Eu não lembro quando foi a primeira vez que ele esqueceu de me olhar antes de fechar a porta e sair para o trabalho. No começo ele procurava por mim antes de sair e me dava um beijo na boca e eu podia sentir a barba machucando a pele fina envolta dos lábios. Pensava nas próximas oitos horas sozinha em casa e a possibilidade de eu desaparecer por completo era real. Os fios grossos e duros irritavam menos quando a iminência da solidão era presente. Ele pegava na minha cintura com um pouco de força para dizer que sentiria a minha falta. Eu fechava a porta para ter certeza de que havia mesmo saído.
O que sobrava era uma espécie de alivio misturada com euforia diante de mais um dia para eu ser livre.
Eu não lembro quando foi a primeira vez que ele esqueceu de olhar para mim antes de fechar a porta. Talvez eu tenha ficado parada, olhando para a madeira pintada de branco e tentando entender se era mesmo assim que as coisas deviam ser. Que as coisas seriam. Tateava o meu próprio corpo só para ter certeza de que eu havia mesmo me tornado invisível. O barulho dos sapatos desceu todos os degraus que compunham os três andares que nos separavam do chão. Parada no meio do tapete da sala eu era inteira um ouvido escutando cada ruído que ele fazia para dizer que estava mesmo indo embora, mas que voltaria para casa no final do expediente. O barulho da porta de metal do prédio batendo com força. A fechadura do portão que rangia quando era aberto e depois voltava a ranger ao ser fechado. Se prestasse bastante atenção e se a rua, por milagre, estivesse silenciosa, dava para entender o esganiçado fininho do terceiro portão: o choro contido de uma criança no primeiro dia de escola.
Quando a tarde avança tumultuada eu olho para o mapa do mundo colado na frente da minha mesa e traço rotas por onde eu poderia fugir de mim mesma. Quando a vontade de partir se torna insuportável, entro no Google Maps e escolho um ponto qualquer entre NYC e São Francisco. O mundo inteiro pode caber entre essas duas cidades. Nessas tardes de chuva e tédio ouso escolher um carro antigo e narrar as aventuras de uma viagem em um blogue secreto que ninguém pode saber que existe. Ultimamente tenho vagado pelas estradas do Texas enquanto ouço Townes Van Zandt nas pequeninas caixas de som do monitor. Em alguns pontos da estrada a quantidade de câmeras é tamanha que posso fazer rodopios de trezentos e sessenta graus sem perder nenhum frame de vida real. Abasteço o carro quando a distancia percorrida exigiria gasolina, entro em algum bar de beira de estrada quando sinto vontade de observar os caminhões estacionados sob o sol forte da periferia de Dallas e um dia tive coragem de oferecer carona a um desconhecido.
Às vezes eu esqueço de colocar a chave na porta do apartamento para que, caso ele volte sem avisar, eu não seja pega de surpresa fazendo o errado. Por mais que as coisas erradas que ouso fazer não sejam físicas, conservo um certo receio de ser pega no ato. Quando ofereci carona àquele rapaz em uma estrada do Colorado eu sentia que meu marido poderia voltar e descobrir quem eu era de verdade. O blogue, Google Maps, a minha solidão. É certo que eu voltaria correndo para o nosso apartamento, mas mesmo assim ele saberia, pelo ofegante da minha respiração, que até então eu não havia estado lá. Ele saberia pela tristeza do meu olhar que eu não devia ter saído do meu pequeno escritório onde eu e um outro ele, cruzávamos juntos os Estados Unidos da America nas páginas de um GoogleMaps.
Quando não tenho nada pra fazer, quase todos os dias da minha vida, passo um longo tempo pensando na sorte que eu tenho e enumero motivos para estar feliz. Olho em volto e vejo a casa que ele mantém e onde eu posso morar sem precisar pagar nenhuma das contas. Fico feliz por nunca ter sido pega fazendo coisa errada. Um dia eu me dei conta de que eu não fazia nada de errado, nada mesmo, e que mesmo a viagem pelos Estados Unidos eram só horas acumuladas em um site e nesse dia eu fiquei triste por ter, pela primeira vez, ousado duvidar de uma vida de aventuras que eu havia criado para mim. Quando ele decidia voltar para casa no meio da tarde, sempre ligava antes para avisar ou para saber se podia. Eu sempre ficava irritada, mas fingia que não. Fingia que era bom ser pega de surpresa pela presença física de um homem. Mesmo que esse homem fosse o meu. Eu era obrigada a abandonar o meu carro em algum estacionamento e memorizava a latitude e longitude exatas do ponto onde havia parado. Às vezes não dava tempo de encontrar um lugar seguro, então eu abandonava o Mustang conversível na beira de alguma rodovia. É certo que levantava suspeitas, mas naquele país distante bastava um clique no mouse para eu não mais existir.
