O primeiro choque daquela realidade foi quando vi uma raposa no campo congelado. Eu havia tido uma noite intensa demais com meus personagens, precisava de um descanso apos uma hora e meia de sono. tinha que estar às 06 e 50 no ubahnof. Pelo site bvg.de, eu teria que estar na senefelderplaz às 06:02 da manhã. teria que acordar às 05:30, calculei. O primeiro probleminha veio quando me dei conta de que não tinha despertador. Estava desperto, bebendo weißbeer e escrevendo, que acabei nem saindo à noite. Meu plano original era pegar uma festa com a bagagem, sair meio bêbado direto para a estação e ir dormindo até Amsterdam. E foda-se a paisagem. O que aconteceu foi que eu não fui na festa pq o flyer eletrônico que tinham me passado era de 2009. Mais looser impossível. Resultado foi que, de copo de weißbeer em copo de weißbeer fui conversando mais e mais com meus duendezinhos, que lá pelas tantas quebaladoquê.
Tres e meia da manhã eu já estava nocauteado. Calculei 05:30 como um horário razoável para acordar. só que eu não tinha despertador. Nem celular. Estava sozinho em casa e, como sou o único que não tem celular, fiquei sem despertador. Cogitei várias possibilidades, até te pedir que me ligasse às 05:30 do outro lado do país. Bem lá em cima. Razoável e criativo, lembrei do timer que tem na cozinha e que eu nunca usei para nada. Inútil quando se trabalha unicamente com intuição. E quando o silêncio é o preço mais caro a ser pago simplesmente pq é também o mais precioso. Peguei o timer apertei-apertei-apertei e qdo chegou no 99 minutos, voltou para o zero. Pelo menos eu tinha certeza de que eu só teria 99 e minutos de sono corrido. Sei lá que cálculos que fiz, mas eu tinha que acordar às 05:30 da manhã. não sei qual foi a lógica do meu raciocínio, mas talvez, naquela hora, eu só não havia me dado conta de que perder um trem equivale a perder o direito de viajar. Sua passagem JAMAIS será reembolsada. Se o estado te respeita você precisa respeitar o estado. Se o nosso trem parte às 06:58 da estação, é perfeitamente possível calcular através do site o horário exato a se pegar o primeiro trem na estação mais próxima do seu endereço. Se até o trajeto a pé é calculado com precisão, então se dê ao mínimo de calcular seu despertador e cumprir com as SUAS obrigações.
Lá pelas tantas tava eu naquela moleza e me liguei de que nossa como estou de boa nessa cama. Nem parece que fui dormir há tão pouco tempo e lararirara QUE HORAS SAO??? 05:48. Ta, daí foi aquela correria pq eu tinha calculado os minutos no timer mas não tinha apertado um botão embaixo escrito “start”. Levantei da cama e era uma vez a idéia de fazer a barba. Escovei os dentes meio que correndo e uma hora me dei conta de que devia acelerar. Aí eu acelerei aquilo que eu estava fazendo. Não lembro exatamente o que era. Mas acelerei.
