suddenly back

Yesterday I tried to get out of here.  First, I took a small bag and filled it with all my stuff. I was really decided to start a new life, so, I took the less things possible. Toothbrush, checkered shirts and socks. No books, no mp3 player, no handy. Before leaving, I watched my room and something really close to repulse took possession of me. If I was a snake, the room would be my skin: good-for-nothing.

Walking alone in the cloudy streets of yesterday was something close to a new world becoming real as the distance became steps. When I found a square, I took the bench. Trees whispering secrets that I didn’t wanna hear. Two brothers and a dog called “Luna”. Happiness runs – would say Donnovan fifty years before now. The cover of  “Selling england by the Pound”, from Genesis, was me lost in my own lonelyness in that lost square, in that lost city, close to that old hospital where I’m laying now. Getting free is just the chorus of a song that I’ll never sing. “Welcome back” said the old smiling lady behind the reception desk. “Holly me” said my timorous eyes.

When I woke up this morning, for the first time, I wasn’t singing that old Beatle’s song. I was back and nobody would ever suspect that, yesterday, I’ve had the nerve to leave.

room.

 

 

What I’d like to explain to you is this something about this kind of feeling of not belonging to nothing. Not even to myself. Today is just a sunday afternoon and there’s no rain. Nor sun either. Nor the Kinks nor whatever.

In the social area they have this old phonograph and someone is there listening to an even older Paul Simon’s recording. It’ s beautiful. Brings me memories of everything that I’ve never lived. That I’ll never live. I feel like drinking and I drink. And right after the first swallow I wonder how many  followed days of drinking I’ve had until now. And I think about giving up and I know it’ll never happen to me. Bukowski smokes in the cover of the book and he’s old. He got there, after it all.

Start writing in a foreign language is a little bit hard for me, but since the girl who works in this hospital asked me to write her about my feelings, I had to face it. The girl only speaks english, so I wanna do it for her. For someone who takes care of me. I donno when I’m gonna show her. I donno if I’m gonna show her, but I gotta start it.

Today is sunday. It’s a cloudy sunday in this city. Sometimes I go to the other room, the room where they have a window, and I stare there, watching the silent of the sunday in this city lost in the world. This is one of the biggest cities of the world, but from the only window, nothing seems to happen outside. So I stay here. Inside. With me. Writing to her. Or to you.

The last message that I got from her was a short email. She asked me to start a blog where we could be in contact. So, I took my dictionary and started it. In this room there’s no window. As I’m used to fall, I was obliged by myself to ask for a room without window. This is the only room without window and this is the only place where I can feel safe from myself. From my instincts.

There’s a lot of books in this room. Novels, the big majority. There’s a little collection of dvd’s. Artistic suicidal movies from the North of the world, where the light is always magic. Sometimes I lost myself in these films and I always find a way to die without leaving my life. It’s a good way to keep on living.

There’s two books on the table. The first bukowsky’s. The other book is some shit from Ali Smith. The only thing that I’ve put in the Green hospital wall is a big world map in front of my bed. Sometimes I get lost in your country, wondering where would we be if I were there. Or wondering in wich bed are you sleeping while I’m here, sleeping alone. I ask myself whose body is next to your. Or when, and if, you think about coming back. The world becomes smaller if you put a map next to you.

my feet in the corner of the street. vila madalena, são paulo, brasil

 

 

Pensei em não te mandar nenhuma noticia, prometi para mim mesma não te escrever, mas aqui estou te mandando esse email doze horas depois de você ter partido. Não sei pq prometo coisas que não vou conseguir realizar. Prometi não beber e estou na segunda garrafa de cerveja, esperei não fumar e já enrolei o segundo cigarro. Chove nessa praia onde estou disposta a viver uma experiência tropical profunda e intensa. Meus pés são dois petit-pois de mordidas de mosquitos e agora já passa da meia-noite. O único barulho é o frigobar que acorda de tempos em tempos. Na televisão passam apenas quatro canais: rede Record, TV globo, polishop e Sport TV. Estava assistindo a um pouco de televisão, mas não conseguia entender tanta superficialidade em um único aparelho.