A nossa casa era muito mais minha do que dele, por mais que sempre tenha sido ele o responsável pelas compras dos objetos novos, pela troca anual dos tapetes e pelo abastecimento constante dos armários. Eu entrava com o bom gosto e ele entrava com o dinheiro e aquela parecia uma troca bastante justa. Foi assim que construímos o nosso pequeno patrimônio: uma coleção de discos de jazz dos anos trinta, um faqueiro de prata espanhol e os dois óleos modernistas pendurados na sala. Era o que precisávamos para que pudéssemos continuar acreditando que havia valido à pena.
Agora a tarde está na metade dela mesma e hoje eu estou na metade da minha vida e eu não tenho nada para fazer. O Google Maps perdeu a graça quando eu perdi a vontade de oferecer carona para desconhecidos. Estar perto é muito mais físico do que as pessoas ousam acreditar. De vez em quando chega um email com pouco mais de duas linhas que a minha amiga de adolescência escreve lá de longe, no lugar onde ela mora e onde um dia eu também morei. Onde ela cria a filha e a filha dela é a menina mais bonita da pequena cidade. Às vezes eu também queria ter uma menina pequena e bonita para o meu tempo passar mais depressa e talvez valer à pena. As duas, a filha e a minha amiga, moram sozinhas numa casa e eu acho que elas devem ser felizes assim, sem um marido que volte no meio da tarde, sem um marido que pague as contas que não são dele, sem um marido que a culpe por existir do jeito que ela é. Eu queria ter um bebê. Tem gente que nos acha ainda muito novos para isso, mas eu sei que o tempo está passando. A cada mês eu perco uma chance e deve ser por isso que as minhas menstruações estão se tornando episódios tão dramáticos. Uma vez por mês eu sou a assassina de uma possibilidade. Quando ele, afim de me demover da idéia de ter um filhote, pergunta quem vai pagar as contas, eu nunca sei o que responder. Eu sei que eu devia procurar um trabalho, procurar cuidar de mim mesma, mas é tão difícil. Um dia ele disse que eu já era a filha dele e que, por isso, não queria ter mais nenhum filho. Na hora foi especial e nós até que transamos com uma certa vitalidade, mas depois, quando ele colocou a camisinha, tive vontade de chutá-lo para fora da cama. Dormimos abraçados a noite inteira e eu achei boba a idéia de querer deixar de ser filha. Acordei com vontade de vomitar e decidida a acreditar que estava mesmo grávida.
A minha amiga de adolescência sempre promete que vai vir me visitar, mas ela nunca vem. Eu prometo muitas coisas para ela em troca de uma visita. Prometo que vamos dançar como no tempo em que éramos adolescentes e ela solta uma gargalhada no telefone e lamenta que o nosso tempo de adolescente já passou e eu me lembro que só eu esqueci de crescer. Enquanto falamos inutilidades no telefone, cada minuto na linha é mais um que ele vai ter que pagar para mim. Não que o dinheiro nos falte, isso nunca foi um problema, o problema é saber que ele não vem de mim. Diante da inutilidade dos meus dias eu desejo, a cada dia um pouco mais, ter um filho que me liberte da culpa por não ter sido eu do jeito que eu pensei que seria. Minha amiga de longe diz que precisa desligar. Ouço o choro da pequena criatura antes do telefone ficar mudo.
Fumo um cigarro escondida de mim mesma na janela dos fundos olhando para a cidade acontecendo longe das ruas em que moro. Às vezes eu penso que devia estar lá, acontecendo com a cidade, mas depois agradeço à sorte por poder estar aqui. Eu gosto dele porque, com ele, eu posso ser eu. Olho para os produtos de limpeza e eles estão todos no fim e eu sempre esqueço de comprar e eu sempre penso que a diarista está roubando sabonetes, detergentes e rolos de papel higiênico. Ele paga as contas e eu mantenho a casa do melhor jeito possível, mas nunca tive coragem de revistar a bolsa dela. Qualquer jeito que eu der na nossa casa vai ser melhor do que o jeito que a mãe dele fazia quando ele era solteiro e morava com ela. Ela nunca fez nada alem de ler, ler e ler. E passar as tardes no cinema. Sendo assim, posso fazer o que quero na minha casa porque, para ele, nunca será pior do que era na casa da mãe porca. Posso passar três dias acumulando louça na pia e roupas no chão do banheiro que ele não reclama. Nem mesmo percebe. Ele só não gosta quando fica cheiro de peixe. Mas ele também não reclama. Quando é assim, ele vai para a cozinha e lava toda a louça sem reclamar. Eu tento impedi-lo mas ele pede apenas que eu lhe faça companhia. Fico escorada na porta da cozinha vendo ele lavar tudo. Seus dedos finos não sabem pressionar a esponja com força, nem fazer a espuma necessária e muito menos enxaguar todo o detergente que fica dentro dos copos. Um dia eu perguntei se ele sabia que os resíduos de detergente na louça eram o principal fator de infertilidade masculina. O prato escorregou e o barulho abafou a minha pergunta. Ele nunca quis saber o que eu havia dito naquela hora.