Depois eu estava correndo a kolwitzstraßeaburguesiafede e entrando no senefelderplaz e voando pra praça do Alexandre e acertando todas as anotações. Pela primeira vez eu tinha um moleskine com anotações de viagem. Tipo moleskine falsificado. Me senti meio gente grande fazendo coisa de criança. Anotei bonitinho tudo e, acho que só por anotar e me programar antes, deu tudo perfeito. No caminho eu agradeci ao meu deus da organização que é aquele que me faz sempre acordar na hora certa. Se deus sou eu eu posso tudo. Até mesmo me adaptar organicamente à regras estrangeiras. Às mais restritas regras estrangeiras. Perder 100 euros se eu perdesse aquele trem. Se eu perdesse aquele trem eu estaria fodido, mas eu ainda não sabia disso.
Brasileirinho, cheguei às 05:17 na estação. Brasileirinho ou chega irracionalmente antes, ou chega atrasado. A regra da pontualidade implica um pouco mais de confiança na organização da cidade. não sei até quando vou esperar o próximo vacilo para apontar uma semelhança. Brasileirinho, congelei na estação e chequei com duas pessoas se eu estava na plataforma certa, por mais que as telas planas anunciassem em nítido e bom alemão que eu estava na plataforma certa, bastava checar os numerozinhos escritos na minha passagem. À minha volta, todas as pessoas carregavam pares de esquis embaixo dos braços. TODAS. Famílias inteiras, grupos de amigos adolescentes homens, duas amigas de 30 que talvez fossem namoradas ou que talvez estivessem juntas à procura de homem. Tudo pode ser reduzido à mera banalidade se for visto com preconceito. Crianças e seus mini-esquis. Todos protegidos do frio, não tremiam o queixo brasileirinho. Só eu. Meu queixo, e a barba que não consegui fazer porque acordei atrasado. Mas acordei.
Trem aquela coisa normal. Todos sorrindo. Dois negros quebrando a harmonia do olhar do careca duas poltronas na minha frente. O marcador do meu livro era um panfleto anti-nazi que ganhei numa passeata. Não tinha energia para ler àquela hora da manhã. queria ficar acordado para ver um pouco da natureza glacial. Também não quis ouvir fone de ouvido (que só tinha cat Power, cat Stevens e Neil Young – o que já está me entediando, devo confessar). As vozes das pessoas exalando a esperada cordialidade germânica. Perfumes de bem estar. Famílias rumo aos Alpes. Uma gorda fedendo a alcool entrou com o marido cabeludo com um cachorro fedido e todo o mundo fez cara de nojo sem precisar torcer o nariz. Soltei um peido porque sempre relaxo no preconceito. Foi assim que cresci. A hostilidade tem um doce cheiro de volta ao lar, então eu peido como se estivesse embaixo do meu cobertor. Fechei os olhos e fiquei ouvindo as conversas em alemão. Captando frases. Reconhecendo assuntos. Sendo arrombado de nostalgia quando algumas interjeições vinham carregadas da voz da minha tia de Linha Bastos ou do meu primo de Marques de Souza, o Pastel, que morreu eletrocutado ninguém sabe como. Pirações da colônia que todo o mundo acha normal. É meio assim que me sinto aqui. Familiar a ponto de peidar no trem.