De tarde fui na farmácia. Comprei camisinhas e uma tesoura grande para cortar meus cabelos. É sempre preciso estar preparada para tudo. O cara que cuida dessa pousada mora aqui com a sua mulher e eles me olham com uma certa admiração tentando entender o que faz uma jovem escritora se interessar por esse vilarejo onde, segundo Marisa, nada acontece. O marido de Marisa sorri sempre que me vê entrar na pousada e eu não entendo como ela não percebe que aqui, tudo acontece. Estou na segunda cerveja, passa da meia-noite e minha barriga está um pouco inchada. Estava sem grana para comprar vinho. Gastei muito com a tesoura e camisinhas. Comprei muitas camisinhas. Jamais subestimo minha capacidade de conseguir prazer. Faço sempre o possível ao meu alcance.

À noite fiquei deitada na cama, fumando e vendo televisão. bateram na porta do meu quarto e eu demorei um pouco até conseguir me coordenar. Meu fumo está acabando e eu preciso economizar. De vez em quando penso no meu marido e me pergunto se eu deveria sentir alguma falta dele. nunca sei o que responder. Às nove ele me ligou para contar sobre o quanto estava feliz em saber que eu estava disposta a começar um romance aqui nessa praia. estava satisfeito por eu ter encontrado um lugar aonde a minha criatividade pudesse aflorar. Fez questão de me trazer, passar o fim de semana comigo e me deixar sozinha na segunda feira. Sou a única hospede dessa pousada e agora passa meia hora da meia noite de segunda para terça-feira. Tenho internet no quarto mas evito passar muito tempo conectada para valorizar a calma local e focar no texto do livro.

Hoje escrevi.

Quando ele foi embora eu pedi para trocar de quarto. queria um lugar que não tivesse o nosso cheiro para eu começar a ser eu. Ele saiu e eu fui me despedir no estacionamento da pousada, estava morrendo de vontade de cagar e não consegui me despedir direito. Subi a escadinha e caguei muito, muito mesmo. tudo o que havia ficado retido durante o fim de semana, deixou o meu corpo assim que fiquei sozinha. Durante o cocô pensei em fumar e lembrei que meu fumo estava dentro da minha mochila e que minha mochila estava dentro do carro dele e me limpei correndo e desci a escadinha e entrei na recepção e pedi para a dona Marisa me deixar ligar a cobrar para o meu marido pq ele havia levado algo importante. Liguei. Ele atendeu ao segundo toque. “minha mochila ficou no carro”.

-       ok, estou voltando.

-       Você está muito longe?

-       Não se preocupe. Estou voltando, um beijo.

Quando ele disse “estou voltando” com tanta certeza, tive um pouco de medo de que ele fosse querer ficar e passar a semana comigo. Parece que o mundo inteiro conspira para que eu não fique sozinha, mas eu sei que não é assim.

Ele voltou buzinando na rua e eu desci correndo a escadinha mais uma vez e ele entregou a mochila cantando uma musica. Não disse nada. Apenas cantava aquela musica italiana. Buzinou e foi embora cantando animado. Fiquei parada no meio da ruazinha de terra dessa praia selvagem observando o seu carro desaparecer na esquina. Senti um alivio quando o ronco do motor virou silencio e subi a escadinha de volta para o meu quarto. Abri a mochila, peguei o resto de um cigarro, coloquei dinheiro e isqueiro no bolso e saí para a beira do mar. Precisava estar sozinha com ele, o mar, antes de começar a escrever. Posso não ser escritora, mas respeito os meus rituais.

