SOBRE OS PERIGOS DA AMNÉSIA HISTÓRICA E DOS CENSORES SEM ROSTO

24 nov

Telma Scherer é daquele tipo raro de escritores que ainda se autodenominam poetas. Em um mercado dominado pela “literatura” de auto ajuda e vampiros, Telma Scherer talvez seja a única que ousa levar as suas contas nunca pagas para maior Feira do Livro do Rio Grande do Sul, atar-se a uma casinha de cachorro e bravar: não alimente o artista. Enquanto se celebra o livro de sucesso, Telma Scherer invade o espaço público para mostrar que a vida íntima de um escritor é feita de dor, de descontrole e de medo.
Em seu blogue, dias antes da performance vir a público, Telma escreve: “Minha performance é uma crítica à visão reducionista da literatura, que transforma leitores em consumidores padronizados e valoriza apenas a compra e venda de produtos (os livros) sem abordar a questão central: seus conteúdos, a pressão que sobre estes exerce o sistema literário e a invisibilidade do processo criativo.”
A questão Telma Scherer vem em um momento em que se discute a possível volta de uma nova censura ao livre pensamento e à liberdade de expressão. Enquanto o pensamento lógico seria acreditar que, imediamente após um período violento de repressão, os filhos da ditadura viveriam um Estado mais permissivo, o que se constata através dos videos postados no youtube onde a escritora é covardemente posta dentro de uma viatura junto de quatro homens fardados em uma noite fria de Porto Alegre, é justamente o contrário. Os jovens policiais, provavelmente ignorando um passado recente de repressão, talvez não soubessem que repetiam a história ao tratar um artista como elemento nocivo à sociedade e que precisaria ser calado. À Telma, como se confere no vídeo, foi concedido o “direito de obedecer”. No mesmo vídeo, vemos a indignação de uma senhora, defendendo com gritos a jovem artista. Por ter vivido os anos de chumbo no Brasil, provavelmente aquela senhora conseguia ter alguma noção do perigo de se repetir os erros de um passado recente demais para já estar esquecido. E de se agir sem consciência social. Sobre os perigos de não se discernir entre o que é arte e o que é vandalismo. No vídeo do youtube vemos uma Telma Scherer calada por alguém que não se sabe o nome. Acusada por alguém que não se sabe quem é. Afinal de contas, quem foi que telefonou para a Polícia pedindo a intervenção da artista? Quem é o censor que não concorda com o ato de Telma?
Quantos crimes foram cometidos enquanto Telma Scherer era o alvo da autoridade? Enquanto dez policiais foram mobilizados para a captura da escritora gaúcha, quantos carros estavam sendo roubados nas ruas da cidade? Enquanto uma viatura e duas motocicletas eram usadas para conduzir uma intelectual até a DP, quantos assaltos foram cometidos sem que ninguém fizesse nada? Intriga, no vídeo do youtube, a ausência de qualquer representante da Feira do Livro disposto a defender a escritora da situação traumatica à qual era exposta, ou mesmo intermediar a “negociação” entre a artista e os (muitos) policiais. Não fosse o público lutando pela liberdade de Telma, acompanhando de perto e atentamente o procedimento policial, a escritora teria estado sozinha.
No encalço dos episódios, quando a Feira corre o risco de ser vista nacionalmente como um espaço de repressão, tentou se vincular o nome da poeta ao incentivo à bebida alcóolica. Em um país onde nunca se consumiu tanto alcool, onde nem mesmo se sabe se ainda existe ou não uma Lei Seca em dia de eleição presidencial, onde as propagandas de cerveja movimentam milhões, é de se estranhar que uma escritora seja condenada pelo consumo de bebida alcóolica em via pública. Que sociedade é essa que autoriza o embriagamento de todos, menos do artista? A exposição da realidade das contas não pagas e do álcool que suaviza a realidade da falta do dinheiro para pagá-las, é uma referência direta aos incontáveis escritores, mortos ou não, vítimas da falta de voz. A degradação do corpo (que Telma, corajosa, expôs publicamente) não é nada mais do que o interior angustiado de um artista aberto aos próprios leitores. Em crise com o mercado. Deslocado de si. A falta de perspectiva profissional beirando a loucura. O desespero do escritor que imprime sangue em seus versos, mas que nunca será recompensado por isso: ninguém pagará o seu aluguel. Ninguém comprará seus livros. Não alimente o artista. Esse escritor será “detido” pela polícia por atrapalhar o trânsito dos compradores de autojuda e dos vampiros erotizados. São esses os que interessam ao mercado livreiro. São esses os que podem pedir a interdição do artista da carne. São esses os que mantém a engrenagem tanto da Feira do Livro de Porto Alegre quanto das editoras mais lucrativas do país. O que Telma berra durante a sua captura pelos policiais gaúchos é a ferida aberta de uma escritora triste em não se ver refletida na felicidade propagandeada por uma indústria literária disposta a tudo para crescer.
Nessa busca desesperada pelo bem estar, cala-se um artista. Na preocupação com a circulação dos compradores, cala se um artista. No ato impensado de policiais sem consciência histórica, cala-se um artista. A censura de Telma Scherer é a censura contra todos os que ainda acreditam que a alegria não é o único remédio para as suas questões existenciais.

Ismael Caneppele, São Paulo, 17 de novembro de 2010.
(texto publicado no Caderno Cultura, do jornal Zero Hora de 20/11/10)

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