela queria saber e um fiapo de voz respondeu do outro lado da linha, há mais de três mil quilômetros de distancia, que “não é nada não”. E desligou.
Passei um tempo ao lado do telefone desejando secretamente que ele tocasse de novo e que fosse ela me pedindo para confessar um segredo qualquer. Eu diria que já dei o cu, que já bebi porra e que gosto de usar calcinha vulgar e fingir que sou estuprada. Também poderia ser ainda mais franca e dizer que nunca faço nada disso com o meu marido, mas ela não ligou mais. Terminei de arrancar o esmalte de todas as unhas da mão esquerda e joguei para fora da janela as lascas vermelhas que haviam caído sobre a camiseta.