Eu não sei qual é o limite do vício, mas sei do que me falta para estar completa. Aos poucos a ordem natural dos dias deve voltar ao seu curso natural. Minha mãe sempre diz que visita tem dois momentos bons: o momento da chegada, e o momento da partida. Minha mãe é uma mulher muito sábia. Eu não sei o que me leva a contar todas as mentiras da minha vida para uma pessoa que eu não conheço. O personagem mais fácil de executar é sempre para uma platéia de desconhecidos então eu finjo que não te conheço para me expor um pouco mais.
Ontem uma amiga me ligou para contar que começou a freqüentar um terreiro de candomblé e eu perguntei se ela tinha raspado a cabeça. Ela disse que ainda não, mas que secretamente ousava esperar por esse momento. Contei que eu estava passando pela mesma vontade louca de raspar os cabelos desde que havia visto um clipe da Sinead o’connor, mas ela não deu nenhuma importância. Continuou falando sobre o abraço apertado e quente da mãe de santo. De vez em quando eu emitia algum grunhido só para ela não se sentir muito sozinha. Olhava para o comprimento das minhas unhas, para o esmalte lentamente se afastando das cutículas e pensei que talvez eu devesse me cuidar um pouco mais. Eu sei que quando eu cuido da minha aparência toda a vida em volta de mim tende a melhorar. Quando estou bonita, as pessoas me escutam mais. Quanto mais atenção eu presto em mim mesma, mais as pessoas fazem o mesmo em relação a mim. É tudo uma questão de relatividade, tenho estudado sobre isso.
Desliguei o telefone e voltei para o escritório. Fingi que a linha havia caído. Não gosto de telefone sem fio porque a mobilidade do aparelho acaba fazendo com que eu passe mais tempo do que o necessário falando ao telefone e falar ao telefone nunca é necessário. Sentei na frente do computador e o telefone tocou na sala. Devia ser ela afim de continuar o monologo e eu estava decidida a não ser a platéia conhecida daquele personagem que não me interessava. O telefone insistiu tanto a ponto de me fazer voltar para a sala e enfrentar a continuação do texto sem fim. Era a minha mãe.
Minha mãe nunca me telefona no meio do dia e eu também não estava com muito saco para falar com ela. Não gosto de perder meus preciosos momentos de solidão falando com quem não me interessa. Ela ficou me perguntando sobre os meus dias, se estava tudo bem, se eu tinha saído no fim de semana. Respondia qualquer coisa enquanto arrancava pequenas lascas do esmalte do dedão. A voz da minha mãe era quase um mantra no qual eu não precisava prestar atenção para me acalmar. Bocejei e ela perguntou porque eu sempre bocejava quando falava ao telefone. Pedi desculpa e ela ficou um tempo em silêncio. Ficamos as duas escutando nossas respirações como um casal que espera a primeira palavra para voltar a se falar. Ela perguntou se eu já tinha dado o meu cu e eu comecei a rir. Acho que ela ficou com vergonha, porque não falou mais nada depois disso. Eu perguntei porque ela queria saber e um fiapo de voz respondeu do outro lado da linha, há mais de três mil quilômetros de distancia, que “não é nada não”. E desligou.
Passei um tempo ao lado do telefone desejando secretamente que ele tocasse de novo e que fosse ela me pedindo para confessar um segredo qualquer. Eu diria que já dei o cu, que já bebi porra e que gosto de usar calcinha vulgar e fingir que sou estuprada. Também poderia ser ainda mais franca e dizer que nunca faço nada disso com o meu marido, mas ela não ligou mais. Terminei de arrancar o esmalte de todas as unhas da mão esquerda e joguei para fora da janela as lascas vermelhas que haviam caído sobre a camiseta.