As notícias que mandamos para casa são cifradas demais para serem reais. Por isso preferimos não nos ater ínfimos vínculos para atestar nosso amor. Não nos falamos desde o portão de embarque do aeroporto de Guarulhos. O aeroporto de Guarulhos nunca foi tão distante. A última vez que nos falamos ao telefone. Se eu estava irritado era só porque eu estava com muito medo de andar de avião. O provável do meu vôo sempre é a queda e eu não quero ver o mundo tão pessimista quando sou um passageiro. Quando o avião decolava a sensação que sempre tomou conta do meu peito era de desapego. De deixar para trás algo que precisava ser deixado para trás. O pânico de voar torna cada viagem um caso de vida ou morte reais. Não sei se foi por isso que decidi comprar esse trecho Berlim Amsterdam. Mãe, se você estiver me lendo agora essa é só uma carta de amor. Ou a minha orelha para você.

Nunca sei porque volto. Às vezes nossos portos seguros são espaços virtuais onde nos agarramos em alguma possibilidade de continuar. Que bom que você entendeu. Não falo sobre amarras. Falo sobre transmutação de possibilidades. Reconforta-me saber que, quando me lê, me entende. É para você que aceno daqui de longe. Sempre estamos em lugares distantes, não posso quão perto as portas dos nossos quartos possam estar. viajar é muito mais físico do que talvez eu tenha pensado que pudesse ser. Às vezes fico horas olhando os patos no córrego que cruza o lago do parque. Quando meus pés deveriam estar congelados, sinto que a umidade dentro das minhas meias vem do calor, não do frio. viajar é permitir-se sentir alem do óbvio. Por isso gosto de ficar sozinho. Habitar espaços onde não sou é vislumbrar de sol quando meu olhar encontra o de alguém e novas formas de triangulo se completam, sem nunca se complementar.
Recebi uma carta bonita hoje. Falava sobre ser visgado pelo mal de escrever. Estranho. Eu ainda não senti esse mal. Talvez ele venha com a idade. Coisas que sinto quando leio sobre o Piva. Para onde o mundo está indo? Nunca fez tanto frio. meus pés nunca estiveram tão quentes, e o air continua tocando Kelly watches the stars há dois metros do meu nariz. Sou ou não sou um cara feliz? Até quando a realidade vai me dar provas concretas da sua generosidade e eu vou correr o risco de não corresponder. O mundo não é meu velho conhecido. Nem quero que seja. A liberdade que me permito é acenar do alto da montanha, do outro lado do seu travesseiro. Dormimos sobre o mesmo colchão, mas nunca dividimos o mesmo cobertor. Talvez seja esse o segredo da nossa felicidade. Fica aí a receita para quem quiser testar. Toca Hotel Califórnia nesse cidade menos vinte graus. Estamos na fase em que os ventos da Rússia incidem diretamente sobre a cidade e é mágico. É mágico ver a lua cheia de cabeça para baixo. Sim. Aqui a lua cheia é de cabeça para baixo.
Hoje, no fim do dia, em kreuzberg, olhei para o céu e as nuvens voavam depressa demais. A lua estava cheia, ou quase, mas estava linda no meio da escuridão. E o coelho saltando, que eu sempre vejo, e ninguém vê, ou a ave Maria, tudo estava de cabeça para baixo. Foi a primeira lua cheia que eu contemplei nesse ano de 2010. O bom do inverno é que tudo anda devagar. Que dormir ou não dormir, no fim das contas, acaba sendo tudo a mesma coisa.
É estranho compreender que tudo é equivalente. Estar ou não estar. falar ou não falar. Sorrir ou não sorrir. Por isso gosto de rebolar no metrô. E por isso as vozes de vocês dois, gritando mais do que o bom senso permitiria, me deixa tão feliz. É quando sinto que posso ser só um estrangeiro preocupado com o manejo social. Estranhos controles tem tomado conta de mim nesses dias de Berlim.
Na real, eu só espero que tanto os cartões postais, quanto os contratos de trabalho cheguem aos destinatários dentro do prazo prometido. De resto, to fazendo a minha praia na cidade do futuro.

it’s all over now babe blue.

And so, last night at the U-BAHN, you asked me why were we talking in english. – because I don’t wanna talk only to you. I wanna be heard by the others around me. the greatest fear I have to face everyday is the iminent possibility of never coming back. last night, inside a lighty train crossing the city, I realised to myself how stupid was I trying to control my instincts when back to home. This city never frozes. There’s snow all around. Thousands of tons of snow. Sometimes I almost fall and it’s funny. Just the nature finding a way to me make me smile. Sometimes, in the middle of this no sun january’s afternoon, I glimpse my eyes trying to wonder the sun on the other side of our heads.
Today I took ubahn alone. It’s like if, suddenly, I could catch-me in the no future, no plans, just a train and a city.
As far as it snows. As far as I know. Take a train to nowhere at least once a week is necessary if beeing alive.


somewhen new years eve berlin 2010.

Sometimes it’s just because a crazy person from Istambul is thinking about you right now. Connections are avaiable to happen everywhere you are. It doesn’t matter if in front of a café where you just leaved your show. You will never be happy enough with your show, but if, after it all, after all those tears, you are opened to meet a brazilian man, 30 years old, smiling lips and hot hands, what can you do if not kissing him? The fact is that I would never resist to myself. That’s what I’m thinking here in this icy land. Women are ready for all. Men are crazy walking around over questions. I’m a woman. You no. You are just a cowboy Singer old boots. But that night, when we’ve met, you were joni Mitchell red lips Black hair. Flying back to my city in two days, for the first time. World is just a crazy place to live, when you’r open to it.