para kelly – a que ficou sozinha

Eu não lembro quando foi a primeira vez que ele esqueceu de me olhar antes de fechar a porta e sair para o trabalho. No começo ele procurava por mim antes de sair e me dava um beijo na boca e eu podia sentir a barba machucando a pele fina envolta dos lábios. Pensava nas próximas oitos horas sozinha em casa e a possibilidade de eu desaparecer por completo era real. Os fios grossos e duros irritavam menos quando a iminência da solidão era presente. Ele pegava na minha cintura com um pouco de força para dizer que sentiria a minha falta. Eu fechava a porta para ter certeza de que havia mesmo saído.
O que sobrava era uma espécie de alivio misturada com euforia diante de mais um dia para eu ser livre.
Eu não lembro quando foi a primeira vez que ele esqueceu de olhar para mim antes de fechar a porta. Talvez eu tenha ficado parada, olhando para a madeira pintada de branco e tentando entender se era mesmo assim que as coisas deviam ser. Que as coisas seriam. Tateava o meu próprio corpo só para ter certeza de que eu havia mesmo me tornado invisível. O barulho dos sapatos desceu todos os degraus que compunham os três andares que nos separavam do chão. Parada no meio do tapete da sala eu era inteira um ouvido escutando cada ruído que ele fazia para dizer que estava mesmo indo embora, mas que voltaria para casa no final do expediente. O barulho da porta de metal do prédio batendo com força. A fechadura do portão que rangia quando era aberto e depois voltava a ranger ao ser fechado. Se prestasse bastante atenção e se a rua, por milagre, estivesse silenciosa, dava para entender o esganiçado fininho do terceiro portão: o choro contido de uma criança no primeiro dia de escola.
Quando a tarde avança tumultuada eu olho para o mapa do mundo colado na frente da minha mesa e traço rotas por onde eu poderia fugir de mim mesma. Quando a vontade de partir se torna insuportável, entro no Google Maps e escolho um ponto qualquer entre NYC e São Francisco. O mundo inteiro pode caber entre essas duas cidades. Nessas tardes de chuva e tédio ouso escolher um carro antigo e narrar as aventuras de uma viagem em um blogue secreto que ninguém pode saber que existe. Ultimamente tenho vagado pelas estradas do Texas enquanto ouço Townes Van Zandt nas pequeninas caixas de som do monitor. Em alguns pontos da estrada a quantidade de câmeras é tamanha que posso fazer rodopios de trezentos e sessenta graus sem perder nenhum frame de vida real. Abasteço o carro quando a distancia percorrida exigiria gasolina, entro em algum bar de beira de estrada quando sinto vontade de observar os caminhões estacionados sob o sol forte da periferia de Dallas e um dia tive coragem de oferecer carona a um desconhecido.
Às vezes eu esqueço de colocar a chave na porta do apartamento para que, caso ele volte sem avisar, eu não seja pega de surpresa fazendo o errado. Por mais que as coisas erradas que ouso fazer não sejam físicas, conservo um certo receio de ser pega no ato. Quando ofereci carona àquele rapaz em uma estrada do Colorado eu sentia que meu marido poderia voltar e descobrir quem eu era de verdade. O blogue, Google Maps, a minha solidão. É certo que eu voltaria correndo para o nosso apartamento, mas mesmo assim ele saberia, pelo ofegante da minha respiração, que até então eu não havia estado lá. Ele saberia pela tristeza do meu olhar que eu não devia ter saído do meu pequeno escritório onde eu e um outro ele, cruzávamos juntos os Estados Unidos da America nas páginas de um GoogleMaps.
Quando não tenho nada pra fazer, quase todos os dias da minha vida, passo um longo tempo pensando na sorte que eu tenho e enumero motivos para estar feliz. Olho em volto e vejo a casa que ele mantém e onde eu posso morar sem precisar pagar nenhuma das contas. Fico feliz por nunca ter sido pega fazendo coisa errada. Um dia eu me dei conta de que eu não fazia nada de errado, nada mesmo, e que mesmo a viagem pelos Estados Unidos eram só horas acumuladas em um site e nesse dia eu fiquei triste por ter, pela primeira vez, ousado duvidar de uma vida de aventuras que eu havia criado para mim. Quando ele decidia voltar para casa no meio da tarde, sempre ligava antes para avisar ou para saber se podia. Eu sempre ficava irritada, mas fingia que não. Fingia que era bom ser pega de surpresa pela presença física de um homem. Mesmo que esse homem fosse o meu. Eu era obrigada a abandonar o meu carro em algum estacionamento e memorizava a latitude e longitude exatas do ponto onde havia parado. Às vezes não dava tempo de encontrar um lugar seguro, então eu abandonava o Mustang conversível na beira de alguma rodovia. É certo que levantava suspeitas, mas naquele país distante bastava um clique no mouse para eu não mais existir.
A nossa casa era muito mais minha do que dele, por mais que sempre tenha sido ele o responsável pelas compras dos objetos novos, pela troca anual dos tapetes e pelo abastecimento constante dos armários. Eu entrava com o bom gosto e ele entrava com o dinheiro e aquela parecia uma troca bastante justa. Foi assim que construímos o nosso pequeno patrimônio: uma coleção de discos de jazz dos anos trinta, um faqueiro de prata espanhol e os dois óleos modernistas pendurados na sala. Era o que precisávamos para que pudéssemos continuar acreditando que havia valido à pena.
Agora a tarde está na metade dela mesma e hoje eu estou na metade da minha vida e eu não tenho nada para fazer. O Google Maps perdeu a graça quando eu perdi a vontade de oferecer carona para desconhecidos. Estar perto é muito mais físico do que as pessoas ousam acreditar. De vez em quando chega um email com pouco mais de duas linhas que a minha amiga de adolescência escreve lá de longe, no lugar onde ela mora e onde um dia eu também morei. Onde ela cria a filha e a filha dela é a menina mais bonita da pequena cidade. Às vezes eu também queria ter uma menina pequena e bonita para o meu tempo passar mais depressa e talvez valer à pena. As duas, a filha e a minha amiga, moram sozinhas numa casa e eu acho que elas devem ser felizes assim, sem um marido que volte no meio da tarde, sem um marido que pague as contas que não são dele, sem um marido que a culpe por existir do jeito que ela é. Eu queria ter um bebê. Tem gente que nos acha ainda muito novos para isso, mas eu sei que o tempo está passando. A cada mês eu perco uma chance e deve ser por isso que as minhas menstruações estão se tornando episódios tão dramáticos. Uma vez por mês eu sou a assassina de uma possibilidade. Quando ele, afim de me demover da idéia de ter um filhote, pergunta quem vai pagar as contas, eu nunca sei o que responder. Eu sei que eu devia procurar um trabalho, procurar cuidar de mim mesma, mas é tão difícil. Um dia ele disse que eu já era a filha dele e que, por isso, não queria ter mais nenhum filho. Na hora foi especial e nós até que transamos com uma certa vitalidade, mas depois, quando ele colocou a camisinha, tive vontade de chutá-lo para fora da cama. Dormimos abraçados a noite inteira e eu achei boba a idéia de querer deixar de ser filha. Acordei com vontade de vomitar e decidida a acreditar que estava mesmo grávida.
A minha amiga de adolescência sempre promete que vai vir me visitar, mas ela nunca vem. Eu prometo muitas coisas para ela em troca de uma visita. Prometo que vamos dançar como no tempo em que éramos adolescentes e ela solta uma gargalhada no telefone e lamenta que o nosso tempo de adolescente já passou e eu me lembro que só eu esqueci de crescer. Enquanto falamos inutilidades no telefone, cada minuto na linha é mais um que ele vai ter que pagar para mim. Não que o dinheiro nos falte, isso nunca foi um problema, o problema é saber que ele não vem de mim. Diante da inutilidade dos meus dias eu desejo, a cada dia um pouco mais, ter um filho que me liberte da culpa por não ter sido eu do jeito que eu pensei que seria. Minha amiga de longe diz que precisa desligar. Ouço o choro da pequena criatura antes do telefone ficar mudo.
Fumo um cigarro escondida de mim mesma na janela dos fundos olhando para a cidade acontecendo longe das ruas em que moro. Às vezes eu penso que devia estar lá, acontecendo com a cidade, mas depois agradeço à sorte por poder estar aqui. Eu gosto dele porque, com ele, eu posso ser eu. Olho para os produtos de limpeza e eles estão todos no fim e eu sempre esqueço de comprar e eu sempre penso que a diarista está roubando sabonetes, detergentes e rolos de papel higiênico. Ele paga as contas e eu mantenho a casa do melhor jeito possível, mas nunca tive coragem de revistar a bolsa dela. Qualquer jeito que eu der na nossa casa vai ser melhor do que o jeito que a mãe dele fazia quando ele era solteiro e morava com ela. Ela nunca fez nada alem de ler, ler e ler. E passar as tardes no cinema. Sendo assim, posso fazer o que quero na minha casa porque, para ele, nunca será pior do que era na casa da mãe porca. Posso passar três dias acumulando louça na pia e roupas no chão do banheiro que ele não reclama. Nem mesmo percebe. Ele só não gosta quando fica cheiro de peixe. Mas ele também não reclama. Quando é assim, ele vai para a cozinha e lava toda a louça sem reclamar. Eu tento impedi-lo mas ele pede apenas que eu lhe faça companhia. Fico escorada na porta da cozinha vendo ele lavar tudo. Seus dedos finos não sabem pressionar a esponja com força, nem fazer a espuma necessária e muito menos enxaguar todo o detergente que fica dentro dos copos. Um dia eu perguntei se ele sabia que os resíduos de detergente na louça eram o principal fator de infertilidade masculina. O prato escorregou e o barulho abafou a minha pergunta. Ele nunca quis saber o que eu havia dito naquela hora.

É complicado se sentir tão sozinho como me sinto hoje, no meio dessa noite. Você tentava me explicar a solidão que sentia quando se descobriu traída e eu descubro a solidão que sinto quando as minhas próprias palavras encontram um eco feio e mesquinho dentro da sua voz. Esse é o caminho do desapaixonar-se e eu sinto que nossa estrada está chegando ao fim. Você terá um futuro brilhante e eu voltarei a morar na casa dos meus pais. Tudo o que se pensa é, existe e tem. E você, aceite, você não precisa mais de mim. a vida real te consumiu e só você não percebeu.
Agora é uma madrugada de terça para quarta feira e o mundo hoje não me deixa ser quem eu sou, mas eu prometo agüentar só mais um pouco. Prometo agüentar só mais um pouco vivendo nessa casa, cercado dessa rotina. No dia em que o seu dinheiro ganhou força para você me rebaixar, foi que eu deixei de gostar de você. Desdenhe o que me faz viver e eu serei o escravo. Cobre gratidão pelo que você me dá e eu começo a deixar de te amar. Não adianta mais fingir. Fizemos uma obra e deu.
O resto é dos outros. dos telefonemas. Da revista. Dos fotógrafos. Vou embora desse mundo que te fascina. Brilhe sozinha sob as luzes do cafonismo. O Brasil é grande demais para nós dois. Sempre haverá uma terra onde eu poderei ser do tamanho que eu nasci para: gigante.
Detesto são Paulo e as suas listas vip. Detesto são Paulo e seus protegidos. Cuspo na boca de quem me elogia e detesto teu sorriso de “agora está tudo bem”. Apodreça sozinha. se eu prefiro o suicídio é só pq já nasci morto.