Only when I discovered these pictures in your cam that I was finally ready to understand what I was feeling about love. Sometimes connecting acts and ideas are just a matter of self protection. “Here is so cold” – It’s impossible to count how many times I’ve repeated this sentence with no awarness that everything that is obssessively said will, sooner than we can wait, become real. Everyday, after the work, while I’m dressing to go back home, I think about the cruelty of the nature in this part of the world. That’s why I’ve choosen for not working today. It’s impossible not asking myself what daffuck am I doing here when the wind is cold, when the ice is stormy, when the storms are ready to explode inside our house. Poltergeist effect – have u ever heard about it? It’s impossible not missing the hot Summer breeze of a christmas day, when my mom, pretending to be Santa, spread gifts under the tree. Today I woke up and today, for the first time, it wasn’t necessary leaving home to find myself. I didn’t even change clothes. My skin is getting whiter and whiter and, when u’ll see me again, u’ll call me michael. The day is beautiful through the window because the snow is floating gently and I don’t wanna face its cruelty under my skin. Just for a day I won’t leave this little coocon. This little kolwitstraße coocon. Please. Only today I wanna be protected from the cold. From the nature. From this unsuspected kind of love that glimpses every time my eyes catch yours. Now it’s playing Gal costa, that brazilian singer that, as you were saying one night after the first, had a material voice. When you were trying to explain-me how materially did her voice enter your body, touched your skin, I was relieved. Sometimes beeing close is just a way of seeing the same world, hearing the same needs and protecting ourselves from the same dangerous kind of desire. It’s just a way of finding any excuse to be close. Doesn’t matter if it’s in a coffe table, or on a dancefloor. I know we’ll never be together in the same bed, and I don’t want to. Beeing naked by someone’s side is something that I’m learning not to need. Nobody will fuck me in this trip. And it’s just all right. Mental sex, sometimes, is much funner than skin to skin. Lip on lip. Body talk. Sorry for not beeing a woman.

Apesar de estar dentro do café, sinto frio. ouso duvidar que o sistema de aquecimento esteja funcionando perfeitamente. Não entendo porque meus sovacos insistem em chorar. Duas cachoeiras se formam sob meus braços, descem pelas costelas e fazem um tipo de carinho que ninguem mais. é complicado suportar a ausência absoluta de toques. O conforto é pesado demais quando depende apenas de você para acontecer. nada me conforta nessa parte do mundo, nessa época do ano. O sol não aquece, a brisa congela, o chão escorrega perigosamente. Cada passo é uma comemoração interna por ainda estar de pé. Calafrios brotam debaixo dos meus braços e servem apenas para congelar ainda mais. eu não sei se você entende o que estou falando, mas eu preciso desesperadamente de um tipo qualquer de calor.
Ontem eu entrei na banheira e chorei. Simplesmente porque meus corpo pedia para chorar. Antes que a água ficasse fria eu me sequei, vesti a roupa e entrei no quarto. E quando eu fechei a porta eu chorei. Simplesmente porque eu precisava chorar. Sem motivo aparente algum. Simplesmente porque precisava chorar.
Quando a claustrofobia se tornou insuportável já era madrugada. Vesti muito menos roupa do que o necessário e desci correndo as escadas e desci correndo a kollwitzstraße. Sem sabe para onde ir. Onde queria chegar. alguns cafés tinham luzes coloridas, tímidas e as pessoas que passavam por mim eram silenciosas. O café burguer estava aberto e eu achei que devia entrar. A musica estava animada.
Enquanto perguntava o preço da entrada, o segurança levou dois caras para a rua. enquanto esperava o cara voltar, uma garrafa entrou voando para dentro do salão e eu sempre sonhei ser recebido com uma garrafada na cabeça. Passou por poucos centímetros de mim e eu comemorei internamente a possibilidade de um confronto real. De uma fisicalidade qualquer acontecendo com meu corpo. Eu queria sangrar. Ter algum motivo real para chorar. Um dos bêbados caiu de cara no chão do alto do seu banco e depois levantou tentando entender o que havia acontecido com o próprio corpo. Eu sorri e guardei meu casaco no cabideiro comum, onde somente os desapegados ousam deixar seus casacos. Pedi uma weissbier. E começou a tocar sunny afternoon em um disquinho de vinil. Cheguei perto do DJ e cantamos juntos. Eu pensando no nelo e ele pensando em coisas que eu nunca vou saber.