Na sala roda o LP Holiday, do America. Sim. Comprei o America, em BH. No maleta. Já falei sobre o maleta aqui? Já falei que eu nunca releio os textos que escrevo aqui? Não corrijo. Não edito. Uns chamam de fluxo de consciência, mas eu prefiro chamar de conversa. Acho que a maioria das pessoas que entra aqui são os meus amigos, e quando eu estou perto de vocês eu me sinto protegido. Isso que é o foda de se levar uma vida solitária por muito tempo. Ou isso que é o bom. Sabemos dar o real valor das coisas que um dia já nos fizeram falta.
Às vezes eu fico chateado por morar longe demais de pessoas que eu amo. Queria ver mais a minha avó. Queria ver a minha mãe em um dia sem mim. queria saber como a minha primeira afilhada se veste para ir à escola. No telefone eu perguntei se a minha avó estava melhor, após a morte do meu avô (perdi meus dois avôs nesse ano). “Bem melhor, essa semana ela até plantou uma flor nos fundos”. É louco como cada um encontra uma forma de mostrar que está bem. Minha avó volta a mexer na terra. Just like me.

Observo a tarde passar. Apesar de atribulado, o dia hoje tem passado extremamente devagar. É como se, no dia de hoje, eu pudesse e devesse atravessar todos os estados de espírito possíveis.
Acordei com o mundo caindo sobre São Paulo. Raios e tempestade e não dava para ter certeza se era dia ou noite. A chuva era bonita. Ainda dormindo lembrei que a janela da sala não estava completamente fechada, e saltei da cama. Cheguei na sala e passei dois segundos no máximo olhando para a tempestade. Voltei para os cobertores e aqueles dois segundos se processaram em um looping eterno e eu adormeci com o barulho de chuva. Barulho de chuva é a casa onde cresci.
Nesse tempo fiquei com medo de que o despertador não tocasse e eu perdesse o primeiro dia de academia. Dormi pensando em acordar às nove horas e não dava para saber que horas eram porque chovia e a claridade, com chuva, é sempre relativa. Não há o sol batendo em um ponto específico da janela marcando 8, 9, 10 horas…

Estar afastado não é o mesmo que estar sozinho. Agora o sol entra pela janela e atravessa o celofane amarela e deixa tudo mais quente. Gosto da luz amarela. Quando criança não gostava. Ficava triste quando o sol entrava dentro de casa porque eu sabia que era hora de estar fora dela.

Ontem as ameixas ameaçavam amadurecer. Cachos de ameixas verdes melhorando um pouco mais a cada dia. a natureza mostrando o seu melhor. Toda a arvore convergia para fazer o melhor suco, a fibra doce na medida exata, o caroço germinado para gerar filho. Hoje as ameixas estão secas. Perdi a hora de comer. Notei que o galho parecia mais longe. Como se depois de amadurecer a árvore se recolhesse para descansar. As folhas brilham menos quando os frutos estão secos. Sabem que é hora de dizer chega, mas ainda não sabem como se desprender. Estar afastado não é o mesmo que estar só.